domingo, 24 de maio de 2015

Apontamentos sobre Fonética, Fonologia e Ensino

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Por Germano Xavier


No capítulo intitulado de A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, as autoras Izabel Christine Seara, Vanessa Gonzaga Nunes e Cristiane Lazzarotto-Volcão desvinculam-se um pouco do olhar voltado apenas para os segmentos estruturais das condições e dos fenômenos fonético e fonológico da língua e passam a considerar as implicações acerca do ensino e das metodologias de alfabetização tendo como ponto de apoio as bases de estudo da Fonética e da Fonologia. 

Para que tal encaminhamento se dê, as autoras recorrem aos propósitos ligados ao que concerne às relações que envolvem os processos fonológicos e as manifestações oral e escrita da língua. Deste modo, organizam ideias sobre como as noções de Linguística podem auxiliar no processo de letramento, relatam o quanto os conhecimentos fonéticos tornam-se extremamente relevantes para profissionais em fase de aquisição da linguagem e, por fim, abordam as nuances de preconceitos linguísticos que estão atrelados aos eventos fonéticos.

Com um olhar para a prática docente aliada ao uso dos conteúdos que embasam os preceitos da Fonética e da Fonologia, as autoras alcançam o patamar do ensino num diálogo simples e objetivo, revelando possibilidades de aplicação dos conteúdos das supracitadas disciplinas dentro da esfera escolar, introduzindo, também, variadas reflexões acerca destas potenciais aplicabilidades e competências. 

Partindo de uma reflexão de fundo pedagógico, onde apontam para o despreparo das formações dos profissionais da Educação, as autoras situam o leitor dentro das mais recentes preocupações curriculares e regulamentadoras do ensino, problematizando e efetuando discussões sobre o que seria mais viável a se construir diante de tantos problemas e deficiências.

As pesquisadoras, diante da complexidade e da dinamicidade inerentes à língua, haja vista que ao se tratar dela está a se debater com um constructo de ordem sociocultural e, portanto, mutável a depender das mais variadas situações de uso/necessidade, elaboram um conjunto de sugestões de práticas, como a citar uma alfabetização construída a partir da ótica da Linguística, enfatizando a relação grafema/fonema numa perspectiva de usufruto da consciência fonológica por parte dos usuários da língua.

Na metade do percurso da obra, observam elas ainda como se dão os letramentos em EJA no Brasil, citando as metodologias de Paulo Freire como contribuições avassaladoras para o progresso da construção da ensinagem em nosso país. Outro ponto de destaque na obra é a preocupação que as autoras dão aos conhecimentos fonético-fonológicos durante todo o processo de aquisição da linguagem que, segundo estudos, começa muito antes do bebê nascer.

Ao final, o preconceito linguístico oriundo de fenômenos fonéticos é tomado como centro das problematizações investigadas na obra. Destarte, numa aferição mais geral, o capítulo A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, refere-se a como as instâncias da Fonética e da Fonologia podem dialogar com o ensino e a partir de que investidas neste âmbito tais disciplinas podem ajudar tanto ao professor quanto ao aluno no tocante à produção de sentido diante das conjunturas referentes a esta qualidade de relacionamento.


BIBLIOGRAFIA

SEARA, Izabel Christine; NUNES, Vanessa Gonzaga; LAZZAROTTO-VOLCÃO, Cristiane. Para conhecer fonética e fonologia do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2015.

* Imagem: http://www.fonologia.org/linguistica.php

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Verossimilhança ou um lugar para a ficção

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Por Germano Xavier


“Somos um planeta cego à deriva do cosmo,
A nave de nosso coração não aterrissa
Onde pulsa o frêmito da ternura.
Somos um sistema feito para isolar
Isolar isolar tudo quanto for de órbita de sonho
Isolar tudo quanto for galáxia de esperança.”
(Caio Junqueira Maciel)

O que é ficção? A pergunta é pertinente, pois, como podemos perceber ao menor esforço dado nesta direção, há múltiplos usos cabíveis para o termo, o que implica também na existência de vários significados para tal palavra. O que representa a ficção pode ser para um e pode não ser para outro. Um determinado sujeito, a depender de onde esteja ou tenha nascido, pode interpretar como sendo ficção um material que para outro, de origem diversa, não tem o mesmo entendimento. Esta é a pergunta que embasa e embala o livro de Ivete Lara Camargos Walty, da Coleção Primeiros Passos/Editora Brasiliense – li a segunda edição, de 1986.

A intenção aqui, talvez, não seja a de falar sobre ficção tal qual ela é pensada e/ou requerida nos circuitos ditos mais científicos, apesar de eu querer falar disso também. Gostaria, ainda mais, de abrir as portas da literatura para o fator verossimilhança. Falaremos sobre isto, debruçando-nos nas páginas do livro SOL E NÉVOA, da escritora Letícia Palmeira. 

A recente publicação impressa da escritora paraibana, paulista por natureza - ou vice-versa – e dona de já outros três livros, a de agora gestada pela Editora Penalux em 2015, encaixa-se no gênero romance. Num todo-olhar sobre a obra, percebemos de pronto não se tratar de um livro com grandes preocupações estilísticas ou com tendência à classificação de prima produção. Sem desmerecê-la, sob pena de eu estar sendo injusto para com a bonita simplicidade das linhas impressas, SOL E NÉVOA chama mais a atenção pela clareza entregue ao enredo do que qualquer outro aspecto. A narrativa é absolutamente honesta, isto é, há uma história que se desenlaça ao crepitar das folhas, ou seja, algo está sendo contado, uma história está contida ali, no corpo textual. 

Apesar de toda a clareza depreendida na obra, a autora não esclarece se o que se conta é realidade da ficção ou se é ficção da realidade. Daí a relevância em se transferir poder à verossimilhança. O que à primeira vista pode parecer intuitivamente verdadeiro e inato às palavras de quem diz - a escritora como produtora da voz primordial -, isto é, uma aparente realidade ou verdade provável, pode ser apenas mais um traço de se perder no jogo dos acontecimentos ali difundidos. 

O jogo labiríntico da trama em SOL E NÉVOA se dá entre as personagens Lívia e Bernardo. Todavia, como preza o constructo romanesco, outras personagens se inserem no engendrado dos cenários e oferece ao leitor uma curvatura de leitura razoavelmente complexa, bem tecida e de fluente versar. Fato é que entre a imagem e a ideia do que se lê na obra há um poço de mistério – um tanto que mensurável -, mas que encanta facilmente as lentes do leitor e que o impulsiona na sequência de seu ato de ler.

Abraçando a perspectiva de Platão acerca de suas interpretações de mundo, SOL E NÉVOA talvez se deixe pertencer não ao âmbito de um modelo (reino das ideias) nem à instância da cópia (o mundo em que vivemos), mas antes se encaixaria na ideia de simulacro (a cópia da cópia), uma porção de vida retratada, fotografada, sem a dimensão da realidade inata ou pura. E por ser, a estória, apenas uma representação de uma estória/história, logo se assombreia e se acinzenta, nublando-se em si mesma, o que num olhar deleuziano chamar-se-ia de reversão do platonismo. Outra vez, a verossimilhança brigando com a natureza daquilo que é ou não ficcional.

A impressão de verdade provocada no leitor é, pois, um ponto alto em SOL E NÉVOA, tamanho o alcance do conteúdo. Amor, distância, aproximações, família, doença, rumos, destinos: são estas as temáticas do primeiro texto de maior fôlego de Palmeira. Desvinculando o leitor das nuanças do princípio da realidade, a narrativa mergulha nos meandros do princípio do prazer, oferecendo-nos um sabor de criação com laboração minimamente esmerada.

Podendo ser, nos dizeres de Walty, saída ou entrada de libertação, denúncia ou meramente reduplicação do real instaurado, a ficção em SOL E NÉVOA resguarda uma atmosfera brandamente nublada, atraindo para si ingredientes já tradicionais ligados aos respeitáveis acontecimentos literários. Se se produziu um pequeno novo mito, ao que concerne o entendimento da criação por excelência, o livro mereceu ganhar forma. Caso não tenha tal valor, o que se dizer quando entre tantos crimes semelhantes? O leitor, certamente, saberá sagrar ou negar o destino de aurora – ou de limbo - do romance em questão.
 


 Capa de SOL E NÉVOA, de Letícia Palmeira.

* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Enquanto-aquece-o-cha-49478669

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Olhares retóricos e sociológicos de gênero

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Por Germano Xavier


BAWARSHI, A.; REIFF, M. J. Gênero: história, teoria, pesquisa, ensino. São Paulo: Parábola, 2013. 285p.


