segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXI)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 15/05/2015
Chegada a hora

L’heure arrive

nous sommes la conscience viciée,
le vice odieux, nous sommes la distance imaginée
et l’espace parcouru,
la lumière absente, le pied entier, tout nu.

soutenons la route qui nous accueille,
n’acceptons aucune imitation. Le phare se tait
pour celui qui regarde ailleurs. La route ne nous quittera pas
même si nous partons. Regardons donc en face
Le rêve n’est pas le karma, c’est l’âme!

dans le corps, le désir (le chocolat dans le baiser, t’en souviens-tu ?)
vouloir le soleil, faire des plans de voyage, sautiller
courir en souriant, dormir, rêver (des plaisirs gratuits)
ça vaut le coup, n’est-ce pas ? ne critiquons donc pas l’amour, de grâce.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Barren-river-550932852

sábado, 1 de agosto de 2015

A douta espera

*
Por Germano Xavier

"Não me espanto em despertar no meio da água."
(Adolfo Bioy Casares)


em revolta, o amor. o mesmo amor
que me faz ser triste e que de dentro da água,
fria como a derrota, ou em guerra de amor
vencendo, atira contra meu peito a dor funesta,
como um protesto contra o absurdo,
o mesmo amor da paz solitária de nossos corpos,
insígnia dos andantes passos de sombra.

em revolta, o nada do agora. à ribalta, o amor que mora
longe das reais carências centenárias de minh’alma.
o mesmo amor que desceu com a correnteza,
dobrando-se nas invenções da culpa.

em pormenores de nós: o amor que trama,
impreciso como a hipérbole perfeita,
justo como o começo dos sonhos.

o amor.

como se à meia-noite desejássemos postular
os vis propósitos das negações
ou os fantasmas de mármore do tempo,
a nos deslocar em paralelas difusas
na beira da manta marítima das prisões.

aos fins, o que nos conta a vida tempera a peste:
corremos para a entrada em douta espera.
o amor, como o mar, desobedece os poentes.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Sea-384541491

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Escabiosa

*
Por Germano Xavier


acesa em meu peito
tua mágica existência,
minha doce preocupação.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Shifting-Realities-2-The-Multiverse-Intertwined-549983963

sábado, 25 de julho de 2015

A noite é uma mordida

*
Por Germano Xavier


Mais uma noite cai como um fardo. Diário, rústico e sombrio. Um fardo que, de tão extenso, pesado e lento, é ele que me carrega, e não o contrário. Solombra. Com exceção dos últimos meses, eu sempre gostei das noites. Trocaria todos os dias por elas, sem pestanejar. Dentre os seus tantos atrativos, um dos que mais gosto é a privacidade que ela nos traz. Quando o sol vai embora, finalmente todos vão para suas casas e podemos, por um tempo, tocar a liberdade. Finalmente silêncio, finalmente sombra, finalmente paz e solidão. O dia nos mistura. A noite nos individualiza (estar só é uma dádiva que só quem já desejou muito e não teve, pode compreender e valorizar). A noite é um refúgio, uma caverna de possibilidades onde, finalmente, podemos voltar à essência do que somos (viemos da caverna?). A noite tem a prerrogativa de ser um céu ou um inferno para quem precisa dela. Para mim, ela sempre foi uma companheira de fugas. Fugir do dia, pelo sono ou pelo esquecimento (às vezes pelo choro, estocado nas horas e escondido da luz do dia para, finalmente, libertar-se entre as inúmeras paredes da noite), é algo que só se consegue com a cumplicidade da dama de estrelas. A noite (ou é proximidade de nós mesmos?) traz recordações que, para o bem do nosso presente e do futuro, deveriam continuar enterradas (talvez seja isso, nos últimos meses...). Ela não poupa o cérebro, não poupa o coração, não poupa as divergências (remoemos o moinho de vento da vida inteira). A Dona Noite não poupa ninguém. Nem mesmo os idiotas. A noite é revelação em carne e osso e, principalmente, em sonhos. A noite é uma mordida. 


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/A-small-gallery-at-night-548679421

Feridas feridas

*
Por Germano Xavier


na vastidão do que vivemos
(os dias correm sem nos consultar),
há algo que não nos deixa ser pó:
um rumor contínuo dentro de nós
(só o amor desafia a morte da alma).

os pés caminham para o incerto,
o coração para o único destino que conhece,
o amor é a graça de ser simples e
o privilégio das lágrimas não é dos fracos.

o amor não passa ileso
(passamos amor nas feridas
e ferimos o amor com mágoas).

olhamos além e o medo não foge.
resistimos (vamos comemorar as nossas resistências?)
e cambaleamos em sonhos.
os olhos cansados não nos deixam ver
a flor no asfalto, ao dobrar a esquina
o texto é o mesmo na boca do morto
que nos alarga a esperança
("o mais sórdido dos sentimentos?").

vagueamos em vertigens sãs.
a alma pedindo pão,
os olhos pedindo céu,
os ombros pedindo chão
(pelo correio: nuvens de papel).
desabamento de chuva sem fim:
o amor pedindo perdão.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Feet-548799621

quarta-feira, 15 de julho de 2015

As pequenas vastidões de um Diário Bordô

*
Por Germano Xavier


Há tempos acompanho a escrita da “paulistana sem sotaque e paraibana de coração” Letícia Palmeira. Desde 2009, ano de lançamento de seu primeiro livro, Palmeira vem se mantendo num ritmo bastante acentuado com relação à publicações em papel, o que já a faz contar hoje com 4 livros impressos, sendo 3 livros de crônicas - Artesã de Ilusórios (EDUFPB/2009), Sinfônica Adulterada (MULTIFOCO/2011) e Diário Bordô e outras pequenas vastidões (MULTIFOCO/2013) - e 1 romance, intitulado de Sol e Névoa (PENALUX/2015). 

Diário Bordô e outras pequenas vastidões, seu terceiro livro em ordem de publicação, é, para mim, a obra-prima da escritora Letícia Palmeira dentre todas as suas produções até o prezado momento. Como a reinventar ou simplesmente como a pintar com novas tonalidades de cores o gênero crônica, com pinceladas de uma ironia que beira o desconcertante, a autora conseguiu imprimir uma voz una desde a primeira até a última página, firme e magnética, o que não aconteceu de forma plena em suas duas primeiras coletâneas de crônicas aqui supracitadas, estas mais desconexas e afetadas.

A crônica de Diário Bordô e outras pequenas vastidões, como lugar para a interação tempo/narrativa/espaço, transporta o leitor para dentro de um ambiente extremamente caloroso, ora enfeitado com a ficção que transcende o verbo ora abotoado numa trama que faz transparecer a verdade das expressões cotidianas e das situações onde o convívio é a ordem máxima das horas. Enxergamos, pois, tanto a escritora que fabrica uma realidade fotografável e lenta quanto a realidade que caminha sem freios pelos olhos cansados dos transeuntes. A fotografia mental é a literatura de Palmeira. A fotografia que desafia o simplório, mesmo não exibindo demasiados recursos. 

Há uma exposição autoral, de uma vida autoral, de uma vida comum, de seus caminhos e de seus atalhos, uma exposição que nem sempre condiz com a verdade, mas que também é característica da crônica. Marca própria de quem publica em blog - que é o caso de Palmeira -, espécie de gaveta virtual que quase sempre nos invoca ao uso de tal linguajar. O sentido do livro é o da liberdade, o do gosto pela descoberta do macro no micro, da beleza na quase ingênua rebeldia, do dizer puro entoado com as nódoas dos tempos de prontidão vital presentes em cada uma de nossas humanidades.

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 Imagens: * http://www.deviantart.com/art/Diary-75126194
** http://baixar-livro-gratis.com/?p=174854

terça-feira, 14 de julho de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte VI)

*

Querido Viana,

Saudades são muitas, destas nossas conversas. Parece que se passou uma eternidade desde o nosso último encontro (sim, para mim, são encontros, e eu quase sinto o cheiro do café que tomamos quando te escrevo e quando te leio). E falando do café, que aqui em Portugal é um ritual imprescindível, deixa-me sobrevoar alguns episódios engraçados. 

