quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ao ocaso, ao acaso

*

Por Germano Xavier


na soleira de nossos dias
o inadiável convite

aguardando nossas ordens,
impotente, o destino

rumamos incertos

ao ocaso
ao acaso


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Winter-Tales-95795613

Aguda resistência

*

Por Germano Xavier

"Liga a moto, porra! Liga a moto!
Tem alarme? Tem segredo? 
Liga a porra da moto, carái!
Passa a mochila! Celular, porra!
Quer morrer, porra?! Quer morrer?!
Vaza, vaza! Corre pro mato, carái!"

sobre uma terça insana, e real...



sejam feitos de esquecimento
os meus passos

máquina de fazer passado
o trato diário

na desforra do que se foi

minha paz
minha ferocíssima calma


Imagem: http://www.deviantart.com/art/005-75937355

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Ardidas memórias

*

Por Germano Xavier


Uma vez eu me perdi com minha prima no sítio do meu avô. Eu tinha uns dez anos de idade. Ela, uns doze. Tínhamos ido buscar mangas e nos perdemos. O sítio ficava a bons quilômetros do centro da pequena cidade onde morávamos. Interior daqueles bem frondosos. Fomos aparecer no sítio vizinho, entre o cair da tarde e o raiar da noite. Andamos em mata fechada e nos arranhamos muito. Minha mãe já existia desde então. Remedinho nas mãos. O ardido nos ajudou. Evitou infecção. Quem sabe, até a morte.

Glorioso.

Viva como nunca. A memória é assim, inesperável. Quando menos se, lá ela em nós, em recordações a nos fazer parar.

Estanquei.

Naquele dia, sem cadeira de balanço, ali mesmo à mesa da lanchonete no centro da cidade feroz, um eu, um de mim, homem já formado, trinta e poucos anos, lembrei que a minha infância representou o tempo das feridas abertas. Dos arranhões. Dos cortes. Das sangrias. Não o tempo das dores indefinidas, das dores sem nome, as mais perigosas. Mas o tempo das quedas das altas árvores porque almejei olhar a menina que perambulava no outro quintal, dos joelhos lacerados, dos dedões dos pés topados depois das partidas de futebol no meio da rua.

Quantas saudades das peladinhas a la modalidade “travinha”, onde nossos chinelos serviam de barra!

Agora, no saboreio insosso desta pequena xícara de café impiedosamente frio e adoçado, a contragosto observo que as feridas da infância eram lúdicas, poéticas, não doloridas. Na caixa de medicamentos, que minha mãe guardava por detrás do espelho do banheiro, havia o Merthiolate. Um frasquinho, sempre à espera. Aquela ardência ajudava a imprimir as memórias. Depois, a dor se perdia na beleza e na pureza das lembranças.

O remedinho ardido ajudava a sarar. E ficavam somente as boas recordações do acidente de brincadeira.

Agora ele não arde mais.

Apurei as vistas, como quem busca um resquício de luz no meio do breu. Minha prima nem deve se lembrar.

- Por que a pressa?

- Não estou com pressa, Jó.

- Para onde estamos indo, então?

- Manga verde com sal e pimenta do reino, já comeu?

- Minha mãe me disse que faz mal.

- Crer nisso é que faz mal, Jó. Venha!

Jó era estabanada. Empolgou-se. Saiu abrindo picada para todos os lados com seu corpo, que era maior que o meu. Nem ligava. Eu ria dela, adorando o seu fervor. Coitadinha, foi quem mais sofreu com as arranhaduras naquele dia de exploração.

Difícil mesmo seria imaginar o Merthiolate assim.

Sem a ardência, que me fez armazenar tão bem aqueles machucados, como ficaria a memória real da minha vida? Seria tão viva como é hoje? Saberia eu quantas vezes lacerei o dedão do pé não fosse pelo ritual. De correr para a mãe, que corria com o remedinho ardido. Minha mãe fazia isso. Podia até não fazer. Para os jurados, todas faziam isso. Está no imaginário popular. A ardência está ligada às aventuras da infância. Às descobertas, às pequenas infrações, aos mais íntimos desmandos. Aos projetos mirabolantes que não deram certo. Aos nossos primeiros desgovernos.

Não era uma dor. Era uma ardência. Qualidade ou estado do que arde, do que fica em fogo, do que queima. O que é aceso, cintilante, iluminado. O que possui vivacidade, veemência. Calor. Ânimo. Entusiasmo. Picância. Aí acabaram com. Trocaram o Timerosal, a Acetona e o Álcool pelo Digluconato de Clorexidina. Alegaram um milhão de coisas. Deve ser verdade. Coisas ruins para a saúde. Tóxico. Deu nos jornais, na televisão, nas rádios. O povo foi alertado sobre a mudança na fórmula. Dali em diante, o velho remedinho deixaria de existir, e a infância dos homens seria impressa com tons menos garridos de vermelho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/child-voices-168828904

Linguagem em (dis)curso

*

Por Germano Xavier


Hoje, no amplo campo do saber linguístico, percebe-se facilmente, em se tratando dos estudos apurados e de base analítica no tocante aos gêneros textuais, que a ideia que se tem de propósito comunicativo consegue, em si, admitir um sem número de olhares sobre as práticas de um determinado gênero dentro de uma respectiva comunidade de usuários interligados.

Por observar a maleabilidade com que tal instrumento, o propósito comunicativo, subverte inadvertidamente a “ordem natural das coisas”, é que Biasi-Rodrigues e Bezerra (2012) enumeram questionamentos efusivos no interior de tal imbróglio, a procura de estruturar uma arqueologia de saberes acerca do senso/status do gênero ao final das análises, sem com isso perder o interesse para com a conceituação do propósito comunicativo enquanto critério nato de/para análise de gêneros.

Partindo dos pressupostos de base teórica atrelada ao estudo de gêneros consagrada pela denominada Escola Britânica, também conhecida como Abordagem Sociorretórica, BIASI-RODRIGUES e BEZERRA (2012) tratam no artigo intitulado de Propósito Comunicativo em Análise de Gêneros do debate em torno do próprio conceito de propósito comunicativo, atualmente percebido como sendo um dos pontos nevrálgicos do estudo linguístico mais específico dos gêneros em todo o mundo.

Para tanto, os pesquisadores supracitados centraram esforços em abordagens e perspectivas acerca das conceituações atreladas ao propósito comunicativo que foram exaustivamente investigados e aprimorados por estudiosos do porte de Swales (1990, 2001, 2004), e também de Askehave (2001), este em comunhão com Swales.

Tais estudos, proposições e perspectivas, imiscuídas à ideia de que gêneros realizam propósitos e/ou funcionam como “repropósitos”, como observado na própria reavaliação do tema feita por Askehave e Swales (2001), entre tantos outros fatores, terminaram por permitir que fossem elaboradas diversas discussões acerca do uso do todo processual do propósito comunicativo dentro do espectro funcional de uma dada análise de gêneros fundamentada aprioristicamente no que é de ambição social, o que o configura de tal modo a ser matéria basal das engrenagens analíticas, indo de encontro, portanto, à ideia que o taxa meramente como um critério direto e imediato no que concerne à identificação dos gêneros.

Com base nestas nuances e prismas de elaborativos, os autores partem da conceituação do termo propósito comunicativo, passeiam pela relação dele com a estrutura esquemática do gênero e pela visão que se tem de critério para identificação, provando sua inquestionável complexidade objetivo-funcional.