O capítulo 5 do livro Gênero: história, teoria, pesquisa, ensino esboça com clareza a magnitude e importância do todo da obra protagonizada pelos professores e especialistas em linguagem Anis Bawarshi e Mary Jo Reiff, que assinam a autoria do supracitado livro publicado no Brasil em 2013, porém já lançado nos Estados Unidos desde o ano de 2010. A edição nacional foi realizada pela editora Parábola, com tradução realizada por Benedito Gomes Bezerra, docente da Universidade de Pernambuco (UPE). 

No referido capítulo, Bawarshi e Reiff traçam, em conjunto, uma grade comparativa entre as visões acerca de gênero praticadas pelas abordagens linguísticas (ESP) e retóricas (ERG). Apesar de divergirem em muitos aspectos, os autores destacam que tanto a ESP quanto a ERG partilham de algumas perspectivas semelhantes, como por exemplo o fato de reconhecerem que os gêneros não se dissociam do fator situação, sendo também partícipes da ideia de reconhecimento do gênero a partir das dimensões sociais, partindo da ênfase dada ao destinatário, passando pelo foco nos elementos contextuais e terminando pelo destaque empregado à ocasião. Indica-se, deste modo, que as maiores discrepâncias estariam no âmbito do enfoque e, também, nas trajetórias pedagógicas e de base analítica que são empregadas por cada uma das abordagens.

Elucidado o confronto dado entre a English for Specific Purposes - ESP, que enxerga o gênero como formas de ação comunicativa, e a ERG, que o define como sendo formas de ação social, o excerto aqui analisado segue no propósito de comparação esmiuçada acerca das duas propostas de investigação. 

Dentro de uma construção panorâmica de base histórica do elemento gênero, os autores, influenciados por grandes nomes da pesquisa linguístico-cultural, a citar Charles Bazerman e Carolyn R. Miller, produzem uma descrição apurada ao que concerne as questões mais relevantes das inúmeras pesquisas que influenciaram grande parte dos estudiosos da matéria até a produção de uma nova conceituação de gênero.

Diante de tal escaramuça científica, percebe-se que em ESP o propósito comunicativo é o elemento gerador do gênero e o movimento de análise parte do contexto para o texto. Este propósito comunicativo, ao auxiliar o processo criativo dos membros da comunidade discursiva, molda-se a si mesmo a partir da interação com os gêneros. 

Já nos Estudos Retóricos de Gênero (ERG), o eixo de concentração implica na maneira como os gêneros aperfeiçoam e otimizam nos usuários da língua ações com desenvolturas sociais. Neste complexo ideário, o contexto é um motor de desempenhos impulsionado pelos gêneros e por outros instrumentos existentes nas esferas da cultura. Diferentemente de ESP, moldam-se, então, realidades sociais a partir de situações de ação social envolvendo os gêneros, de modo que tudo parece se iniciar e se findar nos arcabouços do contexto.

Cabe ressaltar que em ERG o pensamento de que gênero faz parte de um sistema psicossocial, demasiadamente defendido por Bazerman, coloca-o numa esfera de maior amplitude quando comparado ao prisma observado em ESP. Não sendo apenas formas, os gêneros alcançam as individualidades humanas, sem deixar de obter assim uma congruência social de relevante valor para as discussões até então instauradas. Daí a ideia de que o gênero é mais bem definido se investigado a partir de suas funcionalidades sociais e não com base apenas em sua estruturação formal. 

Em ERG, gêneros são compreendidos como elaborações conceituais sociológicas. O gênero é o formador, no sentido de molde, de lugares sociais que são utilizados para se atingir outros lugares sociais comuns, mas ainda não explorados por uma respectiva coletividade.

Se for mesmo um poderoso artefato de e para elaborações psicossociais, deve-se entender o elemento gênero tal qual uma corrente infindável produtora e norteadora de dinamicidade histórico-social, constitutiva de um itinerário ideológico-performativo completamente aberto às profusões situacionais/e de ocasião percebidas e fomentadas no cotidiano das pessoas em sociedade, tendo como ponto-basal as suas necessidades e demandas. 

Após uma consistente navegação pelo capítulo em questão, com direito a um passeio pelas duas mais importantes perspectivas teórico-metodológicas em voga no âmbito dos estudos em gênero, Bawarshi e Reiff salientam que a visão da ESP e ERG, enquanto modos e formas complementares de análise e de pesquisa, representaram um grosso e endossado passo para que os gêneros começassem a ser percebidos como ingredientes salutares no que diz respeito à imbrincada sistematização das ações humanas, haja vista que o gênero passou a ser visto tal qual o é, ou seja, como parte constituinte dos fenômenos da linguagem e da comunicação da natureza dos homens e usuários da língua

Bawarshi e Reiff não se esquecem de recordar, ainda, as contribuições de Bitzer e Black quanto ao presente poderio das operações de situação frente ao produto das interações, como não se permitem olvidar também das percepções influentes de Jamieson e Campbell. 

Em subtítulo especial, os autores indicam a participação da Fenomenologia de Husserl e de Heidegger no magma-pensamental das problemáticas que circundam o gênero. Nota-se aqui, como preconiza o dasein heideggeriano, uma formulação de gênero banhada na simbologia do ser-aí/ser-com/ser-no-mundo, intuindo ao gênero uma consciente ciência de si jamais autossuficiente ou liberada das influências impressas e sedimentadas pelos meios que o cercam. 

Visto assim, ontologicamente, o gênero é ainda mais acobertado pela ideia de participação social e não de estrutura cimentada, impassível, impermeável e estanque, dotada apenas de uma forma e/ou estrutura. Gênero, sob tal marcador analítico, ganha ares de agente detector de intencionalidades – e quem não se lembra das investidas de Grice diante dos movimentos de enunciação, do enunciado e do significado? 

O interacionismo sociodiscursivo que avançou pelas pesquisas envolvendo o estudo de gênero no Brasil reflete, pois, a preocupação atual em se aderir a um conceito mais abrangente e menos engessado dos termos e símbolos discutidos aqui, baseando-se para isso na complexidade inata que une texto e contexto, homem e mundo, além de comunicação e linguagem. E para que tais debates se tornem ainda mais aclarados em território tupiniquim, o livro de Bawarshi e Reiff ganha importância indiscutível no rol das leituras fundamentais acerca das propostas e temáticas de gênero.


terça-feira, 19 de maio de 2015

Chegada a hora

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Por Germano Xavier


somos a consciência viciada,
o vício ocioso, somos a distância
imaginada e o espaço percorrido,
a luz que não chegou, o pé que não partiu.

aguentemos a estrada que nos escolheu,
não aceitemos imitação. o farol não dará o sinal
a quem não o vê. a estrada não nos deixará
mesmo que a larguemos. olhemos, pois, adiante.
o sonho não é carma, é alma!

no corpo, o desejo (o chocolate no beijo, lembra?),
desejar o sol, planejar o voo, andar saltando,
correr sorrindo, dormir sonhando (e de graça o fazemos).
já não valeu a pena? não censuremos o amor. favor.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/De-pie-438334196

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XV)

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Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quarta-feira, 15/04/15
O começo de outro lugar


Le début de l’ailleurs

Le début d’un autre endroit
naît de la foi dans le mystère
dans le drapeau qui voyage
parmi les courbes de la route

le début d’un autre endroit
retrait comme une armée
à l’aurore, les pieds brûlants
dans le cœur-guitare des adieux

le début d’un autre endroit
disparaît dans l’existence du néant
se remet au silence mûri
à la poussière qui annonce les jours


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/en-silencio-62024969

domingo, 17 de maio de 2015

Apontamentos sobre processos fonológicos

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Por Germano Xavier


No último capítulo do livro FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, as autoras Izabel Christine Seara, Vanessa Gonzaga Nunes e Cristiane Lazzarotto-Volcão destacam os processos fonológicos referentes ao Português Brasileiro e acentuam determinadas regras de formalização de tais constituintes. 

As autoras nos lembram da mobilidade mutacional e dinamicidade características à língua, apontando o olhar para a facilidade que a língua tem de suprimir de uma vez por todas termos há tempos em desuso dentro do espectro de usufruto das sociedades, da mesma forma que facilmente engloba em seu corpus novas expressões e palavras oriundas de demandas também novas ou renovadas. 

Em nível fônico, tais mudanças na língua podem ser investigadas apelando para os prismas da sincronia e da diacronia. De acordo com as autoras, apesar de serem dois olhares com perspectivas diferenciadas para com o desenvolvimento da língua, há uma certa relação entre os dois fenômenos. Os processos fonológicos seriam classificados, assim, em função destas duas óticas.

Seguindo este raciocínio, as autoras destacam a influência do pensamento de Chomsky e seu modelo gerativista de pensar a língua. Para este autor, os estudos fonológicos devem possuir o poder de prever as possíveis regras utilizadas pelos falantes da língua. 

Com relação aos processos fonológicos da língua, isto é, às mudanças de ordem sonora em formas básicas de morfemas quando estes estão na ação de construção das palavras, percebe-se a preocupação das autoras em destacar que neste âmbito de investigação qualquer conjunto de regras tem ligadas suas estruturas lexicais às suas respectivas estruturas fonológicas.