As pessoas encontram-se para tomar um café como pretexto para cimentar uma amizade recente, cometer uma inconfidência, fazer negócios, discutir um projeto, desenhar uma ideia ou partilhar um momento de abstração, falar de política ou literatura, conhecer talvez um futuro amor sem o saber. Café é tudo. Mesmo quem não toma café diz: “Quando é que vamos tomar um café?”. E depois bebe uma água, uma imperial (chopp) ou coisa nenhuma. O que conta é o simbolismo. Há tempos, quando estudava espanhol no Cervantes, a professora propôs-nos um artigo muito engraçado de um jornalista espanhol. Precisamente sobre o café. O homem dizia que só existiam dois países no mundo onde o café era bom: Portugal e Itália! Depois continuava humilhando impiedosamente o café americano, o mexicano e por aí afora… e ia mais longe, afirmando: “em Portugal, em qualquer aldeia remota do Alentejo, de Trás-os-Montes, seja onde for, onde há mais cabras que pessoas, se pode beber um expresso cremoso e perfumado. Noutros sítios, grandes metrópoles até, o que se bebe é água suja, sumo de terra”, isto dito por ele, que eu nem entro nessas polémicas, só me divirto… Um colega meu, praticante de desportos radicais, dizia que após seis meses na Austrália, ao reencontrar os primeiros amigos em Lisboa, só lhe perguntavam: “Como é o café, lá?”. Ele achava a preocupação absurda, mas isto tem a ver claramente com a alma portuguesa; que fazer? ou, como se diz na gíria suburbana angolana: “Vamos fazer mais como, então?”

Agora deixa-me fazer uma viragem de 360º graus para te responder sobre Maria Bonita e o Lampião, que nós conhecemos muito bem em Angola, sim, na minissérie dos anos 80. E é bom lembrar Nelson Xavier, actor arrepiante, que tive o prazer de rever agora há dias num filme brasileiro de que te falarei um dia destes detalhadamente. Esse universo do cangaço chegou até nós, lembro-me também do Zeca Diabo, cangaceiro famoso da ficção interpretado pelo incrível e insubstituível Lima Duarte, que tinha uma fé e uma religiosidade intrínseca e deliciosa, a par da sua insólita profissão.

Talvez essa familiaridade com a morte tenha a ver com a adversidade do clima, das condições de vida, a morte é roçada de perto tantas vezes que parece ser sentida como uma eventualidade muito próxima. Não quero fazer filosofia barata sobre tão sério assunto, mas é o que me ocorre…

Mas antes que eu me perca de vez, porque me conheço e tu me conheces, aqui vai a explicação do “sempre a aviar”: na verdade, essa expressão significa qualquer coisa que se faz sem interrupção, no contexto anterior (o homem que dizia que quando era novo era “sempre a aviar”) trata-se de um homem que teve uma infinidade de conquistas, umas atrás das outras (diz ele!); no universo masculino isso parece ser uma mais-valia importante…enfim, coisas de rapazes…e coisas de rapazes são também essas cumplicidades que juntam homens, como tu e o teu pai, conversando numa garagem em torno de motos e de carros. Essa cena é quase um clássico do cinema, e da vida real, claro. Vem-me à memória “O Gotejar da Luz”, do português Fernando Vendrell, em que o rapazinho se aconselha com o amigo mais velho sobre mulheres, sobre o amor, enquanto fumam um cigarro, no meio de uma oficina. Talvez seja comparável às conversas que as mulheres/meninas têm usualmente nas casas de banho dos restaurantes enquanto retocam a maquilhagem. Não quero traçar um quadro fútil nem estabelecer limites de género para nós (homens e mulheres), mas embora não sejamos iguais, temos rituais comparáveis, claro. 

Mas o fascínio por motos é uma coisa que eu já observei e sempre me intrigou: uma amiga que era gerente de um stand de motos disse-me um dia que os clientes de motos e de carros têm um perfil completamente diferente. Quem compra motos fá-lo impulsivamente, por paixão. Disso eu entendo, mesmo que não de motos. E também de vento na cara, sensação que eu não dispenso.

E deixaste-me surpresa com os teus passos sem sentido, muito mecânicos…e a vontade do teu coração. Eu queria perceber, sem invadir. Quase que entendo, parece-me um questionamento que temos de vez em quando na vida. A eterna dicotomia entre a razão, o que esperam de mim, e o que eu quero fazer no momento. Será isso? Em todo o caso tu pareces-me alguém com um equilíbrio invejável, que consegue ser racional sem deixar de ter empatia com as pessoas e de demonstrar emoções. Acertei?

Mas não te quero fazer esperar mais para te falar sobre o encontro de literaturas africanas da lusofonia. Foi nos jardins da Gulbenkian, uma Fundação com um espaço exterior muito bem aproveitado; ali estávamos numa tenda decorada para o evento e tudo decorreu num ambiente informal e caloroso. Os palestrantes, um moçambicano, uma cabo-verdiana e um angolano, todos escritores premiados e com um percurso de vida denso, gente com histórias dentro. Ungulani, Vera Duarte e José Luís Mendonça. A moderadora era uma professora portuguesa de literatura. Foi um encontro breve mas empolgante em que fiquei sobretudo fascinada pela comunicação e pela postura rigorosa mas descontraída de Vera Duarte, juíza desembargadora e ex-ministra, com um percurso na escrita e fora dela digno de nota. Neste colóquio falou-se do percurso das nossas literaturas durante os últimos 40 anos, da influência de autores brasileiros e portugueses, da interdependência, das nossas vivências e histórias, do estado actual das Letras nos nossos países. Fiquei com uma enorme curiosidade pela escrita de Vera e Ungulani, JL Mendonça já conheço e gosto bastante, sobretudo do seu primeiro romance recentemente publicado, “O Reino das Casuarinas”.

Li de uma assentada um romance de Vera e um livro de crónicas e reencontrei-a casualmente dias depois noutro lugar em Lisboa. Acolheu-me com uma enorme simpatia e alegria, estava de malas feitas para regressar a Cabo Verde mas ainda falámos alguns minutos e confirmei a impressão que os seus livros me deixaram: mulher de fibra, de um imenso coração e uma disponibilidade e clarividência que é raro encontrar. Talento, já nem falo, um dia vais lê-la também, o romance é “A Candidata”, e talvez o possas encontrar no Brasil, pois ela tem uma relação fortíssima com as Letras do Brasil e alguns académicos brasileiros. Gostava que o lesses para comentarmos, aliás penso escrever algo sobre o assunto, não é o tipo de obra que se encontre ao virar da esquina.

Querido amigo, fico por aqui mesmo, muito mais haveria para dizer, há sempre, mas a casa está em pinturas e eu tenho as costas todas moídas de esvaziar armários, limpar, arrumar de novo e fazer pausas para escrever, ou vice-versa.

Um beijo cheio de calor, com gosto de Grécia e Portugal, com tempero de Angola, com sabor a futuro e a esperança.

Sempre ansiosa por receber o teu abraço em forma de letra.

Clara
Lisboa, 09 de Julho de 2015


 *


Clara,

Tarde de sol ameno por aqui. Como vai Portugal? Como vão os portugueses? Como vai você, minha querida? E como a desafiar-me, ligo o áudio do notebook que agora uso para escrever esta missiva a você neste exato instante e no batuque psicodélico de um Radiohead lanço minhas palavras por todo o teclado. 

A vida, como diria o “poetinha” Vinicius de Moraes, é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros em toda a sua extensão... pois, querida minha, cá estamos, encontramo-nos, para seguirmos a trilha da beleza que nos acerca e que nos aflora ainda mais ao passar do tempo que nos devora. Também eu fico a esperar você com muita ansiedade desde o momento em que finalizo cada carta-resposta que daqui segue em sua direção, Clara. É de nossa natureza a curiosidade sem limites, não?