Os articulistas defendem, por fim, a relevante participação do propósito comunicativo como elemento para se estudar os gêneros em si e suas particularidades, sem fechar aí a sua largueza como utensílio da língua, ao que cabe a nós, estudantes e interessados na referida questão, cuidar para não rotulá-los, os gêneros, apenas com base em definições e conceitos parcos, a citar o de propósito ou até mesmo o de intenção autoral, que não abarcam tudo quando o assunto é a relação entre propósito comunicativo e a análise de gêneros.


REFERÊNCIA

BIASI-RODRIGUES, BERNADETE; BEZERRA, Benedito Gomes. Propósito comunicativo em análise de gênero. Linguagem em (dis)curso, Tubarão, SC, V.12, n.1, p.231-249, jan/abr. 2012.

Imagem: Google

Bhatia, gêneros e sequências textuais

*

Por Germano Xavier


No texto intitulado de ANÁLISE DE GÊNEROS HOJE, presente no livro Gêneros e Sequências Textuais, de 2009, Vijay K. Bhatia esclarece, logo na introdução de seu trabalho, a discussão acerca do que atualmente se discute sobre a ampliação do interesse e das investigações de cunho científico acerca da análise de gênero, evidenciando o relevante alavancar da área sobre diversos nichos do saber em questão durante os últimos anos, processo que fez com que o gênero começasse a deixar restrições ultrapassadas de abordagem e ganhasse novos olhares, mais amplos e bem mais avançados.

Para tal, ainda de acordo com o supracitado autor do excerto, contribuíram o momento oportuno, a própria natureza multidisciplinar dos gêneros e sua facilidade expansiva enquanto bloco de conhecimento da língua. E é no desejo de revelar como se dá o processo teórico da análise de gêneros, dotando-nos dos encontros comuns existentes em suas configurações várias, que Bhatia desenvolve questionamentos importantes dentro da literatura atual, visando a aplicações e a contornos cotidianos.

Bhatia primeiramente conceitua o procedimento de análise de gêneros, identificando as ramificações prismáticas já praticantes e existentes, a citar as em termos de tipologias de ações retóricas, as norteadas por regularidades de processos sociais de vários níveis e orientadas para uma meta e as de abordagem de consistência de propósitos comunicativos.

Para fins de elucidação, o respectivo autor volta seu olhar para o prisma do gênero enquanto artigo intimamente ligado aos contextos comunicativos convencionados, o que, para ele, aprimora tendências de especialização, de restrição e de estabilização dos gêneros, reforçando novamente a conjectura conceitual dos fatores de recorrência de situações retóricas, de propósitos comunicativos compartilhados e de regularizações de organização estrutural.

Bhatia destaca em seu texto as características de versatilidade inerentes aos gêneros, operada em vários níveis, assim como, também, seu caráter de integridade genérica e de tendência à inovação. Para tal identificação, Bhatia salienta o papel do profissional experiente neste campo do saber linguístico, a fim de que se possa melhor observar, e com maior nitidez, todos os mecanismos de construção e de atuação/funcionalidade dos gêneros em quantidade expressiva.

Em outro ponto de questionamento, Bhatia indica como ponto de destaque no contexto atual de análise desempenhada hoje a mistura e a imbricação de gêneros. Para ele, há um constante embate nas fronteiras da ordem dos discursos e das práticas discursivas que ajudam a aglutinar conglomerados de gêneros com caracterizações um tanto quanto semelhantes, cuja denominação dada como de gêneros híbridos vem bem a calhar.

Tal exploração dos valores genéricos, em algumas situações, denunciam dadas evoluções dos gêneros. O que corrobora a ideia de que criatividade nunca foi artigo distante ao conceito de gênero. Por possuírem mais de um valor genérico, a maior parte dos gêneros possui uma tendência a uma imbricação e a uma posterior e consequente mistura. Sob a suspeita de que, em se tratando de gênero, a ideia de autoridade esteja atrelada ao social e não ao individual, Bhatia meio que promulga uma institucionalização das práticas discursivas seguindo esta corrente de contingenciamento.

Assim posto, os gêneros são socialmente autorizados diante de convenções, inserindo-se nas práticas discursivas de culturas disciplinares específicas. Ocorre que, para que a integridade genérica seja mantida, intervenções editoriais e revisão em pares podem se dar em alguns casos, o que fortalece ainda mais a ideia de que a comunidade discursiva que está atrelada ao gênero em questão tem papel fundamental na proposição de sua manutenção funcional e de uso.

O conhecimento compartilhado do gênero em uma determinada comunidade discursiva, para Bhatia, proporciona averiguar também o papel de relevância que o leitor tem no processo de análise dos gêneros. É a partir deles que o poder de um gênero pode ser computado em sua essência. As comunidades discursivas, assim como agem como molas propulsoras para a proliferação de gêneros mais adaptáveis às demandas sociais, também podem influenciar no cerceamento destes agentes, funcionando como censores, controlando e manipulando atitudes hegemônicas, fazendo com que várias particularidades ligadas à questão fiquem nubladas diante de tamanhas dominâncias. E, por fim, Bhatia recorda a figura essencial do professor de língua, a quem a aplicação de todas estas implicâncias deve ser tema contínuo em sala de aula.


REFERÊNCIA

BHATIA, V.K. Análise de gêneros hoje. Trad. Benedito Bezerra. In: BEZERRA, B. G.; CAVALCANTI, M. M.; BIASI-RODRIGUES, B. (orgs.) Gêneros e Sequências textuais. Recife: Edupe, 2009, p. 159-195.

Imagem: Google

domingo, 24 de abril de 2016

Água viva

*

Por Germano Xavier


"Quero apossar-me do é da coisa."
Clarice Lispector


imagem tua
como uma pintura
de incontornáveis traços
que criei cedendo

pura figura sem figura
como as águas sujas
do canal de nossos dias

pura como o sangue sagrado
dos poetas mortos evocados
dos poetas vivos existidos

poetas sujos de sangue//
poetas sujos de letras//
poetas limpos de coração//
poetas doentes de alma//
poetas morrendo de dor//

imagem tua que criei sendo livre
reflexo da perfeição que se perdeu na luta
da inocência que se perdeu no vão
da inspiração que se ganhou no sonho
da delicadeza que se instalou na lança do olhar
da resistência que se estabeleceu no andar

no onde

imagem tua sem mito
que criei amando
incerta como o vento certo
que traz nuvem alguma
que traz chuva e história
que provoca a vida


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/In-absentia-embryo-67570002

sábado, 23 de abril de 2016

Minha lágrima de prazer

*

Por Germano Xavier


A imagem é uma criação pura do espírito.
Ela não pode nascer da comparação, mas da aproximação de duas realidade mais ou menos remotas.
Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem – mais poder emotivo e realidade poética ela possuirá...