Assim posto, as autoras situam os processos fonológicos em 4 categorias. Vejamos:

1) Assimilação: quando um segmento assume os traços de distinção de um segmento contíguo;

2) Estruturação Silábica: alteração nos constituintes das sílabas;

3) Enfraquecimento e Reforço: quando há modificação nos segmentos a partir de suas posições nas palavras;

4) Neutralização: quando a fusão dos segmentos envolvidos se dá em ambientações específicas.

De acordo com as autoras, as perguntas mais precisas e relevantes a serem feitas quando da modificação de segmentos, são: a) que segmentos foram modificados?; b) que modificações sofreram?; c) sob que condições se modificaram? Destarte, faz-se preciso compreender que uma regra de ordem fonológica se dá de acordo com a anunciação condicional sob a qual ocorrem os processos fonológicos. As regras fonológicas são apresentadas em ordem binária, sob a simbologia A – B/C___D. 

No interior destes processos todos, as autoras também destacam os fenômenos indicativos de palatização (quando um segmento adquire articulação secundária africada), labialização (quando uma articulação secundária de arredondamento é acrescida a uma articulação primária), inserção ou epêntese (quando há o acréscimo de um segmento à forma basal de um morfema), harmonia vocálica (tipo de assimilação que torna as vogais mais semelhantes entre si) e o sandi (transformação de estruturas silábicas causada pela queda das vogais).



BIBLIOGRAFIA

SEARA, Izabel et al. Fonética e Fonologia do Português Brasileiro. UFSC. 2011. Disponível em http://goo.gl/tQy90q. Acesso em 17 de maio de 2015.


* Imagem:  http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502005000100004&script=sci_arttext

Convocação: Edição 5 do jornal O Equador das Coisas - Setembro/2015

Edição 4 do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

O EQUADOR DAS COISAS, blog de literatura e arte em geral com mais de 7 anos de existência na internet, é também um Jornal Literário em versão impressa no formato Tablóide, com edições semestrais. A proposta não tem fins lucrativos, mas recebemos apoio de empresas e/ou pessoas interessadas em nossa proposta e que queiram de alguma maneira colaborar. O objetivo principal é a difusão da arte literária e a divulgação dos trabalhos enviados por colaboradores.

Setembro/2014 foi mês de ver nascer a 4ª edição do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS, publicação especializada brotada de um sonho antigo meu e compartilhado com muitas pessoas a partir de 2012, ano de sua materialização primeira. A 4ª edição ficou luxuosa, com impressão colorida e devidamente registrada junto à Biblioteca Nacional, contando a partir de então com seu ISSN próprio, o que elevou o jornal para outro patamar. Para o mês de Setembro/2015, lançaremos a 5ª edição.

Nas palavras de Carol Piva, umas das editoras do jornal:

"O EQUADOR DAS COISAS" é uma publicação semestral, independente e sem fins lucrativos. É todo ele janelas se abrindo a uma literatura o mais esquiva possível das tais "amarras-mercado" naquilo que faz a gente residuar desgostos. Propõe o diálogo com autores, seus textos e imagens, equadores que nos chegam, livre e deliciosamente, de acolás vários e, ainda, dos artistas convidados. Nossa paixão é pela escrita... palavras, sons, imagens e até os silêncios deles... este intercâmbio entre línguas e linguagens. O jornal ziguezagueia entre os t(r)atos editoriais no Brasil, Estados Unidos e agora, muito bonitamente, também na Irlanda. Uma honra-deliciúra! Tudo aqui publicado é de responsabilidade exclusiva de seus autores."

O destaque da edição 4 ficou por conta da entrevista com o escritor angolano José Eduardo Agualusa, feita por Iara Fernandes. Também estiveram com a gente na edição 5: Eabha Rose, Maita Assy, James Wilker, Rafael Kesler, Toni McConaghle, Little Eagle McGowan, Isabela Escher, Tatiana Carlotti, Zé Alfredo Clabotti, Sara Rauch, Carol Caetano, Paulo Cecílio, Leonardo Valesi, Marília Kosby e outros.

Com um sentimento misto de honra e prazer, participamos da FLU - Feira Literária de Uberaba 2014, em Minas Gerais. Somos muito felizes por fazê-lo instrumento de revolução e de promoção de amor para o mundo e para as pessoas. Que o Equador seja sempre centro de transformações e de bonitezas.

Agradecimentos a todos que fizeram e fazem o jornal, e em especial (como sempre) a Carol Piva. Você é o equador do Equador, Carol. Embarco neste sonho reverberado e potencializado em seus dentros infinitamente lindos. Que tal fazer a 5ª edição do jornal conosco?!


Endereços para envio de textos para seleção:

germanoxavier@hotmail.com

carolbpiva@gmail.com

karimelimon@gmail.com

fernandesiar@gmail.com

tcarlotti@gmail.com

dawgrox@gmail.com

escher.isabela@gmail.com

eabharose@yahoo.ie

 lulotapt@yahoo.com.b


Portanto, você que é contista, cronista, poeta, jornalista, professor, fotógrafo, entre outras ocupações, que esteja interessado em fazer parte de nosso projeto, entre em contato com a turma equatorial e envie seu material para análise!

Esperamos a participação de todos!

sábado, 16 de maio de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte II)

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Viana, que bom receber a tua carta!

Supera mesmo o prazer de esperá-la (que já é incomensurável!); eu sou talvez da última da geração de pessoas que escreviam cartas e postais (na adolescência); era bom esperar uma carta por um amigo comum, quando os correios funcionavam mal ou eram completamente inoperantes, folhear o papel fino às riscas, ler nas entrelinhas, nas dobras do papel, nas rasuras e nas hesitações, mais do que o próprio conteúdo. Depois guardá-las, relê-las …e por fim rasgá-las, décadas mais tarde, quando nelas se esgotava a vida. Mas o nosso padrão de vida actual, o imediatismo dos prazeres e a urgência da comunicação, quantas vezes vazia de sentido, não se compadece com esses compassos de espera. Por isso me alegro tanto por estarmos a recuperar esse costume que parece rebeldia nos dias de hoje… 

Falando de ti, do que me dizes: gosto da definição de ficção e de criação da Ivete Walty. Somos criadores sim, dos nossos momentos, modelos e da nossa perspectiva. Autores da nossa maior criação, que é a nossa vida. “Nem só a realidade existe”, como dizes; (outro amigo poeta dizia-me ontem que “os sonhos são quase tudo o que temos”) – e eu tendo, sinceramente, a partilhar essa visão. Sem o tempo da alegria e do amor, da espontaneidade, seremos só pequenos robôs que se contentam em ser eficazes, eficientes e a sobreviver numa óptica materialista e funcional, despida de intenções e de subtileza. Diria que “estamos”, mas não “somos”…

(Evandro ainda nos vai surpreender um dia entrando de rompante pelas nossas cartas com a sua verdade, mostrando-nos em que frágeis alicerces terá ancorado a sua realidade ou em que sólidas fundações vai ficcionando a sua vida!).

Não me admira que gostes da chuva, esse arroubo humaniza-te, quase te fragiliza! Imagino-te correndo propositadamente sob grossas gotas, protegendo livros e computador desajeitadamente debaixo da roupa. Eu gosto de chuva, lá fora, de mansinho, para embalar o meu sono. Ou através da vidraça, nas fotos, ou aquela que brilha às vezes nos olhos das pessoas. Lembrei-me, a propósito, que José Tolentino de Mendonça, na sua deliciosa crónica Cabeça no Ar fala no seu amor pelas nuvens e na existência, pasme-se, da Associação Mundial de Apreciadores de Nuvens (Cloud Appreciation Society). Quem sabe se num futuro próximo te filias nessa organização ou crias outra do género…?

Mas deixa-me falar-te sobre a língua que estou a aprender (a mesma que me está a prender!). A língua e a cultura, coisas indissociáveis. Só um pudor quase infantil me impede de te alinhavar algumas expressões novas na minha bagagem…talvez na próxima carta me sinta mais segura. Para já, diz-me tu: que língua imaginas possível, criada entre antigos escravos e senhores de escravos? Consegues sonhar com algum som, vocábulo, intuir alguma lógica gramatical…é uma viagem alucinante percorrer estes caminhos tão próximos e simultaneamente tão distintos das nossas certezas quotidianas.