Sinto o aroma da conversa. Deixo-me ao deleite. Café é artigo de história bem grande cá em terras tupiniquins, Clara. Brasil das milhões de toneladas de grãos de café, exportadas para todo o mundo. Dizem cá que produzimos o melhor de todos, mas que não chegamos a tomá-lo, a sorvê-lo, a senti-lo em aromas de cotidiano, de povo mesmo. As mais reluzentes safras vão direto para o exterior e ficamos nós com os grãos de menor qualidade. Ironia, não? Assim também acontece com nossas frutas e tantas outras coisas mais. 

Café nosso que foi até piso-tema para tramagens políticas importantes na história... você por acaso já ouviu falar na questão da “política do café-com-leite”, Clara? Uma espécie de acordo entre políticos de São Paulo (produtor de café) e de Minas Gerais (produtor de leite), para que a ordem de sucessão sempre acontecesse tendo como base o revesamento de líderes naturais destes estados. Um complô, na verdade, dos tempos da chamada República Velha. 

Café das manhãs, café das noites, café das tardes, este último sagrado lá em casa de meus pais, na Bahia chapadeira. Toda santa tarde, três ou quatro horas do tempo vespertino, lá estão meus pais a tomar suas xícaras de café acompanhadas de algum deguste leve. Café que nunca me foi a predileta das bebidas, mas que aprendi a apreciar em horas singulares da vida, como que a colocá-lo num canto especial de mim. Café que nos aproxima, café que um dia, quiçá, tomaremos juntos numa praça aberta ao céu das eternidades memoriais.

Incrível é mesmo saber do poder que os meios de comunicação possuem já há anos e sempre, ver como chegam ao grande percentual populacional, e facilmente, as produções televisivas (principalmente) em solos europeus e africanos. Agora tudo interconectado, mundo global das redes de tv a cabo, dos fios ópticos, das ondas eletromagnéticas mil, da internet! 

Confesso a você minha surpresa, Clara, em suspeitar que temas bem próprios das gentes de cá a você parecem tão próximos em verdade. E é bem por aí mesmo as significações cangaço-sertanejas. Decerto que a história por detrás de toda esta ambientação factual vai bem além de nossas imaginações, sendo necessário de nossa parte grande e responsável aparato de leituras. O cangaço e toda a sua aura é um caldo apaixonante de mistérios, lendas e narrações. 

No cangaço, vida e morte que se conflagravam. O homem no meio do torvelinho. Personagens contraditórios, Lampião e Maria Bonita estão escritos para sempre no imaginário popular do Brasil, principalmente para as pessoas que habitam o nordeste brasileiro. Eles são, só para citar um exemplo, personagens vivíssimos dentro do que aqui conhecemos como Literatura de Cordel. Aqui mesmo em Caruaru, em terras de minhas atuais pegadas, em sua famosa feira já cantada e decantada pelo Rei do Baião, é comum encontrarmos folhetos de cordel que malinam com esta temática cangaceira e, por conseguinte, com seus principais condutores. Salve, salve, Maria Bonita! Salve, salve, Lampião – nosso Robin Hood, diriam alguns.

Pois este tão bonito explicar-se acerca da expressão “sempre a aviar” fez-me recordar agora uma de nossas atuais leitoras, também ansiosa pelo resumo. Ah, e a paixão pela vida, Clara! A paixão pela vida entrando por nossas veias! Como não se permitir chegar ao paraíso através da paixão, mesmo com a possibilidade das quedas?! Do vento sobre as rodas das motocicletas, estanco a parola nessa nossa inconstância de ser-no-mundo: amantes que somos, amadores que somos, até o dia final. 

Você me acerta em cheio, Clara. Mas há impérios que me movimentam em cujo silêncio austero prefiro resguardá-los. São coisas nossas, que nos animam e que nos entristecem, como as distâncias, como as impossibilidades momentâneas, como os entraves múltiplos do dia a dia, mas que invariavelmente nos fazem rumar ao desconhecido, para as frentes de batalha. 

O amor, Clara, se é que isto lhe servirá de dica, o amor é o que conturba as minhas vistas dos agoras. Mas o amor possui tantas facetas, não é mesmo, querida? O amor é tão grande, mas tão grande e tão incontestável em suas multidireções, que por vezes não cabe no peito e vaza e rompe as nossas manhãs de paz, fazendo-me brincar de esconde-esconde ou pega-pega comigo mesmo. O amor, enfim, esta una espécie de Deus! Deixemos para lá, por agora, já que estou mais sereno. A paz abraçou-me novamente, mas como tudo na vida, pode não durar tanto e regressar. 

O que é o Amor, Clara?

Ontem, dia-rock, foi dia de renascer em nova idade. Cá estou, vivo. 

Um beijoceano e um carinho neste frio dia. Até mais ver!

Caruaru-PE, Pernambuco de Gilberto Freyre, 14 de julho de 2015.



__________________

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

As árvores amorosas (Parte XXVIII)

*
Por Germano Xavier

poema para a mulher das órbitas dançarinas


vinho para um baile noturno
janelas escancaram o poente
a lua gira no ramo das ressacas
inundando o medo e a privação

uns estão no hospício
outros contam ouros na mão
nós somos os que se gabam por último
por amor caímos vivos na estação

a música altera o rito
as mãos embrulham os fardos
em órbita escrevemos o vício

e mesmo que o sol boceje
ou que a rua perca a contramão 
contorce o verbo este fervor em sugestão


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/watercolor-trees-2-183540892

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 15/05/2015
Lucille

Lucille

pour B.B.King, in memoriam

le son c’est un passage de la langue sur le serpent
(je lèche ses écailles), douce machine
pour passer le temps, le bleu triste des conflagrations :

des tons.

que de la pureté noire, un contenu esthétique
lorsqu’il jouait les sinueux rêves de l’aurore.
Le roi de la bouche : suaire vivant d’un dieu musical.
Le son serait-il comme une tache sur un vêtement sidéral ?
une avant-première des bals pour les esprits en feu ?
en partant, tout un éther poétique : Lucille manque d’air.


* Imagem:  http://popculthq.com/2015/05/15/blues-legend-b-b-king-passes-away-at-age-89-rip/

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Joseph Mitchell, Joe Gould e o elogio à escuta

*
Por Germano Xavier


“A melhor conversa é sem arte, sem cálculo.”
(Joseph Mitchell)


Joseph Mitchell foi um dos grandes jornalistas do século XX - há quem diga que foi o maior jornalista do século passado e outros que afirmam veementemente que ele foi o maior jornalista de todos os tempos. Eu não saberia precisar se tal afirmação é certeira, mas Mitchell foi, sim, um jornalista estupendo e realmente raro. Tinha faro, mas fazia questão de farejar tudo lentamente. Um homem, um artista das palavras, a quem devemos todo o nosso respeito.

Decerto, o legendário integrante da redação da New Yorker não se adaptava facilmente ao trabalho, era o trabalho que havia de se adaptar a ele. Processava os fatos antes de escrevê-los, coisa rara no meio periodístico dos dias atuais. Não foi, jamais, um jornalista comum. Sua maior característica era, talvez, a capacidade de escutar o outro e o mundo, como bem destacou João Moreira Salles em posfácio escrito para a obra O SEGREDO DE JOE GOULD, obra máxima de Mitchell.

Gould, como escreveu o consagrado jornalista da Carolina do Norte, nascido em 1908 e falecido em 1996, foi um “homenzinho alegre e macilento, conhecido em todas as lanchonetes, tabernas e botecos imundos do Greenwich Village há um quarto de século” e que às vezes se gabava por ter sido “o último dos boêmios”. Um homem com alma de menino e alado, um artista da loucura e da lucidez, a quem devemos, também, todo o nosso respeito.

Além de piolhento, ranzinza, de ingerir litros e mais litros de Ketchup sempre que podia, de saber falar a língua das gaivotas e de ter sido aquele que escreveria a obra mais fantástica e abrangente do universo, por ele intitulada de UMA HISTÓRIA ORAL DE NOSSA ÉPOCA, Gould foi a razão existencial de Mitchell. Não seria funesto dizer que Mitchell não teria sido Joseph Mitchell se não fosse Joseph Ferdinand Gould e vice-versa. Os dois, em vida, completar-se-iam ad infinitum.