Pierre Reverdy



Será fogo essa comichão indefinida em meu coração? Será fé esse incômodo remoer de algo querendo ser? Será sorte? Será infortúnio? Estou, finalmente (digam-me!) vislumbrando uma luz no final do cano de esgoto onde escorrega a minha vida? Será túnel? Será que estou caindo para cima? Para o plano onde a dor é bela e produtora de alguma recompensa desconhecida numa outra dimensão? Num plano espiritual? Será a mosca azul da fé? Será um elefante orelhudo isso que me tocou? A fada do dente de ouro? O meu anjo da guarda? O meu anjo desguarda? Será o fantasma da paz? Esse espectro brincando em meus olhos, esse brilho querendo encher a minha escuridão... Será a paz? Será o cio? O pio? Esse cheiro de flor que quer vir? Será sonho? A coisa vai crescendo aqui dentro... e fora. Em realidade? Será delírio? Será eterno? Será doce? Será que fica? Tenho medo de saber que era apenas sonho. Será isso esperança? Será amor? Será Deus? E se aquelas fossem as minhas últimas palavras para ti? As últimas! Se precisassem, por força maior do que minha vontade, ser as minhas últimas letras para os teus olhos? Para os teus sorrisos... Elas (minhas letras) teriam de ser, resumidamente, para dizer o mínimo da imensidão do que te amo, as seguintes: Você é minha. És o meu membro fantasma que, mesmo amputado do meu corpo, ainda sinto doer e faltar, em presença dolorosa e ausente. Você é bela. Bela de um jeito misterioso e incompleto. Belas são as tuas cicatrizes na alma, tuas histórias sem finais, tuas doces tortuosidades. Tuas histórias de silêncios são belas como todas as palavras bonitas e antigas que resgataste do dicionário, esquecidas pelos tolos e preguiçosos demais para senti-las, para amá-las. Você resgata palavras e inventa sentidos para as coisas, para os mundos sem nome. Você é mágica. Como as águas paradas dos açudes velhos. Águas profundas e calmas. Misteriosas, encantadoras e perigosas. Águas que abrigam em suas profundezas tanto peixes deliciosos quanto cobras venenosas. Você é magia em verde-musgo e em voz de lento trovão. Você é o sentido. Eu poderia criar um sistema filosófico sistematicamente organizado a partir de teus olhares para a vida. Teu olhar para tudo é total e certeiro. E mesmo não o sendo, torna-se. Sensível e extraordinário. Não há nada no mundo que você ainda não tenha tocado, duvidado, admirado, refutado ou classificado. Em sentença ou em dúvida. Você é amor, menina. Não importa, no fim das contas, que conceito venha a ter o amor, nem que facetas ou significados. Talvez seja apenas quatro letras aleatoriamente organizadas para representar tudo aquilo de sentir que não se encaixou em nenhuma outra palavra. Nem mesmo se, no fim, descobrirem que ele nunca passou, afinal, de um delírio coletivo na história da humanidade. Ainda assim, você será amor. Você é amor em diversas matérias, invólucros e cores. Em diversos conceitos e caras. O amor achou você e entrou. Ficou para sempre em teu corpo, alma e palavras. Você é amor vivendo na história do mundo. Você é amor sobre pernas, sobre rodas, sobre carne. Minha lágrima de prazer.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Androids-145739480

Rasgo

*

Por Germano Xavier



do rasgo violento
feito pelo tempo

restaram duas partes
inúteis de mim

a parte que ama sem nada ter
e a parte que tem o que não ama

enxugando torrentes
com toalhas de papel
digo ao tempo

ainda estou inteiro


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/2-FORMS-51785364

sábado, 16 de abril de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XII)

*


Viana, olá!

Tenho vontade de escrever-te só com símbolos, por medo de repetir-me e tornar-me demasiado previsível. Ou revelar o diálogo que nunca tivemos, como uma mera transcrição desse instante único de cumplicidade que podem ter duas pessoas numa conversa informal. Conversar é tão bom, Viana, e é cada vez mais difícil encontrar uma pessoa que goste de falar.

Tentemos essa partilha, queres? Somos nós dois num dancing lisboeta à beira-rio tomando um copo numa mesa perto do palco. Os músicos ainda estão a preparar os instrumentos, o dj põe no ar uma música bem ritmada, incendiária.

C- Viana…? Viste aquele casal na pista, o rapaz pequenino agarrado a uma mulher alta e vistosa?

V- Na verdade nem reparei, Clara. Mas porquê? Estava atento à música, tentando perceber a letra.

(Risos)

C- Letra? Que letra? Não vás por aí… deixa-te só contagiar pelo ritmo. A música com letra vem depois. Digo, o rapaz pequenino, a quarentona bonita… tenho uma teoria sobre o assunto, que pode dar uma história.

(Franzes o sobrolho e eu sinto-me constrangida).

V- Clara, não sejas mázinha... nem pareces tu. A gente não sabe nada da vida das pessoas. Neste momento alguém pode estar a olhar-nos com a mesma curiosidade… malsã.

C- Não é preconceito, é pós-conceito. Só acho que é um engate com fins, digamos, lucrativos. O rapazinho quer “se dar bem” e procura uma mulher que o possa “peitar”, como diz uma amiga minha muito atenta. Isto funciona nos dois sentidos; há aqui mulheres à procura do mesmo, junto de respeitáveis senhores… ingénuos, claro está.

V- Achas que é isso, Clara? Mas, e se for… que direito temos nós de julgar as escolhas de pessoas adultas, escolhas consensuais…? Não entro nesse jogo, por mais curiosidade que o assunto me suscite.

C- Pois, Viana, talvez tenhas razão. Se for o que penso trata-se de um negócio em que todos lucram: um consegue sustento temporário e o outro um sucedâneo de amor, uma coisa parecida com uma relação na qual a componente sexual é o motor da coisa. Mas a nossa indiferença é sempre conivente. Não pensar, não opinar, já é agir. Mas sei que são opções tacitamente aceites… embora sejam ambos pressionados pelas circunstâncias.

V- Sim, percebo o teu ângulo. Ninguém é totalmente inocente nem culpado. E se fosse, quem os julgaria? Um é vulnerável por ser pobre, ou malandro, outra tem um estatuto social superior e alguma liquidez, para além de uma falta de autoestima notória, falta de tempo ou de interesse para cultivar relacionamentos duradouros… um desfecho previsível no qual existe no entanto um momento, volátil que seja, em que o NÃO é uma opção real. Um não redondo e definitivo.

Neste momento da conversa os artistas entram em palco e nossa atenção deixa-se absorver pela voz possante da Lucibela.


Viana, desculpa-me este despiste, mas não resisti a ensaiar esta troca de impressões improvável entre nós dois diante de uma bebida de cores primaveris. Ou uma simples cerveja gelada, ou um café expresso.

É uma forma de te dizer que gosto que me interrompas quando falo, a isso chama-se conversar. A palavra, quando escrita, já é dona de si mesma, quando se forma na boca e ainda não nasceu, pode ser calada com um beijo.

Há um momento em que é possível mudar tudo e desenhar uma curva numa estrada reta. Fazer uma inversão de marcha. É preciso estar atento para não deixar escapar esse fragmento do tempo.

Na tua última carta noto um tom mais passional e intolerante sobre a superficialidade das coisas, as aparências, as futilidades. Também sou assim. Gosto de procurar a essência. De escavar. Escavacar é uma palavra feia, bruta, mas que exprime melhor o que quero dizer. Essas pessoas de que tu falas (excecionais, marginalizadas, divergentes) são pessoas reais e que resistem, como dizes. Por isso não me admira nem um pouco a tua reação na nossa conversa acima (risos).

Fiquei muito impressionada com o relato que fazes desse senhor que conheceste, que vive na rua e tem o coração no mundo. Certamente um ser único que nos faz ver que nós, os outros, andamos permanentemente em contramão. Mas o idealismo paga-se caro e existe um compromisso mínimo entre o ser humano e a sociedade em que se move, senão dá-se a rutura: social, afetiva, psicológica… é um caminho sem retorno. Para todos nós: os que partimos e os que ficamos.

Eu não quero falar de mim, não hoje, porque tu me intuis e me constróis por dentro. Falando dos outros, do que os meus olhos veem, tu vês para dentro dos meus olhos também.