Falando de ficção, por aqui é sinónimo de tentar viver dignamente, segundo os padrões europeus. Não quero que este desabafo se confunda com insensibilidade ou alienação – não estou a falar de fome nem de subnutrição, nem de falta de acesso aos cuidados primários de saúde. Mas assiste-se actualmente por estes lados a uma pobreza que corrói e leva consigo a esperança, o que é mais grave. Que arrasta os sonhos dos mais jovens, a paz dos mais-velhos e inquina a criatividade colectiva. Precisamos de ser mais engenhosos, astutos e pacientes. Ágeis e dispostos à mudança. Parece que a adaptabilidade é uma das principais condicionantes da sobrevivência. Que seja, então. Falávamos da revolução dos cravos, de 25 de Abril de 1974, essa data que me encontrou já com nove anos, em Angola, e que precedeu as independências das ex-colónias portuguesas em África, em 1975. Foi o fim da ditadura e o começo de um novo período na história portuguesa, que guardo na memória com uma enorme ternura. Entretanto algumas das conquistas de Abril estão agora a ser perigosamente postas em causa. O futuro constrói-se com suor e jogo de cintura todos os dias…

Quanto às tuas últimas perguntas, as que formulaste e as que adivinho em ti, explico-te o que faço para me “fluidificar”. Acredites ou não, aqui vai: esta manhã, quando saía de casa, um senhor idoso ficou sem bateria no carro e estava aflitíssimo tentando encostar à berma…então eu fiz algo que não faço há mais de 30 anos e diverti-me como uma menina empurrando alegremente o carro, correndo e empurrando, durante uns 20 metros, até que aquela lata velha resolveu pegar e ainda pude ver o sorriso de satisfação do senhor acenando agradecido! Ah, e para completar o quadro, juntou-se a mim outra senhora que vinha no carro de trás; ela largou o seu carro e as duas juntas fomos ali deixando esvoaçar as nossas saias de meia-estação ao sabor do vento. Um momento incrível de fluidez, uma coisa de minutos que muda um dia inteiro. Achas que exagerámos? Por favor, não sejas tão severo a julgar-nos…

Agora faço uma pausa, com a suave certeza de que a conversa nos vai tornando cada vez mais cientes da alegria que há em nós. E como diria o meu amigo mexicano: ! Qué platicada tan rica!

Um beijinho atento e um abraço enorme.

Até breve,
Clara

Lisboa, 8 de Maio de 2015


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Clara!

Céu fechado aqui. Meio do ano a chegar e a água do mundo teimando em tocar o chão, mesmo cá-aqui, no agreste deste planeta de nome Pernambuco, nordeste brasileiro. Mundo hoje tão inorgânico, não?! Tudo em simulacro, virtualizado e virtualizante (onde os virtuoses?), paredes de espelhos onde não dá nem tempo para sermos quem no fundo somos em realidade real, futuro acionado por controles e ondas invisíveis... Você falando assim no começo e eu meus botões já desgastados, relembrando das cartas que fizeram parte de minha vida. Troquei muitas cartas também, com pessoas importantes em minha trajetória. Escrevia mais que recebia, decerto. Mal sabiam elas, as pessoas-cartas, da felicidade sentida em meu coração selvagem quando aquelas mágicas poções envelopadas aportavam na caixa de carteiro da casa onde eu morava, umas carregando até o cheiro dos(as) remetentes para perto da gente. Cartas escreveram amor em minha mente e todos os sentimentos possíveis na pele-casca. Havia prazer nisto. A tecnologia da escrita com toques de. Até se chegar ao momento de uni-las ao fogo ardente. A sensação em cinzas, o derrotismo, a ânsia por. Mundo novo em fuligem. E vejamos nós, adornando os dias com e em... CARTAS!

Eu-até, meio que encaminhado nessas trilhas escuras dos-sem-vida, fazendo movimentos até bem pouco tempo insuspeitados, sentindo-me acorrentado em grilhões invisíveis que atordoam os passos, conhecendo novas foz-mares e me desconhecendo mais também. Nem tudo é tão claro, Clara. Tantas coisas e eventos que nos empurram para bem longe de nossos desejos mais sagrados... tantos movimentos em vão, regressos, avanços falsos, acessos indevidos - quem na verdade faz o papel de impostor? E como estão raros os nossos momentos sublimes de vida! O que há para se fazer nesta direção e como mudar o que nos muda a todo instante? O que tanto nos impede de sermos felizes? Você tem alguma dica a me ofertar? Ou estaremos, todos, perdidos, sem ter a quem poder combater ou distante dos lemes, eu, você, o Evandro, o arrebol mundano inteiro?

A chuva nos amaina, tira a quentura que extravasa, que está em exagero dentro da gente. Nasci num território de clima bastante ameno, nas paragens diamantinas, ali-logo no centro geodésico baiano, meu estado natal: Bahia de Todos os Santos, dizem. Lembro que antes, quando eu bem pequeno, por lá fazia mais frio, chovia mais, tudo era demais verdinho. Hoje em dia nem tanto assim, sabe. O mundo anda virado até nisto, nossa mãe-natureza irada não perdoando ninguém. Tantas catástrofes e cruzes! Dizem que o frio faz das pessoas mais silenciosas, de pensar mais antes de falar, ajuda na concentração... deve, de certeza, ser verdade. 

E por falar em nuvens, fui hoje comprar dois livros numa livraria aqui perto, que fica dentro do shopping center Difusora (local onde ficava a extinta Rádio Difusora de Caruaru-PE), quando na saída dei de cara com uma mostra de fotografias produzidas por uma estudante de jornalismo paraibana. Ela, que é natural de uma cidade aqui perto, de nome Brejo da Madre de Deus, local onde é encenada a tradicional Paixão de Cristo na época da Páscoa e mundialmente conhecida, com sua máquina de gerar poesia instantânea se revelou uma grandiosa observadora dos céus. Fotografias muito bonitas, a grande parte retratando o ventre dos firmamentos, suas estrelas e seus travesseiros nuviosos. Saí de lá encantado. 

Depois, passe-me as coordenadas para que a filiação minha se dê junto à Cloud Appreciation Society, Clara! Interessa-me! Sou de nuvens e de gostar de viver no mundo da lua, assim como de gostar de coisas que, segundo alguns, não nos levará a lugar algum: alguém por acaso falou em literatura aí? Antes disso, tive a ideia de criar uma Igreja: A Igreja Literária de Todos os Dias. No lugar dos santos e santas, escritores e escritoras. Deus seria Jorge Luis Borges. O papa, talvez o Luiz Ruffato – sujeito-escritor mineiro que ando conhecendo-lendo nos de-agora, por incentivo-revelação de uma menina-equador que atende pelo nome de Carol Piva, conhecida sua também. Que tal? Como se tal ideia tivesse lógica... ligue não, Clara, é só uma brincadeira. A literatura não sobreviveria à noção quadrangular de templo-fiéis-obrigações-dogmas. 

Ah, a nossa língua! Nossas línguas dos outros também, posto nossas de-nós. Línguas do mundo, artefatos coletivos de aproximação e afastamento, matéria vivíssima, mutante, permeável, social, de interação, de amor, de suor e de nossas histórias comuns de viver e estar e ser. Todas-tão, Clara! Como deve estar sendo bom a você estas novas descobertas, Clara! Imagino quanta beleza, quanto sumo a ser bebido ainda nesta viagem. Eu não quero nem arriscar. Aguentarei firme até seu oportuno esclarecimento. Tenho lido tantas coisas sobre a nossa língua portuguesa, Clara, por aí nesses meus passeios acadêmico-mundanos... não saberia nem por onde começar de tanta boniteza que incorporei nos últimos meses. Línguas-amor! Vivas!

Aqui, Clara, a barra está pesada. Batata assando nas mãos de cada brasileiro honesto, que trabalha dignamente. Ondas de corrupção devastando tudo pela frente, impunidade alarmante, inversão de valores, violência, falta em quase todos os setores, educação mendigando. Aqui se paga pelo descaso, pela ganância de alguns, pela falta de vergonha na cara, e em muitos casos paga-se com a própria vida até. Revoltante. País belo e de fortunas incomensuráveis o Brasil, tão maltratado pelos governantes, tão sem-p(rumo), tão incerto. Brasil de esperanças, sempre. Nem sabemos direito se a ditadura aqui se foi por completo, porque é cada uma que a gente precisa engolir, só vendo. Você viu um pouco da questão das greves dos professores aqui, que sei. Imagine mais, fique à vontade, pois é possível este fabrico ideário. Em tocar nisto, interessa-me saber um tiquinho acerca da visão que vocês aí em Portugal possuem da gente, irmãos-quase-nem de colonização. Sei que é um questionar já batido e que não procede nos-muitos, mas há um quê de curiosidade se e como a mídia em geral nos transmite até a população. E vivas à Revolução dos Cravos! Vivas!

Tão gracioso o momento de fluidez apresentado por você, Clara. Queria estar de perto-pertinho para poder ver a cena ou ajudar ou as duas coisas ao mesmo tempo, só para fazer parte também desta alegria espontânea de bem. Não julgo, pois sei que é justamente assim que conseguimos estar em pé diante das atribulações do dia. É num evento mínimo que o máximo existe. Não adiantar fugir de tal engrenagem. O simples é o atalho mais perfeito para o belo. Por cá, o pneu de minha motocicleta furou. Com jeito, consegui chegar à borracharia. O sujeito do estabelecimento era uma figura. Construímos metáforas sobre pregos e câmaras de ar. Dia vencido.