Por décadas, os dois travaram conversas e discussões que, ao fim, resultaram em dois dos mais famosos e relevantes textos de Mitchell e, por conseguinte, do New Journalism norte-americano: os perfis “O professor Gaivota” e “O segredo de Joe Gould”, ambos com base na saga de Gould. De um lado, Gould e todo o seu mistério. Do outro, Mitchell e sua monumental paciência. Os dois, irremediavelmente, terminariam conflagrando-se numa das mais fantásticas histórias reais envolvendo um entrevistador e um entrevistado já existentes.

Escutar o outro – o ser entrevistado, matéria de suas palavras -, para Mitchell, significava uma questão de sobrevivência, de ética e, acima de tudo, de amor. Quando imiscuído em um novo projeto, jamais pretendia encurtar caminhos. Era um apaixonado pela demora, pelo critério das pausas, pelos sons que não se ouvem facilmente, pelas falas que atravessam horas a fio, pelos ritos do ir e vir sem ter de necessariamente se chegar a algum lugar. Não fosse o amor de Mitchell pelo fazer jornalístico natural e puro, Gould fatalmente viveria numa bolha de memória comum com data marcada para se desfazer no ar. Mitchell, para Gould, foi o arrebol. Gould, para Mitchell, o prato da eternidade.


*  Imagem: http://edfayette.com/2014/03/

Nada muito sobre filmes (Parte XVIII)

*
Por Germano Xavier


UMA VERDADE INCONVENIENTE

Eu não sei qual foi a sacada politiqueira (houve?) por detrás deste UMA VERDADE INCONVENIENTE (2006), dirigido por Davis Guggenheim e estrelado por Al Gore, ex-vice dos EUA, mas que o documentário faz com que abramos mais os nossos olhos para uma questão muito real, isto ele faz. Gore apresenta vários dados sobre questões ligadas ao Aquecimento Global e às altas emissões de gás carbônico pelo mundo, deixando um alerta para todos nós, moradores do planeta Terra. Pelo que entendi, Gore é um antigo militante desta problemática e o documentário nada mais é que um modelo das inúmeras palestras que vem realizando ao longo dos anos mundo afora. Vale uma espiadela, sim. Recomendo a todos os mortais!


ATIVIDADE PARANORMAL: MARCADOS PELO MAL

De zero a dez? Zero para este ATIVIDADE PARANORMAL: MARCADOS PELO MAL (2013), dirigido por Christopher Landon. Filmezinho horrendo de tão ruim. Terror de baixíssimo calibre. Nada a ver com os primeiros da série.


O SELVAGEM DA MOTOCICLETA

O SELVAGEM DA MOTOCICLETA (1983), do diretor Francis Ford Coppola, conta a história de Rusty James, líder de uma gangue numa pequena cidade industrial norte-americana em vias da decadência. Rusty vive à sombra de seu irmão mais velho, conhecido nas redondezas por "O Motoqueiro" e, também, muito temido. Depois que seu irmão morre, Rusty se vê num conflito interior profundo. O filme, apesar de já ter conquistado seus ares de cult, é muito inorgânico, com falhas visíveis e, por isso, não encanta, nem mesmo aos amantes do motociclismo - como eu. A película é a continuação de VIDAS SEM RUMO (1983). Sigamos, bucaneiros!


ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ

O que dizer de um filme como este? Não ouso dizer nada - já dizendo -, seria muita... sei lá. Irmãos Coen em deslumbre! ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (2007) é uma aposta certeira. Vá sem dó! Lembrou-me Pulp Fiction, Blue Velvet e Taxi Driver. Do mesmo naipe. Javier Bardem em estupenda atuação. Não dá para piscar os olhos. Recomendo a todos os mortais!


DIVERTIDA MENTE

Está querendo ir ao cinema nos próximos dias? Ótimo! Esqueça todos os outros filmes em cartaz. Escolha este: DIVERTIDA MENTE (2015), dirigido por Pete Docter. Muito bacana, muito bacana mesmo. Inteligente, emocionante, filme que cumpre com sobras o seu papel. O colorido engana, não é um filme para criancinhas. Uma viagem pela mente humana com sacadas incríveis! Alegria e tristeza numa comunhão de arrepiar os ditos e reditos da psicologia - olha eu me metendo onde não devo! Vá de alma aberta e aproveite. Recomendo a todos os mortais!


JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS

Muito blá-blá-blá por um filminho da agenda comercial absolutamente "normal". Nada de novo traz este JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS (2015), dirigido por Colin Trevorrow. Uma empreiteira lá inventou de criar um dinossauro geneticamente modificado e ele foge de seu receptáculo e ele causa o maior terror num parque temático e ele morre no final. Pronto. Esperava um filmezinho mais-mais. E tem a reviravolta na personagem feminina que não tem nada a ver com nada: da vilã para a anjinha-aventureira num dobrar de mangas. Se eu fosse você, nem perderia seu tempo - o pior que eu sou eu e gosto de andar no lodo. Sigamos, bucaneiros!


ANTES DA CHUVA

A frase que fica: "O tempo nunca morre, o ciclo nunca se fecha". ANTES DA CHUVA (1994), do diretor Milcho Manchevski, é um filme macedônio muitíssimo bem construído. Amor, intolerância e guerra se confundem em três contos visuais de extrema beleza e poesia. A dor perpassa todo o filme. Impossível escapar ileso. Os tiros nos atingem. Coração palpita. Trágico e belo. Muita dor mesmo. Envergonhamo-nos, entristecemo-nos. Amores que não acontecem. Palavras que não são ditas, rostos que não reconhecemos, encontros de partida. A imagem que fica: todo o antes da chuva. Recomendo a todos os mortais!


O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D: A LENDA CONTINUA

Mais um exemplo de saturação. Fraquíssimo é o filme O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D: A LENDA CONTINUA (2013), dirigido por John Luessenhop. Nostalgia: há saudade dos primeiros da série. O bom é que podemos revê-los a qualquer momento. Eu e meus gostos "duvidosos". Um salve aos velhos Leatherfaces!


O PESCADOR DE ILUSÕES

O PESCADOR DE ILUSÕES (1991), filme dirigido por Terry Gilliam, tem seus rompantes poéticos ao narrar uma história de reviravoltas envolvendo um famoso locutor de rádio e um mendigo amalucado. Os dois compartilham de uma relação que prescreve resistência, compaixão e resiliência. O longa-metragem demora muito a pegar, e quando pega, pega no tranco. Uma comédia dramática que a muito custo pode encantar. A personagem de Robin Williams (em grande atuação), por algum motivo, fez-me recordar Joe Gould, descrito pelo famoso jornalista Joseph Mitchell em seu famoso perfil O SEGREDO DE JOE GOULD. Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: http://www.jornaldacidade.net/agenda-leitura/89894/programacao-valida-de-02072015-a-08072015.html

terça-feira, 7 de julho de 2015

Sobre ELES ERAM MUITOS CAVALOS, de Luiz Ruffato

*
Por Germano Xavier

Este texto pretende traçar um pequeno panorama acerca das relações existentes entre o cotexto e o contexto em excertos constituídos por marcas visíveis de oralidade presentes na obra literária ELES ERAM MUITOS CAVALOS, do escritor mineiro Luiz Ruffato – no original, o título do livro aparece grafado em letras minúsculas.


É bastante amplo o panorama atual sobre a percepção histórica do “senso de contexto” em voga a partir e, também, durante o florescimento de diversas esferas do saber humano. É isto o que o estudioso holandês da língua Teun A. van Djik (2012) vai propor aos seus leitores logo na introdução de seu livro intitulado de DISCURSO E CONTEXTO: UMA ABORDAGEM SOCIOCOGNITIVA.

A literatura, como campo de produção e sedimentação de discursos – e aqui, a saber, estamos a falar de contextualizações e cotextualizações -, invade, pois, tal discussão e se promove dentro da atmosfera por vezes caótica das ressignificações hodiernas em vista de tudo e de todos, em demandas diversas de ordens também essencialmente plurais. 