Temos tido ultimamente a imprensa portuguesa dominada pelos escândalos da política brasileira e tentamos todos, brasileiros ou não, encontrar um tom justo para a indignação, para o protesto, para a reivindicação. Um equilíbrio precário em que é muito fácil cair na manipulação e tornarmo-nos meras marionetas da imprensa e do padrão cultural dominante. Mesmo para os mais esclarecidos.

E continuaremos, tu, eu, a Cris, a Sant’Ana e quantos se quiserem juntar a esta festa das palavras, dos sons e das imagens, a conversar sobre tudo o que nos toca.

Um grande beijo desta tua amiga embarcada numa viagem de desfecho imprevisível.

Clara

Lisboa, 3 de Abril de 2016


*******





Clara,

As coisas aqui no Brasil não estão em seus melhores dias. O cenário é de névoa. Tudo muito nublado. O futuro do país está em jogo. O futuro de um país que, ao que parece, será para sempre “o país do futuro”, e não o país do presente ou do amanhã próximo. Muito turvo é o horizonte. Passei boa parte do dia assistindo à sessão da Câmara dos Deputados na TV Câmara. 31 horas já. De depoimentos ininterruptos. Não pensei que isso iria longe assim. O drama é forte. 

Alguns depoimentos são risíveis. Alguns não, a maior parte deles. Nem na literatura encontrei figuras tão caricatas, grotescas, teatrais, fanfarronas, cínicas. Assim são e/ou se portam muitos de nossos deputados federais. Não dá para confiar na palavra deles. Acordos secretos escabrosos feitos. Panos quentes. Toalhas de enfrentamento ou desistência sendo vendidas, cargos, postos, compensações. Tudo muito escuro. O povo sem saber direito. Dúvidas. Incertezas. Medo. Ódios.

Sou contra o impedimento da Presidenta Dilma, por princípio. E por convicção. Não é bom para a imagem do país lá fora. Não é bom para a imagem do país aqui dentro. Não resolverá os reais problemas da nação. De nada adiantará. É evidente o propósito da oposição. Tomar o poder e não salvar o país. O que está para acontecer é um aborto. Impedimento, como o que está em trâmite e da forma como foi imposta, é uma violência na história política do país. Corruptos julgando outros mais ou menos corruptos. Um aborto, repito. Especialmente quando expõe e acentua a divisão política, ideológica, cultural, econômica e até regional de um país. Isso não favorece a igualdade no país, só reforça os preconceitos, os estereótipos. Um processo vergonhoso.

No Rio de Janeiro, o carnaval pela democracia. Com direito a pão e mortadela. Bem brasileiro. Bem a cara do Brasil. Pão e circo e o povo indo atrás. Que povo é esse? Que país é esse? Uma calamidade. Na capital Brasília, um muro ergueram para separar os dois tipos de manifestantes, os dois tipos de “povo”. Aqui temos dois “povos”. Pode rir, se quiser. É cômico. Os que são contra e os que são a favor. É trágico. Um país de mais de 200 milhões de habitantes agindo como se dois times de futebol disputassem a final de um campeonato de futebol. De um lado o time dos Coxinhas, do outro a equipe dos Petralhas. O prêmio: a Taça do Poder. Um espetáculo.

Uma imprensa manipuladora, interesseira e sem escrúpulos. E tudo pode começar a ter um desfecho no dia de amanhã, domingo, dia 17 de abril de 2016. O dia da votação no plenário da Câmara dos Deputados, uma de nossas “casas do povo” e onde o verdadeiro povo quase nunca tem vez e voz. O dia do “Fica Dilma!” ou do “Fora Dilma!”. 

Uma esculhambação geral. Desmoralizante. Uma tristeza. Torço eu para que nada disso se pinte de realidade e tudo fique como antes e que o antes progrida em face de melhorias necessárias a todos nós, brasileiros. O Brasil ainda precisar crescer muito, em muitos setores da sociedade, e não é com esta cambada de meliantes engravatados que lideram o processo de impeachment contra um partido, o PT, que isso irá acontecer. Torcer. Torcer muito.

Deixando um pouco a política de lado, dizer a ti que gostei por demais de tua criação. Uma conversa possível, eu diria. Você e sua altíssima qualidade criativa, Clara. Não é para menos, não é? Mas, de toda forma, foi uma surpresa boa para mim. Bom demais ler a fantástica introdução em sua produção textual. Uma conversa que versa sobre humanidades. Humanidades e “engenharias humanas” misteriosas. Dizer que quero sim, esta partilha! E que sempre quererei.

Aqui o sábado foi de frio. Caruaru com cara de São Petersburgo. Dia branco. Minh’alma também, branca. Há um vazio. Uma expectativa. Quando tudo se cala dentro, mesmo me sabendo forte o suficiente para seguir. Quando a poesia dentro da gente se cala. Cálice. Tortura. Algo que oprime. Algo que atordoa. Algo que atravanca. Por isso a escolha por pausar aqui. Pausar e esperar. O pulso. A lâmina. Eis a vida.

Até logo mais, Clara querida.

Caruaru-PE, 16 de abril de 2016.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Nada muito sobre filmes (Parte XXIV)

*

Por Germano Xavier


AGOSTINHO NETO E A LIBERDADE ANGOLANA

A TV BRASIL exibiu ontem no quadro NOVA ÁFRICA - UM CONTINENTE, UM NOVO OLHAR o documentário AGOSTINHO NETO E A LIBERDADE ANGOLANA, sobre a trajetória do líder que esteve à frente do Movimento Popular de Libertação de Angola - MPLA. Médico por formação e poeta, Agostinho Neto tornou-se ícone do período conhecido como Guerra Colonial Portuguesa, conjunto de embates promovido por toda uma geração contrária aos regimes vigentes de colonização, sendo o primeiro presidente de Angola. Figura pública por vezes tida como controversa, Agostinho Neto é, sem dúvidas, um importante nome nas lutas por independência no continente africano. Recomendo a todos os mortais!


O ALUNO

O filme O ALUNO (2014), do diretor Justin Chadwick, que também pode ser encontrado com o título de UMA LIÇÃO DE VIDA, narra a história de Kimani Ng'ang'a Maruge, queniano de 84 anos que decide aprender a ler e a escrever já no fim da vida. Maruge possui uma carta misteriosa em mãos e deseja decifrá-la. Para isso, determina-se e resolve enfrentar todos os obstáculos que o impedem de ir à escola primária. Quando jovem, Maruge, um ex-combatente Mau-Mau, perde a família para as tropas britânicas em confronto pela liberdade de seu povo. A ação de educar, no filme, é colocada como tem de ser, sempre, tal qual um instrumento de luta e resistência perante forças opressoras. Baseado em fatos reais, o longa é simplesmente encantador. Um filme sobre o respeito aos mais velhos, ao passado, ao professor e sobretudo sobre a força transformadora da educação. Esta película deveria ser exibida e debatida em todas as salas de aula de todas as escolas do mundo. Recomendo a todos os mortais!


VIPS

O ator baiano Wagner Moura é Marcelo em VIPs (2011), do diretor Toniko Melo, mas é também outro, outros. Muitos outros! Com conflitos de identidade, Marcelo vive "trocando de pele", por assim dizer. Ser espelho do pai é o seu sonho, um exímio piloto de avião, e para tanto está disposto a viver fortíssimas emoções, incluindo se passar por Henrique Constantino, filho do majoritário da companhia aérea Gol, durante um Carnaval na capital pernambucana. Baseado na história real de Marcelo Nascimento da Rocha, o filme não é lá muito interessante. Todavia, e de novo, o talento de Moura encobre as deficiências do longa. Vale uma espiadela, bucaneiros. Sigamos!