Sendo assim, vou-me por cá-agora, mas não deixe de me explicar o significado da expressão "encostar à berma", okay?

Sigamos, entre mares e marés.

De teu amigo, 
num Pernambuco de Holanda para o coração querido das esperas, 
em 16 de maio de 2015.

**********


Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Lucille

*
Por Germano Xavier

para B.B. King, in memoriam

o som como o passar da língua na serpente
(lambedura de escamas), adoçada máquina 
de entreter o triste azul das conflagrações:

em tons.

era o negro em pureza estético-conteudista
no dedilhar sinuoso dos sonhos em aurora.
rei da bocarra: sudário vivo de um deus musical.

será o som como a nódoa numa roupa sideral
a proposta para os bailes de espírito em incêndio?
de partida, todo um éter poético: Lucille sem ar.


* Imagem:  http://kenmeyerjr.deviantart.com/art/bb-king-4557133

quinta-feira, 14 de maio de 2015

As lentes de névoa sobre os conceitos de CONTEXTO

*
Por Germano Xavier


DIJK, Teun A. van. Discurso e Contexto: uma abordagem sociocognitiva. São Paulo: Contexto, 2012.


No capítulo de abertura de seu livro DISCURSO E CONTEXTO: UMA ABORDAGEM SOCIOCOGNITIVA, o linguista holandês Teun A. van Dijk, renomado pesquisador das relações existentes entre texto e contexto (e suas adjacências), elabora um amplo panorama acerca da percepção histórica do “senso de contexto” vigente a partir e, também, durante o surgimento de diversas disciplinas e/ou esferas do saber humano.

O senso que se forma, desde então, ao derredor do conceito de contexto, pode ser considerado, segundo o autor supracitado, como tomado por uma névoa excessiva e prejudicial ao desenvolvimento da matéria. Sem saber distinguir ou deixando-se emaranharem por uma teia até demais desorganizada, as ciências terminaram por intuir uma noção de contexto indefinida, sem a complexidade necessária e, por assim dizer, confusa.

Com o foco de contradições estabelecido nos primórdios das pesquisas envolvendo a problemática contextual, os fins de uso de tal concepção e ideário ficaram à mercê de propostas quase que isoladas e bastante ousadas realizadas por pequenos grupos de estudiosos que, apontando caminhos e possíveis resultados bem discrepantes das construções óbvias já existentes, fizeram com que os meandros do contexto começassem a ser investigados numa crescente de organização nunca antes vista. 

Para explicitar um pouco da real importância e da costumeira necessidade de tal ramo de estudo, Teun A. van Dijk nos coloca diante de um discurso do primeiro-ministro britânico Tony Blair, pronunciado na Câmara dos Comuns em 18 de março de 2003. A partir da leitura do texto emitido por Blair, Dijk apresenta-nos aos princípios básico-naturais (noções gerais) do que poderia vir a ser objeto de conceituação de ordem contextual, elucidando a combinação real texto-em-contexto, fazendo-nos observar que o texto não é um elemento imóvel em si, impermeável e separado das construções socioculturais de um determinado povo ou de um determinado momento histórico, até porque, como já sabemos, o texto é local de interações as mais diversas. E como bem aponta Dijk, entender o discurso é antes realizar a compreensão texto/conversação-em-contexto. 

A natureza do contexto, para Dijk, é múltipla. Não há como identificar um só nascedouro para o elemento em questão. Sendo um objeto que atende às demandas subjetivas de cada ser vivente que se prostre diante de um dado fenômeno, a concepção de contexto envolvida tende a ganhar roupagens e condições de atuação não congruentes. A natureza do contexto, destarte, pode ser considerada mutante.

Disciplinas como a Literatura, a Semiótica, as Artes em geral e até a própria Linguística, quando de seus primeiros embates para com as situações de existência dos con-textos, imbuíram-se de limitar suas percepções quanto a uma possível Teoria do Contexto a estratégias “formalistas”, “estruturalistas” e “transformacionais”, o que as colocou diante de uma escaramuça ideológica de difícil solução. 

Somente após os anos 60 do século XX, com o aprimoramento de interdisciplinas hoje fundamentais para o entendimento das evoluções contextuais, como a Semântica, a Pragmática e todas as suas ramificações, é que o contexto começou a ser lido com os olhos menos nublados. Estas novas ciências iniciaram uma preocupação direcionada à investigação do significado das sentenças linguísticas em geral (Semântica), como também interessadas no uso e nas intenções presentes nestas sentenças. 

Ligadas não somente pelo fato de estarem em constante contato com as diversas facetas do significado, mas também por serem sistemas que interagem com outros ramos do saber para melhor produzir e investigar os seus respectivos objetos de estudo, as novas ciências do significado, ou por assim dizer novas interdisciplinas, começaram a se estruturar, alicerçando passos importantes para o futuro das análises envolvendo o contexto. Nomes como os de Bréal, Saussure, Frege, Grice, Benveniste, Ducrot e Austin, espécie de panteão de lideranças destas novas fontes de pesquisa-saber, não podem ser esquecidos jamais em suas particulares relevâncias, mesmo a maioria deles não atentando diretamente para os fenômenos do contexto, ou seja, mesmo se atrelando mais às particularidades do contexto verbal, também conhecido por cotexto.

Dijk observa que a partir dos anos 70 do século passado, com o advento da ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA (ADC) e com a aproximação feita por parte da Sociologia, Etnografia, Antropologia e a Psicologia, entre outros, o contexto ganhou status de objeto de estudo definido e definidor, enveredando-se pela crítica e pelos usos sociopolíticos da língua. 

Os fenômenos contextuais foram, na visão de Dijk, acentuados no que dizem respeito aos seguintes padrões de entendimento: 1) Os contextos são construtos subjetivos dos participantes; 2) Os contextos são experiências únicas; 3) Os contextos são modelos mentais; 4) Os contextos são um tipo específico de modelo da experiência; 5) Os modelos de contexto são esquemáticos; 6) Os contextos controlam a produção e compreensão do discurso; 7) Os contextos têm bases sociais; 8) Os contextos são dinâmicos; 9) Com frequência, os contextos são amplamente planejados, entre tantos outros aspectos que serviram de espectro para a mudança de prisma já citada.

Convenhamos, a verdade é que Dijk esmiúça a noção de contexto para nos alocar até ela e fazer com que a tenhamos mais próxima de nossas retinas, sem qualquer forma de embaçamento. A teoria, para tanto, não pode ser descartada. O senso comum jamais dará conta de resolver todos os problemas envolvendo as preocupações contextuais. Aos interessados, um rol de possibilidades se ergue depois de lermos Dijk.


* Imagem:  http://linguagemsemfronteiras.blogspot.com.br/2011/07/resenha-discurso-e-mudanca-social.html

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Apontamentos sobre a estruturação silábica

*
Por Germano Xavier


No Português Brasileiro (PB), a estrutura silábica básica é naturalmente formada de vogais (V), consoantes (C) ou semivogais (V’). As vogais são os únicos elementos, dos três que perfazem a estrutura silábica, cuja presença é obrigatória, sempre ocupando o setor denominado de núcleo (pico silábico). Sendo assim, semivogais e consoantes ocupam as porções periféricas da sílaba.

Dentro dessa estruturação, há o ATAQUE (onset silábico), a CODA SILÁBICA e a RIMA, além do já citado NÚCLEO (pico silábico). O Ataque é o elemento pré-vocálico (isto é, pré-nuclear) e pode ser preenchido por uma ou duas consoantes; a Coda é o elemento pós-vocálico e pode ser ocupada por uma ou mais consoantes; a Rima é o nome que se dá à junção dos elementos integrantes do Núcleo com a Coda. Neste jogo, tanto a Coda quanto o Ataque podem aparecer não preenchidos.

Cabe ressaltar, ainda, que a sílaba é a primeira representação de organização de ordem fonológica de uma língua. No Português Brasileiro (PB), a estruturação supracitada se dá em tais moldes explicitados, o que pode variar em outras línguas mundo afora.

A quantidade de vogais em uma determinada palavra indica a sua respectiva quantidade de sílabas (no Português Brasileiro). O Ataque com a presença de apenas uma consoante é chamado de Ataque Simples (onset simples), quando conta com duas consoantes é denominado de Ataque Complexo (onset complexo), que também possui a característica de dar origem ao fenômeno conhecido por Encontro Consonantal Tautossilábico.

Para a Coda com uma só consoante, a terminologia dada é a de Coda Simples. Quando existir mais de uma consoante nesta posição, chamaremos de Coda Complexa.