Parte inconteste dos textos que são produzidos em nossos mais recentes dias e que são rotulados como sendo textos de literatura ou, ainda, textos literários não podem nem deviam ser taxados a uma caracterização literária apenas e simplesmente, fator que pode prejudicar o olhar sobre o referido objeto, impossibilitando abordagens mais nítidas e eficazes. 

Textos repletos de intertextos, com apetrechos e inserções multimodais, cujas referências extrapolam o senso comum, são cada vez mais visíveis nas estantes das livrarias e, para muitos pesquisadores, representam um verdadeiro jardim de delícias pela potencialidade de imersão e pelas possibilidades de estudo, que são inesgotáveis. 

A obra ELES ERAM MUITOS CAVALOS é dotada de um constructo narrativo repartido, fragmentado em 70 petardo-retalhos textuais, em tributo à cidade de São Paulo, megalópole por vezes inapreensível que acolhe e também expulsa. Quem o lê, logo percebe que se trata de um livro com estrutura singular, diferenciada, organizada num espaço de e para a fomentação de desordens estilístico-semânticas. 

O livro em questão, por natureza dinâmico e múltiplo, faz do leitor mais um personagem da possível trama, como se a inscrevê-lo automaticamente num retalho extra: o de número 71. Para a sua composição, o autor se vale de registros literários e não-literários, por assim dizer, sendo possível entrar em contato com textos ao melhor estilo publicitário, cinematográfico, musical, descritivos, narrativos, poéticos entre outros moldes.

Incontáveis são os teóricos e pesquisadores que se aninham ou se aninharam pelo mundo afora na tentativa de desvendar os segredos do texto plurilinear, ou seja, do modelo textual detentor de múltiplos sentidos, dotado de ramificações, conexões extras e possuidor de competências e aberturas próprias e várias, tanto ao que meramente tange o suporte quanto aos processos de significação utilizados em sua produção.

Na profusão e difusão de novas modalidades e de modos de produção textuais, híbridos e transversais, cada vez mais vivos dentro das sociedades, a escrita de Luiz Ruffato em ELES ERAM MUITOS CAVALOS termina por fazer, também, com que o leitor enverede por uma nova experiência de leitura, pronunciada nas ideias dos multiletramentos e dos intertextos – assim como da polifonia e da polissemia-, visto aqui não apenas no âmbito do hipertexto, mas do texto impresso – será possível? – também.

Como bem aponta Dijk (2012), entender o discurso é antes realizar a compreensão texto/conversação-em-contexto. Com base nesta premissa, vejamos os excertos abaixo, retirados do livro de Ruffato:

“- Num falei?” (p. 17)

“- Dá dinheiro, né?” (p.17)

“E gente inda consegue dormir; meu Deus, a bocona jacaroa, até ronca!, até baba!, comé que?” (p.18)

“indignação ah ah ah” (p.26)

“Estraga o teclado... Esse farelinho aqui ó, trava tudo, uma bosta! E se cai Coca-Cola então, puta!, aí fodeu!” (p.43)

“Falei com a patroa, ela disse, Quê isso, Claudionor!, Claudionor sou eu. Quê isso, Claudionor!” (p.74)

“A gente vinha lá dos lados dos Perus, da casa de um mano nosso, aí a gente veio andando, porque já num tinha mais busão, a gente veio andando e papeando, tá ligado?, aí a gente viu aquela montoeira de caixote empilhado, desacreditamos, aí o Esqueleto falou, vamos derrubar?, aí o Ziquinha falou, vamos nada, vai dar merda (...)” (p.116)

Tomando como ponto de apoio os excertos supracitados do livro de Luiz Ruffato, logo corroboramos da ideia de Djik (2012), que defende que a natureza do contexto é múltipla. O pesquisador em destaque salienta que não há uma maneira eficaz para elucidar e identificar um conjunto cotexto-contextual de único nascedouro. 

As bases da criação de Ruffato são diversas, baseadas em vivência única e momentos particulares de observação. Portanto, um movimento essencialmente de interação social e, ao mesmo tempo, profundamente individual.

Em defesa de questões ligadas ao fator interação social dentro das ambientações de gênero e de escrita, BAZERMAN (2007, p.119) vai dizer:

Todo momento insere e revigora momentos prévios. Isso é verdade também sobre este momento em que eu escrevo e você lê, e a tênue conexão entre eles. Definir um momento é perceber uma estrutura para o antes e o agora e agir sobre essa percepção, compreendendo-a, assim, como um ato social que influencia o futuro. O ato momentâneo implica intencionalidade dentro das construções pessoais de uma situação histórica em evolução. O escritor ou falante apresenta um universo dinâmico para o leitor ou ouvinte reconstruir ativamente dentro do universo dinâmico do receptor.

Por ser um elemento que tanto pode atender às demandas subjetivas de cada indivíduo que se sujeite estar diante de um dado fenômeno de uso da língua quanto a qualquer formação de elaboração linguística de construção sociointeracional de base coletiva, a concepção de contexto aqui envolvida – leia-se, na obra de Ruffato - tende a arrecadar condições de atuação não simplórias. A natureza do contexto, nesse ínterim, pode ser facilmente considerada como mutacional.

Os excertos da obra de Ruffato, escolhidos e supracitados neste ensaio, reafirmam que os fenômenos de uso da língua que relacionam os cotextos aos contextos dentro da relação oralidade-escrita são, como na visão de Dijk (2012), realçados no que dizem respeito aos seguintes modelos de entendimento: Os contextos que podem/poderiam ser identificados para estudo mais detalhado são construtos subjetivos dos participantes - neste caso, produzidos pela participação ativa do autor frente ao mundo que o cerca. 

Os contextos, vistos assim, sob o prisma da relação autor-leitor, podem ser entendidos como sendo experiências únicas. Os contextos, pelo caráter experimental que abarcam, são também modelos mentais de desenvolvimento progressivo. 

Sobre o momento individualmente percebido que ajuda na construção de todos os principais elementos da relação cotexto-contexto, BAZERMAN (2007, p. 128) afirma:

Para cada indivíduo, a vida desdobra-se em uma série idiossincrática de momentos dos quais se participa da melhor forma possível e de onde se parte com percepções sobre o mundo, eventos e consequências das ações. A partir da sequência de momentos, desenvolvem-se hábitos, práticas e concepções que dão forma a comportamentos futuros e constrói-se a um senso do self, uma autobiografia e uma visão do lifeworld.

Lifeworld, para constar, é um conceito de Husserl que significa o mundo “como vivido” antes de alguma representação ou análise reflexiva. 

Os contextos em diálogos com seus enunciados escritos (cotextos) com marcas de oralidade na obra ELES ERAM MUITOS CAVALOS, de Luiz Ruffato, devem ser percebidos como um tipo específico de modelo da experiência do autor. São também, por conseguinte, esquemáticos, pelo fato de obedecerem a um regimento elaborativo, de nuances múltiplas, variadas e variantes, controlam as suas próprias produções, suas respectivas compreensões do discurso e ainda apresentam bases sociais de conflito. 

Os contextos possíveis para estudo a partir da obra acima citada são dinâmicos, amplamente planejados, o que contorna qualquer indício de obviedade na construção discursiva da narrativa, fator que a coloca em patamar avançado em termos de caracterização literária. O presente ensaio, dessa forma, lança um tanto de luz para futuros e prováveis estudos sobre as problemáticas aqui debatidas.



REFERÊNCIAS

BAZERMAN, C. Escrita, Gênero e Interação Social. São Paulo: Cortez, 2007.

CAVALCANTE, M.M. Os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2014.