TEMPO DE DESPERTAR

TEMPO DE DESPERTAR (1990), de Penny Marshall, retrata as agruras e alegrias vividas por um neurologista recém-contratado em um hospital psiquiátrico. Diante de inúmeros pacientes que estão há longos anos em estado catatônico, o neurologista resolve fazer testes com um novo medicamento e termina por despertá-los. No início, tudo parece dar certo, até os primeiros efeitos colaterais começarem a vir à tona. O mais interessante do filme é a observância do cuidado desprendido pelo médico no trato dos pacientes, a entrega, o entusiasmo pela melhora. Um bom filme. Um Robert De Niro inspirado. Recomendo a todos os mortais!


HUSH – A MORTE OUVE

HUSH - A MORTE OUVE (2016) é um suspense norte-americano que pode surpreender os amantes do gênero. O filme conta a história de Maddie Toung, uma escritora que vive em uma casa no meio do nada, longe da sociedade. Ela está tentando finalizar o seu mais recente livro. Detalhe: Maddie resolveu se isolar a partir do momento em que perdeu a audição. Certo dia, um estranho mascarado aparece em sua residência. Maddie, então, vê-se obrigada a lutar em um mundo feito de silêncio pleno em prol de sua vida. O filme foge um pouco do estereótipo e as cenas silenciosas, em contraste com a típica barulheira desses filmes, colocam o espectador bem dentro do drama vivido pela protagonista. Vale uma espiadela, bucaneiros!


UM DRINK NO INFERNO

UM DRINK NO INFERNO (1996), de Robert Rodriguez/Quentin Tarantino, é daqueles filmes, eu diria, diferenciados. Um clássico trash/cult, com um roteiro muito, muito louco. Muito louco mesmo. Bizarro, por vezes. Dois irmãos saem pelo Texas causando o terror. Durante uma fuga para o México, os dois sequestram uma família e terminam por parar em um prostíbulo onde só caminhoneiros e motoqueiros possuem acesso livre, o Titty Twister. Dentro do recinto, são surpreendidos por um bando de... vampiros! Vampiros monstrengos! É difícil engolir um filme assim, mas não posso deixar de acreditar em originalidade nesses casos. Ame-o ou odeie-o. É mais ou menos por aí. Vale uma espiadela, bucaneiros!


AS BRANQUELAS

Uma merda.


* Imagem: http://obaratodefloripa.com.br/cineclube-presenca-na-udesc-faz-sessoes-semanais-da-mostra-de-cinema-infantil-de-florianopolis/

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Estudos de gênero em ESP (um resumo)

*

Por Germano Xavier

No tocante ao quarto capítulo do livro GÊNERO, HISTÓRIA, TEORIA, PESQUISA E ENSINO, intitulado de Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos, Bawarshi e Reiff (2013) engendram olhares esclarecedores sobre os estudos de gênero em English for Specific Purposes – ESP, sem antes pontuar a relação existente entre as tradições retórica e a linguística. Os autores definem os estudos de gênero em ESP como sendo aqueles voltados para o estudo e para o ensino de variedades especializadas do inglês e, em tabela, geralmente direcionadas aos falantes não nativos que porventura se encontram em ambiente acadêmico-profissional de modo mais avançado.

Segundo os autores do livro supracitado, foi a partir do pioneirismo de Swales (1990) que os estudos de gênero em ESP começaram a ganhar um corpo mais definido. A natureza aplicada a qual os estudos em ESP sempre estiveram atrelados foi, desde sempre um aspecto de definição marcante desta ramificação. Para Swales, os estudos em ESP tratariam de aproximações para com as propriedades linguísticas dos registros da língua com ênfase no quantitativo e, por isso, sofreriam consideráveis evoluções ao longo do tempo, tornando-se mais específicos e, por conseguinte, mais aprofundados, já que passaram a se comprometer com categorias de registro mais abrangentes e, igualmente, com a descrição não só dos traços linguísticos, mas também dos propósitos e dos efeitos de base comunicacional presentes nas variedades da língua.

Tomando como ponto nevrálgico esta citada evolução dos estudos em ESP, Swales segue por investigar a referida área, entregando a ideia de que tal aparelhagem de marcação do pensamento em vista dos gêneros está continuamente atrelada aos estudos linguísticos e, concomitantemente, aos estudos retóricos de gênero. Bawarshi e Reiff (2013) esboçam, pois, ainda no capítulo intitulado Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos, um panorama ideário e comparativo acerca das implicações tanto da ESP quanto dos estudos de gênero em LSF, definindo suas linhas limítrofes para que assim fosse possível, sobremaneira, sedimentar os espaços de interesse das referidas áreas de estudo.

Muito do que postulam, pensam e refletem as duas abordagens se confundem ou se conflitam no decorres de suas interações evolutivas. Tanto os estudos em LSF quanto os estudos de gênero em ESP comungam de estratégias de análise, como também partilham compromissos pedagógicos, mas não entram em acordo quando o assunto é o público-alvo de aplicação e o enfoque de seus respectivos estudos, só para citar dois exemplos de divergência.

A partir do momento em que Swales emprega valores de relevância e de carácter distintivo à ESP, delineiam-se aí conceitos-chave de imprescindível funcionalidade para o entendimento de tal abordagem, que são, a citar: a comunidade discursiva (dotada de seis características definidoras), o propósito comunicativo (o gênero desenha-se tal qual uma classe de eventos que partilha de propósitos de base comunicacional) e o próprio conceito de gênero.

De acordo com os posicionamentos de Bawarshi e Reiff (2013), outro ponto a se destacar nesta área dos estudos linguísticos (a abordagem ESP de gênero) é, a saber, o tom múltiplo de abordagem de análise de gênero em ESP, que permitiria um enfoque inicial pela identificação do gênero dentro da comunidade discursiva, passando pelo estudo da organização do gênero (questões estruturais) e, por fim, desembocando no exame de aspectos textuais e linguísticos. Tal modelagem de estudo foi repensada por alguns autores, como por exemplo Bhatia (1993), que esboçou um contingente de passos em número de sete para a análise de gêneros. Bathia, por sua vez, parte do contexto para a análise textual, aplicando diferentes níveis de análise linguística aos estudos propostos em seu portfólio investigativo.

As problemáticas envolvendo os estudos de gênero em ESP, para Bawarshi e Reiff (2013), durante bastante tempo ficaram restritas aos setores ligados ao propósito comunicativo, ao contexto e à natureza dinâmico-intertextual dos gêneros. Todavia, as tendências mais recentes do estudo em ESP invocam novos olhares acerca de tal complexo ideário. Askehave, Bhatia, Hyon e Hyland terminam por reconhecer a complexidade do propósito comunicativo e findam, cada qual em sua perspectiva, por admitir a natureza dinâmico-interativa dos gêneros, priorizando em conjunto uma melhor apreensão da intertextualidade e da interdiscursividade no que concerne ao gênero.

Assim posto, ao se tomar a relação dos estudos em ESP e as abordagens críticas aos gêneros, Bawarshi e Reiff (2013) deixam submergir das páginas do capítulo quarto a existência de um longo processo de compreensão que retoma possíveis interconexões aos preceitos dos estudos retóricos, colocando em xeque pontos importantes que dizem respeito à conceituação de alguns termos e temas, bem como a aplicabilidade desses movimentos de entendimento imiscuídos ao gênero.


REFERÊNCIAS

BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 60-78.