No Português Brasileiro, os tipos de sílaba são classificados em: 

Silábas Simples – possui apenas um núcleo silábico;
Silábas Complexas – possui núcleo precedido por consoantes;
Silábas Abertas ou Livres – não possuem Coda Silábica;
Sílabas Fechadas ou Travadas – possuem Coda Silábica.

São exemplos de sílabas formadas com semivogais: 

VV’ – VV’C – CVV’ – CVV’C – CV’V – CV’VC – CV’VV’C

Para a questão do Vocábulo Fonológico, consente-se de que se dá quando da junção de palavras que possuem apenas um momento de pronúncia, a citar as palavras aguardente e entretanto. Outro caso a se destacar dentro dessa esfera é o dos Clíticos (dois ou mais elementos lexicais com um único vocábulo fonológico em decorrência da atonicidade de um deles), a citar os exemplos de “os amigos me cobraram” (osamigos e mecobraram).



BIBLIOGRAFIA

SEARA, Izabel et al. Fonética e Fonologia do Português Brasileiro. UFSC. 2011. Disponível em http://goo.gl/tQy90q. Acesso em 11 de maio de 2015.

* Imagem:  https://www.ufpe.br/cead/eletras/fonologia/index.php?pag=cap6

domingo, 10 de maio de 2015

Caixa 2 – Até 10 volumes

*
Por Germano Xavier


Sol. Domingo. Preocupação inicial: tomar café. Vontade de tomar café de posto! Beira de estrada? Sim, vamos? Levantamos. Procuramos um posto e tomamos café de posto. Sol. Domingo. Segunda preocupação: fazer compras para a semana. Tempo das coisas ditas naturais. Vamos ao VERDÃO? Acelero. Estaciono o carro bem na parte da frente do estabelecimento, junto aos grandes portões de entrada. Ela desce. Traga amêndoas, por favor. Falei pela fresta do vidro. Consegui ser escutado. Não vai entrar? Não, ficarei aqui fora. 

E fiquei. 

Poucos minutos depois, após impulsivamente verificar possíveis mensagens no celular, fixei meus olhos na moça do CAIXA 2 – ATÉ 10 VOLUMES. Ela me olhou rapidamente num dado momento e depois fez seus olhos se perderem no meio do galpão. Olhava tanto para dentro quanto para fora do lugar de onde estava, tanto para baixo quanto para cima, para os lados. Ninguém para atender. Solitária, à espera de algum cliente. Eu, fixado a observá-la. 

Do outro lado, no CAIXA 1, uma moça com uma bolsa a tiracolo começava a retirar de dentro de seu carrinho os alimentos selecionados durante o passeio por dentro do supermercado de “alimentos saudáveis”. A atendente encostava o código de barra de cada embalagem num leitor óptico. Uma luzinha vermelha intermitente. O preço saia na grande tela um pouco acima de suas cabeças e a soma ia se dando automaticamente. Tudo aparentemente muito normal. 

Enquanto toda esta movimentação acontecia ao seu lado, a moça do CAIXA 2 – ATÉ 10 VOLUMES continuava a destilar seus olhos perdidos pelo grande quadrado de cimento revestido com telhas tipo Eternit.
Bonita, ela. Longos cabelos. Morena, batom nos lábios, uniforme verde da empresa, crachá pendurado no pescoço. Estava sentada. Eu só podia vê-la a partir da parte superior de seu tronco. Mãos tateando o nada sobre o balcão. Certa indecência de gestos. Outro moço do VERDÃO arrumava os carrinhos, um a um, encaixando-os velozmente num esforço repetitivo. Sons metálicos eram ouvidos. 

O interior do carro esquentava. Abaixei mais os vidros. 

Guardei o celular no bolso e concentrei-me ainda mais a olhar a moça dos olhos incertos. O que pensa aquela moça neste exato instante? Será feliz com a vida que leva? Estaria planejando uma fuga desesperada nos próximos segundos? Estaria só esperando o tempo passar para poder, enfim, e ao toque da sirene das maquinarias de trabalho, abraçar sua mãe em pleno Dia das Mães? E como seria o seu “eu te amo, mãe”, depois de tanto tédio vivido na matina dominical? De onde vinham aqueles olhos desnutridos, sem vida? 

Olhando para ela, fiz-me recordar de uma outra moça que havia visto dia desses no shopping center. Esta, diante de um pequeno balcão, quase do tamanho de seu corpo, fazia com empolgação propaganda boca-a-boca de reluzentes e coloridas capas para chaveiros de automóveis a todos os passantes, inclusive a mim. Eu, esperando o elevador chegar ao meu posto, também observava-a em sua porção risível de vida. Em troca de? Ao passo em que detectava tristeza em seu olhar. O shopping center abria por volta das 10 horas da manhã e só fechava 10 da noite. Interroguei-me se realmente era possível passar o dia ali, naqueles modos. O assustado seria eu? Incomodado demais?

Retornando do flash de memória, senti a porta do carona se abrir. Quase um susto. Trouxe as amêndoas? Estava em falta. Tudo bem. Não quer passar no outro supermercado? Virei o rosto uma derradeira vez. Busquei a moça do Caixa 2...

Não, melhor não. Vamos para casa.


* Imagem:  http://www.sst.sc.gov.br/?idNoticia=634

Nada muito sobre filmes (Parte XVI)

*
Por Germano Xavier


DARCY RIBEIRO: UM GUERREIRO SONHADOR

O documentário DARCY RIBEIRO: UM GUERREIRO SONHADOR (2007), dirigido por Rozane Braga e Fernando Barbosa Lima, conta um pouco da vida de um de nossos maiores e mais importantes intelectuais: Darcy Ribeiro. O mineiro obteve êxito e reconhecimento em diversas áreas ligadas à cultura, foi antropólogo, professor e escritor, só para citar algumas de suas incontáveis facetas. O excelente documentário puxa mais pelo lado nacionalista de Darcy Ribeiro, revelando-nos aos poucos um brasileiro excêntrico e extremamente apaixonado pelo Brasil. Narrado pela atriz Cássia Kiss. Para este nosso tão esquecido 19 de Abril, Dia do Índio, uma pedida inquestionável. Recomendo a todos os mortais!


GREMLINS 2

GREMLINS 2 (1990), de Joe Dante: intragável. Já não gostava do filme quando mais novo, só confirmei. Dizem que virá uma refilmagem por aí...


DIVERGENTE

Um tal de INSURGENTE perambulando pelas salas dos cinemas nos últimos dias, e eis que resolvi ver o tal do DIVERGENTE (2014), do diretor Neil Burger. O filme é baseado num best-seller desses moderninhos e quase semanais que vez ou outra atinge uma massa gigantesca de jovens leitores pelo mundo, muito por conta de uma violenta campanha publicitária. Críticas à parte, o filme chega a interessar. Mundo particular, sociedade dividida em facções, atmosfera caótica, jogos de poder... o ruim de tudo é que o filme, creio que por ter sido o primeiro da trama, passa-se quase que totalmente focando o treinamento que se dá à protagonista ao se enveredar por uma das facções. Aí do meio para lá a coisa fica meio repetitiva... Dá até para ver o seguinte... Quem já?


A DELICADEZA DO AMOR

A DELICADEZA DO AMOR (2011), dos diretores David Foenkinos e Stéphane Foenkinos, é realmente um filme delicado sobre o Amor (risos pela proposital redundância), o amor que é de verdade, demolidor de barreiras as mais diversas. História por demais verossímil. Gosto muito da Audrey Tautou. Baseado em livro homônimo. Filme leve e com bastante poesia. Recomendo a todos os mortais!


O RITUAL

Um filme de suspense com Anthony Hopkins no elenco é quase que uma receita certeira e imbatível para se ter um interessante programa cinematográfico. E foi, sim, mais uma vez, com honras. O filme O RITUAL (2011), dirigido por Mikael Hafstrom, não chega a ser uma produção extraordinária, mas é muito bom de se assistir. O tema central é a fé, travestida no imaginário do exorcismo. Atmosfera bem elaborada, cuidado nos detalhes e... ao final, um filme que agrada aos admiradores do gênero em questão. Ao menos, foi assim comigo. Hopkins fenomenal, diga-se de passagem. O filme é baseado em fatos reais. Quem vai encarar?


ENSINA-ME A VIVER

O filme ENSINA-ME A VIVER (1971) é uma comédia dramática dirigida por Hal Ashby. A priori sem grandes pretensões, o filme surpreende pela simplicidade da narrativa, pela trilha sonora linda e pela mensagem-elogio de rebeldia e liberdade. Harold é um garoto rico aficionado pela morte cujo hobby é ir a enterros e, também, teatralizar potenciais suicídios. Até que, num determinado dia, conhece uma senhorazinha com seus quase 80 anos de nome Maude, que é justamente o seu oposto, isto é, loucamente apaixonada pela vida. Após convívio, os dois criam um vínculo fortíssimo e passam a viver poeticamente. Ao final, uma surpresa separa os dois. Filme com beleza, de arte, com gosto e prazeroso. Recomendo a todos os mortais!