DIJK, Teun A. van. Discurso e Contexto: uma abordagem sociocognitiva. São Paulo: Contexto, 2012

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Essas tardes nenhumas

*
Por Germano Xavier


na implacável badalada das horas
(agredindo o universo com agouros de morte),
ouve-se um tímido ressoar de rebeldia: o corpo
(ora desperto, ora entorpecido por repetição)
regurgita o cansaço e - vomitando regras -
ensaia uma humilde resistência.

em segundos, une-se à alma dizendo não.
as mãos afrouxam os laços, os pés deixam
os sapatos: olhos contam nuvens.

e quase que se consegue chegar a si.

mas as horas gritam derrubando os ombros,
espalhando náusea. então pisamos o chão das coisas mortas.
o relógio bate forte, as horas levam o sangue.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Winter-Creek-544357200

domingo, 5 de julho de 2015

Que não me deixa de deixar

*
Por Germano Xavier


posso ser para você sem explicações
(visto que só se explica o mensurável 
e o amor é um tempo sem medidas),
alhures lhe encontro
nos espaços onde folhas caem
e donde ventos assobiam voltas, 
suavemente, 
sem deixar cair a poesia dos sussurros.

quando entrar, feche a porta.
que um ser entre tantos ais, animal ferido
que se machuca por princípios,
debate-se por costume e sobrevive
por necessidade.

(a selvagem luta nas savanas da existência
pode confundir quem só vê garras
ou quem só vê doçura)

e em seu peito de configuração remota,
terremoto sem escalas e furacão de sete olhos,
a inundação de sonhos no espaço de um beijo.

e na estrada, veloz, alargando os sentidos
aos extremos, um ressoar aqui e em tantos corações.

você, equador de minhas vidas, você que traz
(dos infernos de outrora) as marcas do fogo na alma
(pele mais dura em lenta queima),
de enlouquecer mentes que ainda não.

eu fico a lhe gastar em devoção pura,
num tempo sem relógio e sem previsão de começos,
num tempo sem fim ou num eu te amo.

você me desenha os dias e eu apenas,
aqui, enlevado, embriagado de razão
e bestialmente lúcido de amor.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/The-Shadow-544053665

sábado, 4 de julho de 2015

Memórias do vago

*

Por Germano Xavier

lancei muitos olhares ao nada

um menino sem pernas para sempre
de vistas fixas
de horizontes móveis

longe
nas dobras do caminho
a figura de um paço vazio:
passos de malinconia

o passado esférico a me laminar cegamente
a carne - o medo foi um grande absurdo

em minha casa de ser a légua era um arrepio

quando a chuva descia pelas valas da rua
eu morava nos prenúncios: a esperança
dos quandos invadia meus ademais


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Red-Hands-and-Yellow-Sun-544056180

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A salvação

*
Por Germano Xavier

continuamos morrendo
peitos cravejados de breu
o fundo do poço nas marcas do texto
nas cópias descaradas dos papéis
nos impostos sempre pagos em dia

continuamos morrendo
após o uso dos corações
- daquilo que restou dos corações

continuamos
após o medo rotulador
após os 10% de desconto
após a cota única esgotar
a conta nunca fechada
- a multa por viver

morrendo
de tributos em prazos esgotados ou em qualquer valor
na cobrança no código na data na dívida na dúvida
continuamos

à mercê da lei insólita
à espera do último ônibus da cidade
(o dia morto da cidade como um feto
em seu colo) - quem sabe Deus!

CONTINUAMOS MORRENDO
amiga amor amante irmã inimiga: a vida
meus olhos eivados de dor
a minha falta de administração
a minha falha distração
o nosso vagar

MORRENDO, CONTINUAMOS
como hienas nutridas sem casos de doping 
com risos impróprios diante das agruras do ser
com dentes amarelados pelo açúcar salgado
com a mente atolada por países de sangue

continuamos morrendo
aos poucos por nada por tudo
por uma estação sacra inexistente
por uma salvação diária escondida
no cotidiano visceral das imprestâncias


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Salvation-543180936

domingo, 28 de junho de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte V)

*

Viana, meu amigo, 

Aqui estou eu de volta, mandando as melhores horas de sábado para ti!

O calor de Lisboa é hoje sufocante, embora uma leve brisa se faça sentir de vez em quando. Sob um sol de 33º logo pela manhã já hoje andei muitos quilómetros, por lazer e por obrigação. A humidade é pouca, a gente não transpira, e entrar numa loja de rua pode parecer um oásis. Na azáfama das compras semanais cruzei-me hoje com um senhor idoso, algo libidinoso, conhecido de há muitos anos aqui neste satélite de Lisboa. Eu estava entre as três senhoras encostadas ao balcão de um café, sorvendo uma água geladinha, quando ele exclamou, com os olhos brilhando de volúpia: se eu fosse mais novo, não saberia qual das três escolher. E depois, com um já mais pesaroso e nostálgico, rematou: Quando eu era novo era sempre “a aviar!”. (lembrei-me de um magnífico personagem de um filme brasileiro, que dizia: o problema não é ser velho, o problema é ter sido novo). Olhámos as três com desconforto para o senhor mas depois não pudemos evitar uma gargalhada. A sexualidade na terceira idade já é olhada com desconfiança, mas a sua expressão verbal desta forma tão crua e rude consegue parecer assustadora. Homens e mulheres são realmente bichos diferentes, pois uma mulher de “certa idade” jamais se vangloriaria de ter tido incontáveis parceiros, conquistas, ou o que se lhe queira chamar, durante a juventude, sem parecer promíscua ou leviana. Pelo menos por estes lados, neste recanto à beira-mar plantado! Imagino que aí não seja muito diferente. 

Agora que o calor amainou, eu estou aqui a reler com vagar a tua carta, e de cada vez que a leio aí encontro histórias novas. O que escreveste não mudou, só o meu olhar te altera o texto. Entendo bem essa tua paixão pela Olivetti Lettera, tanto que entendo que até a chamo já também pelo nome. Ela não foi para ti uma simples máquina de escrever, mas uma companheira da qual conheces cada milímetro de pele, cada tecla e cada sílaba, e a quem continuas a dedicar um amor constante e protetor. Eu acho muito curiosa essa fixação que as pessoas têm por certos objetos, já vi muita gente cuidar do carro ou da moto melhor do que da mulher ou marido, já vi um homem adulto gritar em fúria porque descobriu um risco no carro da espessura de um cabelo de bebé e não mais longo do que um grão de arroz. Outros ainda têm esse amor zeloso por computadores – conheço quem não tenha sequer um copo de água ou café a menos de 50cm de um, por medo do líquido se derramar. Eu nunca tive uma proximidade tão grande com objetos, embora perceba. Talvez apenas por alguns livros, por lápis-de-cor e papel de cartas, quando miúda. Ainda hoje gosto de pôr o livro que estou a ler debaixo da almofada e encontrá-lo ao acordar. Concordo plenamente contigo sobre o encanto de certas coisas antigas, tecnologia analógica que na altura não chamávamos assim porque era a única que tínhamos. Mas também acho que isso se deve ao distanciamento no tempo, faz-nos ver tudo de uma maneira romanceada e idealizar certos hábitos, objetos e lugares que se calhar eram banais, mas o tempo tem esse efeito sobre a nossa memória; e, de certa forma, ainda bem, seria muito aborrecido se as recordações viessem carregadas com uma nota de neutralidade. 

Também te digo que para mim a música é essa libertação que descreves. Ela está presente em todos os momentos da vida, contextos alegres, trágicos, formais ou informais. Na vida religiosa ou na vida pagã. Eu canto no banho, canto na minha cabeça, quando espero pela consulta do dentista (às vezes durante, também!). Eu trauteava músicas, muita bossa nova e também Chopin e Beethoven , enquanto esperava, há 23 anos atrás, pela hora do parto. Acho que isso fez a hora chegar mais depressa, infelizmente depois adormeceram-me e tive de parar de cantar! Eu cantei muito para a minha filha durante a infância até que ela me começou a corrigir a desafinação e aí passei a cantar mais sozinha…mas é sim, sem dúvida, uma libertação, que gera vida e dá cor aos dias. Por vezes escrevo ouvindo música e deixo-me empolgar a pontos de me levantar para dançar. Aí mudo de registo, mas sempre acompanhada pela música. 