Imagem: http://pt.dreamstime.com/fotos-de-stock-royalty-free-texto-de-papel-da-not%C3%ADcia-image8583068

Eclusa

*

Por Germano Xavier


represar o caos
construir diques
de amor /em concreto//

seguir a força das águas
destemer o anverso
da medalha

fazer verso
para /no fim?/
ser dúvida

ou reverso


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/On-The-River-299140439

Semblante

*

Por Germano Xavier

trazer no rosto
o traço duvidoso
a vasta calamidade

esconder na pele
(no embalo)
o vento sombrio
mensageiro das chuvas

deixar que os poros
editem a vida
no que ainda insiste


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/chama-se-estar-so-107908153

sábado, 9 de abril de 2016

A estreita guarda das noções

*

Por Germano Xavier

para José Barbosa


não captam o tempo da alma
nem desenvolvem técnica alguma,
e como /im/precisam
da vocação para o interesse,
da vocação para o mergulho
a ter como profissão o sonho?

em quereres, de então,
braços eternos de oceanos,
lâminas cegas de espumas,
para em poder, e em vão,
andar em atiros de partida
na leitura aflita dos dilemas.

fios de vida aplicados ao mistério
domam a invisível onda dos acabamentos,
a memorizar, incansavelmente,
a estreita guarda das noções.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Just-Before-589055218

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Criação para pingos de chuva

*

Por Germano Xavier

com vassoura de piaçava
é feito varrer o vazio
fazer com que se dobre a mancha
aguda na existência do pó
e no criar água na queda

tanajura frita na farinha
o cordão que enlaça o voo
menino que brinca de fazer graça
com seus demônios

ele não quer precisar nem ela
o que se deseja é parar

de sonhar//

a chuva é de livrar choro
a gota é quase-prototípica
o mundo sem função




* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cloud-154449559

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Observatório sobre gêneros

*

Por Germano Xavier


No âmbito do subtópico denominado de Gênero e Linguística sistêmico-funcional, Bawarshi e Reiff (2013) implementam o pensamento de que há uma ligação bastante fortificada entre a aplicabilidade dos gêneros dentro do círculo de operação da análise textual e, por conseguinte, do processo de ensino da língua. Tomando como ponto inicial de apoio a investigação de trabalhos envolvendo estudos em teoria literária, Bawarshi e Reiff (2013) esboçam, no capítulo intitulado Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus o panorama ideário de que muito do que se sabe hoje acerca de gênero deve-se ao progressivo acompanhamento das tradições linguísticas, a citar em especial as ramificações concernentes à Linguística sistêmico-funcional, à Linguística de corpus.

A partir do momento em que apregoam valores de relevância à funcionalidade social e ao contexto, a língua passa a ser percebida como um todo funcional, exigindo que a própria linguagem entre em processo de concepção dentro de um dado contexto específico de uso, cabendo à parcela sistêmica os meandros estruturais e de ordenação dos fenômenos linguísticos. A linguagem, por sinal, é vista aqui tal qual um motor-gerador para que ela própria realize ações de significação, descritas a partir da ideia de contextos de situação, inventário que percorre o tratado em Halliday (1978), base dos estudos de base LSF. A Escola de Sidney, a qual se servem os estudos de Halliday, gira em observância às perspectivas sistêmico-funcionais de gênero. É com base nos pressupostos dessa corrente que termos como registro (tipos de situação) e as metafunções da linguagem (ideacional, interpessoal e textual) irão ser contemplados para ampliação do contexto de situação, quando se referem às esferas de campo, relação e modo.

De acordo com os posicionamentos de Bawarshi e Reiff (2013), outro ponto de destaque nesta área dos estudos linguísticos (a abordagem LSF de gênero) é, a saber, a obra de Martin (1977), que preconizou entendimentos acerca da definição de gênero nunca antes identificados. O autor supracitado auxiliou na construção conjuntural de que os registros estão para o contexto de situação, assim como os gêneros estão para o contexto de cultura, sendo eles processos sociais geridos por dados objetivos. Há aqui, supostamente, uma introdução à interpretação de gênero enquanto ação social, tão difundida por pensadores contemporâneos como Charles Bazerman e Carolyn Miller.

O gênero, para os autores, pegando o ideário fomentado a partir de Martin (1977), e que porventura embasou o programa australiano LERN (Literacy and Education Research Network), seria, portanto, fundamental para o processo de letramento em ambiente escolar, já que elabora um arcabouço de criticidade ao se fundar em proposições de cunho facilmente identificáveis como sendo de ordem social. Já o pensamento de Diller (2001) é retomado para demonstrar a sua influência no tocante ao debate envolvendo as investigações sobre retórica e produção escrita.

Longacre (1996) e Biber (1988) também são citados, e suas posições decorrentes das definições de tipologias textuais e presença de variação linguística no conglomerado dos gêneros marcam presença e relevância incontestáveis. Bawarshi e Reiff (2013) fecham a discussão ampliando a visão de Paltridge (1997) acerca dos gerenciamentos que se dão na altura do que pode ser classificado como imagem mental. Daí surge um longo processo de estreitamento entre texto e gênero interconectado aos preceitos da memória e do contexto que, para os simpatizantes da teoria em questão, são capazes de movimentar todo um conjunto de interpretações bem peculiares acerca de gênero.


REFERÊNCIAS


BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus. In.: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 46-59.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Text-Overlay-Texture-121941631

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O azedo dos monólogos

*

Por Germano Xavier


Um dia eu irei desistir de você. Um dia talvez hoje, talvez nunca. E terei desistido de uma parte de mim também. Mas será apenas mais uma parte. De tantas que ficaram pelo caminho ou que me tiraram com violência. Vou perdendo pedaços pelo percurso. Você, um pedaço muito grande de mim para ser arrancado facilmente. A parte em mim que voa, inventa, cicatriza e ama. Não quero abrir mão, mas tenho sangrado diariamente a tua falta-presença, de modo que não posso mais e desisto. Deponho as armas e as esperanças, que já eram irrisórias, mas ainda existentes. Esperança apenas de um dia te ter um pouco mais. Mas nós dois sabemos, da forma mais simplista, que nenhuma relação (ou coisa que o valha), seja de qualquer natureza, mesmo que de amizade ou apenas poética, vive sem uma coisa simples chamada reciprocidade. Correspondência. Não estou falando de igualdade. Apenas de reconhecimento de ser. De fazer sentir-estar. De empatia e consideração. E silêncio só me diz que estou só. Mas essa história insólita e o que ainda sinto por você é tão estranho aos teus olhos que só pode classificar como resultado de algum desequilíbrio psicológico, carência ou solidão desorientada. Mas no fundo sabemos que não. É conhecimento de alma. É reconhecimento daqueles que tornam uma pessoa única e insubstituível no mundo. E isso independe de nossa história ou do quanto fomos marcados pelo sofrimento ou do quanto fomos "estragados" pela vida. Isso depende apenas do mistério do qual nada sabemos. Apenas que ele existe e faz dessas coisas. Mas existe, a despeito de qualquer amor e poesia, a realidade. E nela, você só me feriu. E eu já deveria saber que sou a única que pode evitar que me firam. É só não dar a oportunidade para. E te dei todas. E você não desperdiçou nenhuma. Hoje só te sinto ausente, indiferente e quase hostil. Nós dois sabemos que eu sou uma ferida aberta e, antes de você reaparecer eu estava bastante adaptada em ser cacto, mas você chegou e me fez uma flor de cacto só pra você e hoje essa flor me destrói. Só estou cansada de ser eu pra você. Cansada de monologar. De nunca ter respostas ou atenção. Ausência de palavra é ausência de vida. E eu só acredito em palavras nesse mundo. Na ausência delas vejo a morte. Nada vivo sobrevive sem alimento. É preciso pelo menos um mínimo vital dele. Talvez você tenha deixado faltar esse mínimo de propósito para precipitar esse fim (que você sabe não existir). Não. Não vou mais deixar você tocar o meu coração. Nem que eu tenha de torná-lo um cadáver prematuramente. E não importa se você é o único que consegue tocá-lo. Porque também é o único que consegue feri-lo. Nessa merda de vida estou no tronco. A cada chibatada que levo em minhas costas, em meus olhos, em meu sexo, em minhas mãos, o meu verbo fica mais feroz, mais veloz, mais azedo, mais cortante, mais fodido, mais ensanguentado. É um verbo inútil que serve apenas para me iludir por segundos, achando que estão destilando por meus dedos o veneno que está no coração. Mas acaba o texto e o veneno continua lá, intacto e zombeteiro. O que é o veneno? Vida retalhada? Amor apodrecido? Falta de fé? Falta de poesia? Consciência da futilidade de tudo? Sonhos incendiados em cinzas? Ou é apenas lucidez?