SOB LUZ E SOMBRAS

SOB LUZ E SOMBRAS (2012) é um documentário dirigido por Julio C. Siqueira que versa sobre o olhar-vida do fotógrafo J. M. Goes. Com sua paixão a destacar por mais de duas décadas o nu feminil, o fotógrafo, no auge de seus 80 anos, revela um pouco de seus processos de criação em P&B e finalizados aos moldes analógicos. Interessante ver a relação do artista para com suas fontes maiores de arte, os modelos - neste caso, as modelos. Recomendo a todos os mortais!


POCAHONTAS II – UMA JORNADA PARA UM NOVO MUNDO

POCAHONTAS II - UMA JORNADA PARA O NOVO MUNDO (1998), dos estúdios Disney e dirigido por Tom Ellery e Bradley Raymond, desembeleza o pouco de boniteza que a primeira parte possui. Certos filmes não sustentam continuações. É o caso deste. Melhor não perder o seu tempo, bucaneiro. Sigamos!


A MALDIÇÃO DE CHUCKY

Sexto filme da franquia do "brinquedo assassino". A MALDIÇÃO DE CHUCKY (2012), dirigido por Don Mancini, não convence nem ao mais entusiasta do gênero - é o que penso. A verdade é que, após os três primeiros exemplares da saga, você nunca mais foi o mesmo, Chucky. Hora de pensar na aposentadoria.


* Imagem:  http://jpn.up.pt/2015/04/18/cultura-ciclo-cinema-saude-doenca-regressa-casa-das-artes/

Sobre as festas particulares do corpo

*
Por Germano Xavier


Quando li CASA DAS MÁQUINAS, livro de estreia de Alexandre Guarnieri, eu já havia dito/escrito que estava diante de um conjunto de petardo-poemas diferenciado no rol do que já havia lido até então. O livro era/é uma investigação poética sobre a maquinaria do mundo, “com ou sem seus parafusos-fusos que apertam e afrouxam os nossos eixos de homem-humanidade, fator que pode ou não combustionar o rumo de todas as coisas. Poemas-válvula, poemas-rebite, poemas-cilindro, poemas-lâmpada, mecanophrenya generalizada...”

O singular livro da capa preta agora cede espaço no território-criador de Guarnieri para outro rebento-solar: seu segundo livro, intitulado de CORPO DE FESTIM. Livro da capa verde, com Houdini acorrentado, esboço-simulação de uma criação para a larga estrada da humanidade asfaltada através dos invólucros perfeitos: os corpos das coisas e até mesmo o corpo do próprio corpo: a ideia da possibilidade do banquete particular sempre disponível. 

Aqui-agora neste, Guarnieri não remedeia nada de nossos males, não escancara aflições, não mais nos previne dos cancros maiores de nossas amarguras; melhor, explica a pane da vida desde o átomo primordial das ausências até a supernova celular das vistas opacas. E explica o passo-a-passo de nossos passos sombreando, com tortuosos verbos, como tem de ser o mistério em essência. 

O revisto caos com câncer da atualidade-homem é, pré-leitura-pós, constantemente relembrado em todos – ou quase todos - os seus filtros invisíveis, já que o plasma medular da vida está agora embutido em todas as veias de palavra-vãos utilizadas pelo poeta-imagético/sensorial carioca. Assim, suspeitaremos durante todo o livro de uma porção um tanto mais espessa acerca de nossa origem animal-animalesca, sem deixar de lado a nossa porção-pensamento/sentimento. 

De tal maneira forte a substância do livro que o caminho dos sentido-significados é sufocado pelo senso de arrependimento, ou ao menos de angústia por termos nascido e sermos nascentes, também. A vida se torna um desacerto dentro da grande-poesia de CORPO DE FESTIM e o erro, um elemento elegantemente elogiado e extremamente funcional.

Aí está, novamente: o componente-marco da poética de Guarnieri, tendo em vista seus dois livros primeiros, é talvez um olhar uníssono sobre o enredo de nossos dias. O poeta parece atravessar a rua, no meio do tráfego violento, para nos dizer das coisas que existem dos outros lados, nas outras margens de nós mesmos. Do outro lado, repito, uma sempre-possibilidade. O corpo: uma casa, uma máquina, uma fonte eterna de tudo, mesmo quando alquebrado, sem vida ou morno.

Guarnieri se prostra diante do mundo doente para fazer intervenções pontuais: opera a carne humana, faz corte na carne anímica, elabora sucção da carne terrena, mete-se a reter os líquidos que extravasaram durante os noturnos tempos sem aurora, faz a cirurgia que entreabre a malha do tecido-pele, espeta a bolha e faz de conta que é o fotógrafo da explosão ao mesmo tempo em que inaugura qualquer espécie de pulso. CORPO DE FESTIM é um livro de poemas escritos com o auxílio de um estetoscópio. Guarnieri, antes de fazer o papel de um médico do coração dos corpos do mundo, diagnostica os módulo-nódulos do ócio e de nossas bruscas des-frenagens cotidianas. 

Afinal, o que poderíamos ser se tivéssemos feito tudo de outra maneira? O que ainda dá para ser se escolhermos mudar a rota? Não há um resultado definido ao final: nem a morte fica anunciada sob a maca que carregamos sem saber. Há sim, um peso. Um peso por sermos o centro dos movimentos de Nada-Tudo, um peso por pensarmos que somos. Tudo, como em CASA DAS MÁQUINAS, permanece alterado no meio do caminho, com numa experiência. Guarnieri, não obstante suas denotativas evoluções, segue a escrever não livros com poesia, mas livros que despoetizam o que é elemento-impostor, inverdade. Para ele e seu CORPO DE FESTIM, o que importa é o avesso dos lados retos, o irresolvido dos absolutismos, a eletricidade nos nervos atingidos e suas prováveis reações sinestésico-inomináveis.


* Imagem:  http://saopauloreview.com.br/2015/01/05/resenha-corpo-de-festim/

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Poeminhas sem glúten

*
Por Germano Xavier


I

dispenso a flor
quero tua mão nua
em minha carne crua

dispenso o ritual
o prelúdio
o manual

quero o teu corpo
in natura
em meu abraço total



II

eu te amo descobrindo estradas
desenhando rumos eu te amo
vencendo mitos
destruindo túmulos
adestrando fantasmas

único fato possível ao amor: amar
quem ama não naufraga quem ama não fracassa
único fracasso possível ao amor: não ser


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/love-52121412

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Apontamentos sobre traços fonológicos

*
Por Germano Xavier


O Círculo Linguístico de Praga, grupo de estudiosos lítero-linguistas também conhecido como Escola de Praga e bastante influente nos estudos da língua até os dias atuais, além de outras contribuições, funcionou como polo gerador da discussão acerca do elemento fonema visto como uma unidade divisível, portanto, formado por um feixe de traços distintivos particulares a ele. 

É importante destacar tal informação, haja vista que o fonema até então era visto como uma unidade sem divisórias, quase que impenetrável ou impermeável, ideia defendida pelo Estruturalismo.

Tal abertura, gerida por Jakobson, possibilitou o aprofundamento das pesquisas acerca destes supracitados traços a partir de uma ótica acústico-perceptual. No livro FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, as autoras resolvem fazer um apanhado sobre esta problemática tendo como base a Fonologia Gerativa de Chomsky e Halle, que investiga os traços distintivos a partir de suas engrenagens articulatórias

O sistema binário foi escolhido pela maior parte dos estudiosos da área como padrão para análise dos eventos envolvendo traços distintivos por ser considerado o de mais fácil adentramento. Apresentados quase sempre em formatos de matrizes ou árvores, os traços distintivos (propriedades comuns ou individuais), ganham em sua definição simbólica colchetes com valências [+ ou -].

Os traços distintivos, assim vistos pelo prisma articulatório, agrupam-se em algumas categorias ou subdivisões: quanto às Classes Principais (silábico, consonante e soante); quanto à Cavidade (coronal, anterior); quanto ao Corpo da Língua (alto, baixo, recuado); quanto ao Modo de Articulação (contínuo, lateral, nasal, estridente, soltura retardada); quanto à Forma dos Lábios (arredondado) e quanto à Fonte (vozeado).

Façamos, pois, um curto resumo dos traços distintivos:

CLASSES PRINCIPAIS – Silábico (definição de sons silábicos e não silábicos); Consonantal (definição através de segmentos com constrição significativa na região central); Soante (definição por passagem de ar livre nas cavidades oral ou nasal).