Olha, sobre a Elba e as festas populares em Caruaru, fiquei preocupada mas não surpreendida quando me relatas a violência ocasionalmente se infiltra nesses ambientes. Aglomerações de gente propiciam roubos e facilitam o trabalho aos carteiristas. Por aqui tive a experiência recente da noite de Santo António: há um lado bonito e muito típico que é o desfile dos marchantes e toda a atmosfera envolvente com cheiro a sardinha assada, entremeada, bifanas e chouriço assado. Mas é impossível controlar as inevitáveis bebedeiras e as tensões e querelas que se geram já na madrugada, quando as pessoas circulam pelas ruas, muitas já bastante “tocadas”, com garrafas na mão e comportamentos agressivos. Eu não sei o que dizem as estatísticas sobre isso, mas há uma diferença entre os dados dos relatórios oficiais e aquilo que é sentido no dia-a-dia das comunidades. Em todo o caso ainda há dias lanchei com uma amiga italiana, e no meio da conversa apareceu-nos uma moça estrangeira pedindo para guardarmos a sua carteira. Nós acedemos, claro, mas a minha amiga disse que no seu país jamais faria isso. Nunca confiaria num estranho para guardar as suas coisas. E o contrário também pode ser ponderado, um estranho que pede para guardarmos a sua mala pode levantar suspeitas nestes tempos paranoicos em que não conseguimos confiar em ninguém com espontaneidade.

E sobre passos respondo-te no mesmo tom: “há passos guardados” e os teus nos meus serão com certeza desses de que falas com tanta beleza. 

Agradeço também por teres partilhado comigo o episódio dessa gentil senhora do supermercado: a idade dá-nos essa liberdade e esse desprendimento das coisas materiais e dos convencionalismos. Com tantas coisas que se perdem, estou certa de que se ganham também algumas, difícil é perceber como podemos tirar partido dessa condição. Mas algumas pessoas já o intuíram, e essa senhora parece ser uma delas. Eu tenho alguns episódios engraçados com velhinhas, saio sempre a perder, um pouco como o gato Tom na história do Tom & Jerry! Quando me pedem para passar e ficam com o meu lugar, por exemplo, na caixa multibanco! Acredita que é verdade, parece sina! E eu juro que dificilmente consigo reclamar diante de tanta matreirice aprendida com a idade. Só fico com inveja e procurando aprender com essas sábias senhoras. Se não viste o filme Duplex, vê-o, vais perceber do que estou a falar. Há coisas que só se aprendem com o tempo, e ser velho é uma delas.

Para terminar deixa-me partilhar contigo um detalhe que te vai deixar curioso. Amanhã eu vou a um encontro de literaturas africanas lusófonas; como eu gostaria que pudesses lá estar! Vão estar escritores de vários países falando sobre o assunto numa tenda do jardim da Fundação Gulbenkian, com a assistência sentada na relva. Se as minhas costas aguentarem acho que vai ser uma coisa bonita. Depois te conto mais pormenores…

Um beijo, já saudoso, cheirando a sábado, com o domingo a despontar no horizonte e nos mil projetos que tenho para amanhã.

Até breve, Vianinha (ops, «vianinha», a título de curiosidade, é um tipo de pão muito apreciado por estas bandas).

Clara
Lisboa, 20 de junho de 2015


*

Minha Clara amiga,

Aqui está frio, acredite. Faz frio no agreste pernambucano. Frio de fazer o corpo tremer mesmo, sem exagero. É inverno. Muita chuva nos últimos dias, fina, mas constante. E ainda em clima de São João, dos festejos, dos pipocos barulhentos e coloridos no céu, da música tradicional, da algazarra mundana, a vida que segue. Penúltimo dia de festa aqui, hoje, neste dia em escrevo a você. Muitos nomes famosos, entre cantores e bandas nacionais, vieram tocar aqui no Pátio de Eventos de Caruaru. Nomes que estão na moda, que frequentam as telas da televisão, mas que nem sempre possuem relação íntima com o tipo de comemoração que se é para fazer nestes dias aqui no nordeste brasileiro. Os jovens adoram. Os mais velhos viram o pescoço, abandonam o sorriso e vão para suas casas. O certo é que o São João de Caruaru foi mercantilizado de tal forma que só o que parece imperar mesmo é a vontade das empresas patrocinadoras. A tradição, aquela raíz bruta que se via em outros anos, está se perdendo aos poucos. Culpa de quem? Não sei. Vejo poucas pessoas acendendo suas fogueiras na frente de suas casas, as crianças não soltam mais fogos pela rua, as ruas estão escuras, não vejo a animação de antes. É apenas o meu olhar, eu sei, mas é bastante visível a mudança. 

Sobre o que me contas, penso ser deveras interessante o fato. Ainda não posso me considerar um velho, no auge de meus 30 anos, mas tenho certeza que alguma coisa muda na gente com o passar do tempo, física ou mentalmente. Eu entendo o senhorzinho, entendo você, as colocações. Há muito preconceito envolvido. Parece até que não podemos expressar vida e amor quando temos mais idade. Quem inventou isso? Eu simplesmente não aceito essa ideia. Acho a idade na mulher mais uma forma de beleza que a acomete. Vocês são incríveis. Para o homem, nem sei, mas não somos tão encantantes como vocês, donas de toda a beleza humana. Mas, Clara, o que é mesmo “a aviar”?

Ainda sobre essa coisa nostálgica de se falar do amor por objetos antigos, Clara... digo a você que meu pai sempre gostou de carros. Muito cuidadoso, sempre possuiu um bom gosto para escolher seus possantes. Lembro-me de carros emblemáticos que meu pai teve, a maioria da Chevrolet, marca predileta dele, como a citar uma Caravan Diplomata 1987 e um Opala SS bicolor 1978. Na época, eram verdadeiras máquinas! Era muito amor. Mas você sabe, com os anos, fica mais díficil de manter o que é antigo. Peças ficam mais difíceis de encontrar, especialistas somem das oficinas, enfim. Sem falar que os carros antigos, por terem motores maiores, são beberrões comparados aos “carrinhos de plástico” de hoje em dia. Creio que herdei um pouco desta fascinação nutrida por ele. A garagem lá de casa era um local de encontros e conversas. Quase tudo acontecia por lá durante o dia. Sou apaixonado por motos. Amo mesmo. Tive algumas, andei em muitas outras, motos clássicas como a “Viúva Negra” da Yamaha, motos com os incríveis motores V2, enfim... penso ter sempre uma por perto. Já escapei de quedas, caí duas vezes, venci distâncias incríveis em cima delas. Eu gosto da sensação. Motocicletas são perigosas, ariscas. É preciso respeitá-las ao máximo. De resto, é diversão na certa e vento no rosto.

Então, seu amor pela música consegue embalar você até na hora de escrever! Bonito isso. Confesso que já tentei, Clara, escrever ouvindo canções que admiro. Poucas vezes fui feliz. Perco a concentração parcialmente e a coisa toda não flui como deveria. Não consigo, só se for com muita pressão. Na hora de escrever, preciso de um ambiente silencioso. Eu me dou muito bem com o silêncio. Sou amigo do silêncio. Você já deve saber, não gosto muito de. Você me fez lembrar de um colega meu de 3º Ano do Ensino Médio chamado Paulo Thiago, um craque da física, só tirava dez. Eu, coitado, suava para tirar a média nesta disciplina. Certo dia, marcamos de estudar juntos para uma prova. Quando cheguei ao lar dele, adivinha, Bob Marley às alturas!, e ele lá fazendo cálculos mirabolantes, compenetrado. Já eu, ai, ai!

Eu queria me espantar com a situação relatada por você, Clara, nos termos da violência. Infelizmente, não consigo. É tão comum na atualidade a vista de tais situações que já não nos abocanha a estupefação diante de. Aqui, em Pernambuco, mata-se muito. Falo de homicídios mesmo. É uma questão histórica, desde já há muito revisitada pelos livros. O cangaço é apenas uma das demonstrações. Você já ouvir falar em Virgulino Ferreira, o Lampião? E em Maria Bonita? O povo daqui tem fama de “brabo”. Conhece o filme Abril Despedaçado? Se não, tente vê-lo. A película revela uma entre tantas tradições de morte que por aqui se vivenciava. O nordeste brasileiro tem muitas histórias neste âmbito. Lendas, contos, narrativas. Matar e morrer aqui sempre foi um modo de sobrevivência. Há um certo exagero no que lhe digo, mas há verdade também. Em quase todo lugar é assim, não é mesmo? A história está aí para nos contar. Cada tempo com seus modos.