Segurando-se com as duas mãos à mesa, ela levantou-se mais uma vez. Dessa vez, com mais dificuldade, não deixou de notar. No chão, onde ele a tinha deixado ao desferir um golpe impreciso contra o seu rosto, ela ficara por alguns minutos. Não lembrava ao certo. Não estava desmaiada, apenas entorpecida. Não achava que o esforço para levantar valia mais do que o esforço para continuar respirando. Era tudo a mesma coisa e não se sentiria mais viva em pé ou numa festa do que naquele momento ali no chão de sua cozinha que acabara de limpar. Olhou em volta e percebeu que a porta estava aberta e havia muita claridade na casa. A claridade fazia seus olhos doerem. Há dias que não via a luz do sol. Ele a proibira de sair sem sua companhia, para se certificar de que ela não contasse a ninguém. Precaução desnecessária, pensou. Mesmo que lhe perguntassem a razão de seus machucados ela não seria capaz de falar. Estava aterrorizada demais para isso e, no mais, que faria depois de sair dali? Não achava em si mais vida para viver em lugar algum, mesmo se algum dia alcançasse a liberdade. O que poderia fazer com ela? Pois que nem mais sabia quem era ou o que gostava. Havia há muito perdido a sua identidade para os terrores da violência. E o coração? Este, há anos não sente nada mais além de pavor e uma dor adormecida, cicatrizada em desesperança. Não. Definitivamente, ela desconhece o que poderia ser a vida fora dali, uma vez que não existe mais para ela no mundo qualquer esperança, nem amor e nem liberdade. Havia apenas algo muito concreto, a dor em seu rosto, o sangue que vazou de sua sobrancelha e a certeza de que nunca mais se sentiria humana.


http://www.deviantart.com/art/misty-in-Paris-595560256

sexta-feira, 1 de abril de 2016

À noite

*

Por Germano Xavier


À noite, as luzes da cidade a deixam menos agressiva, mais doce, poética. Vejo casas com janelas que parecem sorrir. Outras, como se livrassem do sol malino, deixam-se assombrear numa satisfação infantil. Mas não é sempre. É por vezes. Luzes artificiais enfileiradas parecem um exército de vagalumes gigantes (para os que conseguem ver). As luzes estão para os homens. O homem não enxerga no escuro. O homem precisa do artifício. Toda lâmpada é mágica? A cidade não para, nem para para respirar. O homem sim, este para. O homem não é a cidade. O homem é o homem. A cidade é o homem. 

Mas à noite, no colo moroso da madrugada, ela caminha devagar, preguiçosamente, para melhor observar o rosto de quem a atravessa, para melhor ouvir o rumor dos sonhos que emocionam e fazem rachar o seu concreto. A cidade tem alma. À noite, a cidade é mais amiga. Mas não é sempre. É por vezes. Ela estende seus braços cansados num abraço cúmplice, dividindo o peso dos passos, da fúria, da tortura e do fim... A noite sabe dos fins que nos espreitam. A maioria humana não sabe do que a noite é capaz. Ela, acostumada a morrer todos os dias para recomeçar no dia seguinte, ensina-nos diariamente sobre resistências. 

Ainda noite. Ainda mortal. Ainda finita. Ainda eterna, a noite nos entende. Mas não é sempre, repito. É por vezes. Há carinho suspenso em suas ruas impessoais. Há um olhar de compreensão em suas estrelas para quem estender os olhos. Há desavenças e angus de sangue nas equinas mais estúpidas. Há cinematográficas chacinas. Há pulmões plenos de fumaça. Há noite na noite. Noite no sentido de breu. É sob os olhos da noite que as solidões melhor se comunicam. A solidão na cidade é uma moeda que não se troca. Apenas se vê. Há, de novo, resistência na noite. 

Na dança das luzes, na presença insurgente das árvores, nos pássaros fazendo ninhos, no olhar rápido do desconhecido que fala de mundos outros, nos detalhes apenas visíveis dentro do mistério profundo, na voz obscura dos silêncios. Há mistérios na noite da cidade. Há enigmas no homem na noite. O homem, dentro da noite, não é o homem dentro do dia. É o homem outro. Há vazios e excessos. Ilusões diversas e furtivas felicidades. 

Eterno na cidade, só a noite. A noite na cidade é a salvação da vida. A noite é a respiração da alma. Sem ela, nunca mais veríamos o céu. Os prédios, quando olhados de baixo, parecem naves espaciais levando para longe, muito longe, para demasiado longe de nós, seres iguais a nós. As ruas, quando olhadas de cima, parecem abismos gulosos levando para longe muito longe-longe de nós, seres iguais a nós. A noite é o agora dos olhos e dos corações que se rasga facilmente.


* Imagem: http://dannyst.deviantart.com/art/Cross-roads-at-night-113123909

Nosso tempo

*

Por Germano Xavier

para Arturo Bandini, que sou eu



romper.
deixar que cheguem as primaveras.
e mesmo não acontecido, é vida.
foi vida.

intervir. e conhecer para romper.
conhecer para intervir.
e conhecer para fazer.
contribuir.

//o erro é também um manifesto//
a poesia está nos atos.
a poesia está nos fatos.

a poesia não está
para ser uma qualquer.

a dama sem princípios
está no mundo.
e no mundo estamos
para viver.

este é tempo de sentido,
tempo de homens sentidos.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/night-and-the-street-164116381

quinta-feira, 31 de março de 2016

Escaramuças e imbróglios sobre gêneros

*

Por Germano Xavier


No texto intitulado EQUÍVOCOS NO DISCURSO SOBRE GÊNEROS, o professor Benedito Gomes Bezerra (UPE/UNICAP) repercute a ideia, sem antes deixar de problematizá-la, de que as problemáticas envolvendo a discussão acerca de gêneros no espaço de competência da linguística foram alavancadas a partir da década de 90 do século XX (o que não é de todo verdade), prioritariamente depois da fomentação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que incorporou o debate sobre o assunto em setores antes ausentes na discussão, tal qual o espaço da Educação Básica em território brasileiro.

A devida introdução da matéria em novos espaços e sua consequente reformulação atitudinal frente às novas demandas de giro e de pesquisa, por alguns motivos, não se deu de maneira completamente tranquila e simples. Um dos fatores, demasiadamente alegado por profissionais e estudantes do ramo, foi o fato de ser o gênero um tema em providencial ordem processual, de caracterização por demais recente, o que, para alguns pesquisadores de renome, não passa de uma ingenuidade até certo ponto grotesca.