CORPO DA LÍNGUA – Alto (definição com levantamento do corpo da língua acima da posição neutra); Baixo (definição com abaixamento da língua em relação à posição neutra); Recuado ou Posterior (definição com retração da língua em relação à posição neutra).

CAVIDADE – Anterior (definição com obstrução no trato oral anterior à região alveopalatal); Coronal (definição com ápice da língua elevado).

FORMA DOS LÁBIOS – Arredondado (definição com estreitamento dos orifícios dos lábios e projeção dos lábios).

MODO DE ARTICULAÇÃO – Contínuo (definição com passagem de ar plena durante toda a produção); Estridente (definição com presença de obstáculo suplementar e produção de ruídos); Nasal (definição com abaixamento do véu do palato e escape de ar pelas cavidades nasais); Lateral (definição com escape de ar lateral devido ao abaixamento da parte média da língua); Soltura Retardada (definição com abertura gradual do trato vocal – africadas – ou soltura abrupta do ar – plosivas).

FONTE – Vozeado (definição com pregas vocais em vibração).

Para o justo detalhamento dos traços distintivos, faz-se preciso não se esquecer de dois pontos de apoio fundamentais: a Posição Neutra e o Vozeamento Espontâneo. 

Com relação à Transcrição Fonológica, as notações são: 

[ ] = notação fonética/produção do falante - fones;
/ / = notação fonológica/relação com o significado – fonemas.



BIBLIOGRAFIA

SEARA, Izabel et al. Fonética e Fonologia do Português Brasileiro. UFSC. 2011. Disponível em http://goo.gl/tQy90q. Acesso em 06 de maio de 2015.

domingo, 3 de maio de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte I)

*

Viana?

Sei que ficarás surpreendido com este primeiro recado. Nem ouso chamar-lhe carta. Sabes, a bem dizer, não escrevo uma desde os anos 80. Apenas notas, palavras dispersas, ideias caóticas amarradas à força umas às outras, letras ao vento. Mas não uma carta no sentido de relatar minudências, trivialidades, falar de coisas que só para mim têm algum relevo e que talvez te despertem também a atenção. Tu tens olhos de ver e não te ficas pela superfície. Ontem, por exemplo, surgiu aquele menino, do nada, quando eu voltava para casa. Ele teria quê, uns 6, 7 anos, chegou a correr, esbaforido, e perguntou: “Como é que te chamas?”. E eu disse. Ele respondeu então: “Eu te conheço”. O menino disse depois que se chamava Evandro (ele tem uns olhos castanhos fantásticos, curiosos e espantados, Viana). Perguntei pela mãe, pelo pai. “A mãe está ali”, e o menino apontou com o braço esticado para uma direcção improvável no meio da multidão, dos carros, das pessoas que passavam com compras. “Mas não tenho pai”. Eu queria saber mais sobre esse pai que ele não tem, queria dizer-lhe que não se afastasse da mãe. Entretanto tocou o meu telefone e afastei-me, dizendo-lhe apenas para estudar, estudar muito, estudar sempre, para se portar bem. Quase como se isso substituísse esse pai que não tem e que não o tem a ele. E que não sabe certamente o que perde: um menino meigo de olhos castanhos e um tempo irrecuperável, pois como dizia o Vinicius, “O tempo do amor é irrecuperável”.

Eu voltei para casa pensando que um dia destes encontro por aí o Evandro, já formado, carregando responsabilidade nos gestos. E ele nem se vai lembrar de mim, mas eu vou ficar contente por ele.

Que mais te posso dizer? Voltei a estudar, num registo paralelo e horizontal, carregado de espontaneidade. Estou a aprender outra língua. As que tenho já não me chegam para te falar e te contar estas coisinhas miúdas que tornam os dias importantes. Chegam para o discurso formal, académico, para os relatórios, mas serão suficientes para comunicar? Estou sempre à procura de novas ferramentas. Nestas aulas encontrei um povo feito de muitos outros numa terra que incendeia e onde as canções pedem chuva. São uns pontinhos no mapa, no meio do oceano. Dizem que é um país e eu acredito. Por ora quero apropriar-me da língua e fazer dela minha também. Quando descobrir mais sobre o assunto eu digo de que língua se trata, ainda estou a sentir-lhe o gosto.

E tu, caro Viana? O que me contas? Amanhã é o dia 25 de Abril. Lembro-me daquela canção do Chico, Tanto Mar, em que ele canta aquela estrofe: Lá faz primavera pá/ cá estou carente/ manda urgentemente/ algum cheirinho de alecrim. Conheces? Eu mandava-te um cheirinho de alecrim, se pudesse, agora mesmo. E tu mandavas-me um bocado de esperança e dessa maneira de olhar a vida com olhos da cor do sol. Será que é mesmo assim ou é ilusão nossa?

Eu quero saber de ti, dos teus dias. Como são, mas sobretudo como tu os vês.

Um beijo, por hoje é tudo, embora pareça quase nada, é um pouco do muito que tenho para oferecer. Tenho um monte de factos e afectos para arrumar, engavetar, etiquetar, reciclar. Trabalho, compras, família, mais trabalho, rotinas e algumas divagações pelo meio.

Agora eu vou, mas volto. Fico à espera do correio, 

Outro beijo
Clara 

Lisboa, 24 de Abril de 2015



*



Clara, 

Bonito isto de escrevermos a vida, à vida. Cartas, assim no mesmo-delas, são realmente difícéis artefatos nos dias de nós-agora. Mundo tão de produzir-resultados-para-já, não é? Por minhas mãos, também elas, recordo apenas nos meus anos de menos idade. Somos, pois, assim nos sendo em cima das recriações cotidianas, criadores de uma órbita particular de observação incomum do mundo. 

Ainda hoje lia algo sobre o que é ou não ficção, e a autora Ivete Lara Camargos Walty nos diz que “criar é propor novas ordens, novos sistemas de pensamento, novas maneiras de ver o mundo; logo, a criação ameaça a ordem instituída, as bases em que a sociedade se apóia”. Somos a partir desta primeira troca, criadores, criamo-nos. É bem o que ela frisa, concorda? 

Portanto, por sermos e pensarmos como pensamos, isso de poesia quase-sempre, somos também perigosos, pois andamos raspando a margem dos padrões do viver impresso a todos e não nos subordinamos facilmente às ordens da produção pela produção. Sei que pensas assim, mesmo sem saber se de verdade, mas seremos sempre de admitir as belezuras da fantasia, até porque nem só a realidade existe. 

Ultimamente, estamos tão perplexos com o cotidiano amórfico em que vive a maioria de nós, que acabamos sendo parte do todo também, até mesmo quando fugimos em disparada. Como escapar daquilo que nos açoita e que, ao mesmo instante, apresenta-nos invisível e onipresente? O tempo... do amor, da alegria, da felicidade clandestina, do coração selvagem, o tempo ponteia tão esparsadamente os nossos dias velozes. Sem tais tempos, o que somos?

O pequeno Evandro irá crescer e o que a vida lhe dirá, e o que a vida lhe fará? E saberá ele viver com sabedoria o tempo disponível? E nós dois, Clara, o que estamos fazendo de nossos tempos de rebeldia, de liberdade, de bondade, de significados? Irrecuperável é a dor de ser feliz pela metade, a mágoa do ir com medo para o lugar desejado, o desgosto do passo lento, o amarelo dos sorrisos tristes. Toda mancha altera o ponto onde ela se instala. Para eliminá-la, mobiliza-se o ponto de amparo. Enfim, Evandro irá crescer e escolherá entre viver a ficção ou a realidade – e será mesmo que temos a capacidade ou a faculdade de fazer tal escolha? Deixo a questão em aberto...

Aqui está tudo em paz. Ou talvez a paz simplesmente tenha dado uma trégua a ela mesma, deixando-me num estado de incerteza copiosamente intransponível. Choveu bem durante a madrugada. Amanhã deverá continuar assim, úmido. Já te falei que adoro chuva, nuvens carregadas, trovões, dias frios e afins? 

Já até imagino sobre quais objetos de língua debruçam seus olhos ardentes pelo saber, Clara. Acho incrível e quero suspeitar mais destas suas paragens de observância-vivência. Ao passo que se forem dando as novidades, deixe-me a par. Sobre os Cravos, sei quase nada, só em parcas leituras, tinta de uma demão apenas. Conte-me mais sobre este episódio, por favor. No olhar do ser-autóctone a coisa sempre ganha outros tons. Interessa-me tanto. 

Ademais, entre meus medos, examino meu dicionário atroz. Volto ao começo desta missiva. Faço: o que é mais ficção por aí, Clara? O que é mais realidade? O que faz de você mais rígida? O que permite a você ser fluidez em auroras tão insípidas? O que fazes de melhor para fugir das gaiolas? 

A gente volta. Vai daqui meu carinho.

Viana
Planeta Pernambuco, País de Caruaru, 03 de maio de 2015.


***


Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.