Prometo que vou tentar ver Duplex. Gosto muito de filmes. De todos os tipos e qualidades! (risos) Eu não sou certo do juízo, eu sei. Vejo cada coisa, que meu deus! A curiosidade que é demais da conta! E me conte mais sobre o encontro de literaturas, Clara. Fiquei realmente curioso. Meus pais estiveram aqui comigo por alguns dias. Quase não saímos de casa. Muita chuva, como falei. Deu para matar um pouco da saudade. Meu irmão não pode vir. Saudade dele também. Foram ontem. Estou aqui só. Faz frio. O coração meio perdido. Meio triste, sabe, com algumas coisas. Muitos passos sem sentido. Eu muito mecânico. Poucos eventos me animando a alma. Vontade de fazer logo a vontade do meu coração. Tentar a verdade necessária da vida. Você me entende, Clara?

Nem sei como pude escrever tanto ainda. Hoje não estou no meu melhor dia. Fica bem, minha amiga. Um abraço em Portugal.

Caruaru-PE, 28 de junho de 2015.

__________________

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XIX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 24/04/2015
Lavoura

Semence

il existe un mot qui ouvre les matins
un mot que rend hommage aux morts
un autre qui bénit les vivants

il y a toujours un mot qui est semence
qui va traverser la rue dans la musique
mêlé aux murmures des fils du Cosmos

Il y aura un mot caché dans l’attente
et un autre qui se perdra dans le frai des heures

pour chacun d’entre eux il y aura un homme
et pour chaque homme un corps fictionnel


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Mother-of-the-tribe-542570863

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Memórias Inventadas (Parte IV)

*

Por Luísa Fresta

Mario Benedetti


"Há uma espécie de reflexo automático nisso de falar da morte e, em seguida, olhar o relógio."
Mario Benedetti, excerto de A Trégua


Naquele dia, tu lembraste-me Benedetti e eu lembrei-me de como ele me tinha trazido a uma parte de mim que desconhecia. E disse-te, simplesmente, que ele, Benedetti, era o homem que me tinha trazido de volta à poesia.

De imediato reagiste: "Mas que coisa bonita, Luísa! Já escreveu sobre isso? Escreva!".

Eu levo a sério os desafios dos amigos, as provocações intelectuais. Sempre fui arisca a ordens diretas e nem sempre reajo bem à autoridade imposta pela força, “porque sim”, pela brutalidade, pelos constrangimentos sociais, pelas ramificações das dinastias modernas. Em contrapartida levo a sério os pedidos dos amigos, que me soam como quase-ordem, doces, irrecusáveis, empolgantes. É o caso. O uso do imperativo é aqui tido como o estímulo que me faltava para desencadear o processo de escrita, de reflexão, de busca dentro dos meus arquivos de memória, quantos dos quais recriados.

Mário Benedetti foi o responsável pelo meu regresso ao começo. Eu não gostava de poesia, que tinha abandonado há mais de 30 anos, como leitora e tímida artífice. Nas minhas estantes a poesia tinha um lugar sombrio e apagado, poetas de várias línguas épocas e estilos misturavam-se por ordem alfabética com romancistas e mantinham-me, eles, os poetas, a respeitosa distância. Passava pela prateleira com as pontas dos dedos dançando amedrontadas pelas lombadas dos livros de poesia. Algumas vezes ousei abri-los ao acaso e ler atabalhoadamente um verso. Mas a palavra prendia-se-me na garganta, o sentido colava-se ao papel e eu ficava com as mãos cheios de um vazio inútil difícil de entregar à água corrente. Sempre aquela mancha inglória nos olhos que me impedia de ler e receber a palavra em mim. Eu não estava capaz de acolher essa imensa dádiva e a palavra dos poetas não encontrava eco nos meus olhos, mas apenas um imenso mar de incompreensão e espanto. Uma ausência total de empatia, um assombro, um terror paralisante. Poesia era isso para mim: abismo e fuga, alheamento, arrepio e um gelo na espinha.

Depois veio Benedetti; não sei em que dia terei eu lido isto:

"Hagamos un trato

Compañera
usted sabe
puede contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo

si alguna vez
advierte
que la miro a los ojos
y una veta de amor
reconoce en los míos
no alerte sus fusiles
ni piense qué delirio
a pesar de la veta
o tal vez porque existe
usted puede contar
conmigo

si otras veces
me encuentra
huraño sin motivo
no piense qué flojera
igual puede contar
conmigo

pero hagamos un trato
yo quisiera contar
con usted

es tan lindo
saber que usted existe
uno se siente vivo
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos
aunque sea hasta cinco
no ya para que acuda
presurosa en mi auxilio
sino para saber
a ciencia cierta
que usted sabe que puede
contar conmigo."

E depois li "Ustedes y nosotros" e "Historia de vampiros" e "Cuando éramos niños":

"Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.(…)"

Entre mim e ele firmou-se esse sólido pacto que me trouxe até hoje correndo atrás da palavra poética. O trato é simples: sabemos ambos que podemos contar um com o outro. Ele deixa-se ler, serve-me a sua palavra à sobremesa fria dos jantares formais como ao pequeno-almoço matutino dos verões, ele está sempre perto, ao alcance da minha curiosidade e do meu torpor. E eu perco-lhe o medo, sorvo-lhe a música com alegria, com surpresa, embevecida ou atordoada. Mas não fujo mais da voz que se materializa na pancada certeira dos seus versos. Depois Mario foi além do trato: ele trouxe-me outras palavras, distantes, vizinhas, correndo por águas calmas ou jorrando em tsunamis destruidores. Palavras de amor, de arrebatamento e de incredulidade; palavras simples que atam laços e outras que colam asas ao sono. Palavras duras, amargas, provocantes ou delirantes. Aos poucos fui-lhes perdendo o medo a todos: palavras e poetas. De mansinho fui chegando a Mia Couto, percebendo a melodia que desliza pelas histórias cantadas no papel, a José Luís Mendonça, que convida a uma leitura de olhos pasmados e boca aberta de sede, numa angolanidade que se desprende dos frutos, das mulheres desenhadas e das vivências. E fui ganhando coragem e ousando todos os dias um pouco mais: Verlaine, António Jacinto, Vinícius e Drummond de Andrade, meus velhos companheiros de adolescência, ajudaram-me na caminhada. Fui chegando timidamente a Pessoa, Gabriela Mistral, Alda Lara, David Mourão Ferreira e aterrei, por alturas do último natal, num Coração de Lava, de José Luís Tavares, o autor que me trouxe o magma para dentro de casa, enquanto na ilha do Fogo, em Cabo Verde, sete bocas se incendiavam com o vermelho vivo de um vulcão cansado da mansa quietude e do silêncio áspero dos anos de clausura.

Muitos outros poetas me olham agora através das palavras que inventam e que descrevem uma vida como cada um vê e sente. O movimento aldravianista de Minas Gerais; Mariem Mint Derwich, mauritana e francesa, de palavras substanciais e esvoaçantes, que descreve o universo feminino com coragem e uma poesia transbordante de cor e desejo; Edweine Loureiro, esse coração leve e redondo que serve a palavra como uma fruta fresca, uma manhã de sol ou um pão acabado de fazer, um pouco ao estilo do grande José Martí. Tu, Germano Xavier, parceiro de aventuras mil, que reinventaste a minha adolescência literária, esculpes palavras, sílabas e arritmias, narras o insólito do provável quotidiano, escreves o futuro pelas linhas tortas da imaginação, contas o inenarrável pela fluidez líquida da poesia. E muitos outros pintores de textos me abrem as janelas da sua criação a cada instante que passa.

Mas foi Mario Benedetti, e só ele, quem me fez percorrer o caminho desde o início. Logo eu que não gostava de poesia.


* Imagem: http://esquecaumlivro.com/2014/07/08/290/