Durante o transcorrer das páginas, o professor destaca alguns pontos nevrálgicos no que tange aos equívocos de pensamento/conceituação ao se trabalhar com gêneros, como a citar os conflitos presentes nas dualidades gênero e texto, gênero e suporte, gênero e domínio discursivo, gênero e forma/estrutura e gênero e tipo textual. Com base em recortes avulsos de material publicados em diferentes locais, instalou-se uma aproximação afetuosa para com as bases do problema, servindo de prisma norteador para não iniciados e já iniciados em estudos relacionados ao tema.

Por andarem muito juntos, os conceitos de texto e de gênero dão início às escaramuças linguísticas aqui citadas. Seus caracteres de “materialidade linguística” são importantes pontos de divergência neste embate; claro, cabendo ao texto em si essa especificação de algo de cunho mais material.

Para o caso da diferenciação conceitual envolvendo gênero e suporte, bastaria se pensar que o suporte é algum instrumento onde se instanciam textos em diversos gêneros, a citar como exemplo a rede social Facebook. A bem da verdade é que, sobre tal posicionamento, não há um consenso, explica o autor do texto. Todavia, para ele, seria mais difícil apontar o Facebook como sendo um gênero por questões até certo ponto óbvias.

Acerca do conflito existente entre gênero e domínio discursivo, fica evidente que há uma aproximação palpável do conceito de domínio discursivo com a ideia de esfera de atividade humana bakhtiniana, o que dá ao jornalismo, por exemplo, não a faceta de se portar como sendo um gênero, mas um campo de atividade por onde transitam variedades as mais diversas de gêneros peculiares ao referido espaço de abordagem/uso.

A forma, por sua vez, também não pode ser considerada um critério único para a definição do que realmente seja gênero. Do mesmo modo ocorre com o conflito onde se envolvem gênero e tipo textual. Para o professor Benedito Gomes Bezerra, os tipos textuais se configuram como aspectos composicionais dos textos que, por sua vez, pertencem a respectivos gêneros. Aponta-se, destarte, um caminho mais aprazível e racional para o manejo de tais imbróglios linguísticos, a se fazer perceber quando de um direcionamento possível: esclarecer a relação que há, pois, entre os conceitos de texto, de gênero e de discurso. Talvez, o melhor percurso a se seguir nesta direção.



REFERÊNCIA

BEZERRA, B.G. Equívocos no discurso sobre gêneros. In: DIONÍSIO, Angela Paiva; CAVALCANTI, Larissa de Pinho. Gêneros na linguística e na literatura: Charles Bazerman, 10 anos de incentivo à pesquisa no Brasil. Recife: Editora Universitária UFPE/Pipa Comunicação, 2015. p. 63-79.


* Imagem: http://www.pipacomunica.com.br/works/generos-na-linguistica-na-literatura/

terça-feira, 29 de março de 2016

Órbita

*

Por Germano Xavier


gravito em dúvidas
como o leite no copo.

você mexe o açúcar
displicentemente,

enquanto a verdade
descansa no fundo.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/the-cup-of-coffee-153455305

Pequena crônica residual sobre a vizinhança

*

Por Germano Xavier


Ele deve ter entre trinta e trinta e cinco anos. Ela, apesar de aparentar ser mais velha, deve ter mais ou menos a mesma idade. O casal tem dois filhos entre oito e onze anos. Moram numa casa boa num bairro bom da cidade. Parecem razoavelmente harmonizados. O único problema é o amor. Explico: todas as manhãs acordo com o grito dele chamando-a de amor. Mas não é num vocativo carinhoso como os casais costumam chamar. Ele grita: Amor! Amor! (amor isso, amor aquilo), com tanta raiva e agressividade que soa a qualquer ouvido como se ele a tivesse xingando, a ponto de estrangulá-la. Não é uma briga, apenas em conversas do dia-a-dia. Desde a primeira vez que ouvi registrei essa incoerência na palavra-entonação. Nunca imaginei que uma palavra pudesse carregar tanta carga emocional apenas na forma como a falamos. Aquele amor mais parece ódio. Nunca olhei o rosto dele enquanto pronunciava isso, mas tenho certeza de que sua face também não expressa o amor. A intensidade da aversão em sua voz é tanta que dá um certo medo ouvi-lo chamando-a de amor com tanta fúria reprimida - o detalhe é que ele não a xinga, nunca, chama-a apenas de amor. Como um vocativo carinhoso pode ser uma agressão? Algum dia entenderei? E isso acontece com mais frequência do que meus ouvidos aguentariam sem protestar. É de arrepiar. Ele grita amor e é ódio que ouvimos. E assim, ele imprime em uma palavra doce todo o amargor de seus dias.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/hope-45579848

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 9 de Abril de 2015
O capital dos dias

Le capital des jours

il ne reste plus rien dans le visage de mon esprit
(je ne suis plus que celui qui attendra dans le hall
la candide sensation des nouveaux venants).

au-delà des vagues, des douleurs d’hommes nouveaux-éveillés
- des mille-pattes attachées à leurs chaînes :
des pèlerins du néant sous forme de capital.

au-delà des ordures, des sachets de courses, des égouts
(ma place dans ce monde est la chambre qui enlace la bonne,
celle qui est doublement épuisée car elle n’arrête pas de nettoyer).

la serveuse ne fait plus attention au regard de ceux qui entrent,
ses doigts témoignent les présences immondes des inconnus,
la cuisinière prépare les œufs brouillés dans la poile sans polytétrafluoréthylène
et tout finit par un goût d’aluminium.

mes veines tordues ressortent du coté du soleil.
ceux qui n’arrivent plus à tenir debout, se couchent :
l’amertume, la honte, l’insécurité, l’impuissance

des fétus s’endorment en rêves de renaissance tardive
en proie au lendemain incompatible des rebelles.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Street-255653741

domingo, 27 de março de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014
O anverso do maior prémio

L’avers du plus grand prix

elle est si fine la toile qui ourdit le poème,
si fragile l’amalgame qui tisse le verbe,
si innocente la lumière qui, sans le savoir,
rend tous les nons amers et insolites

l’Homme se promène par l’inexactitude
de ses propres choix, il fait semblant d’être
l’absolu même, sans marquer sa trace précise
sur le sol et divise de façon homogène
les risques du cœur

il erre (car l’errance est en lui-même)

et ignore les pas purs de la souffrance
ceux qui lui ont permis d’être là maintenant

choisie au hasard
la condition vécue et actuelle
s’est présentée : l’Homme que je suis
garde toujours des mains d’ouvrier

il court d’ailleurs vers l’exaltation

entre de petits arrangements
et le prix des blessures
sommons les règles des sacrifices
et rendons possible l’Amour réel!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/S-08-74024399

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 9 de Setembro de 2014
Aquela rua

Cette rue-là

de temps en temps, mon amour
je me rappelle, attristé
que nous étions écartés
par une seule rue

pour t’aimer
comme un fou ou comme un Werther,
j’aurais besoin de franchir un mur
vers la lumière de la vie
et tout imploser

le cœur était froid,
et la rue, large,
les empires du néant ont freiné les inquiétudes
la distance était un phénomène

au delà de ça et bien après, je souris
car je sais que nous sommes encore,
ton essence et moi-même, collés au mur
en épiant les passants, comme des ombres

adaptées à n’importe quel lendemain


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Naked-street-274223788