segunda-feira, 20 de maio de 2013

Poema sem título


Por Germano Xavier

Já não sei sorrir.
Já não há mais felicidade.
A noite está escura
e os ratos continuam
roendo os livros
de páginas amarelecidas
nas bibliotecas vazias.

Todo o silêncio que atormenta
a defesa desses ambientes
termina sendo um pouco de mim,
que não se acha.

As águas poluídas e negras
deste mundo bêbado
também são águas de mim,
que deságuam longe
desse arrebol menos diverso,
menos número, mais conjunto.

E minhas pegadas
(conjunção de mim, que sou vida),
elas restarão
dignas e espertas
para também serem roídas,
sem culpa,
nestes cemitérios de sombras.

domingo, 19 de maio de 2013

Eco em tributo


Por Germano Xavier

para Guilherme Mandaro,
o santo sem dia no calendário.


na densa hora, batendo a cabeça
como uma ave presa,
por si mesma a idéia desendurece.
sobre o palco (da palavra), pregando a peça
com a dor do estalo detonando esta empresa

(a vida): quem é que, desconsolado, este fio não tece?

sábado, 18 de maio de 2013

Violante


Por Germano Xavier

a pedidos de Wiliana Coelho,
que vê estrelas em buracos negros


Corpo celeste, luz primeva, incêndio autônomo, imagem plasma.

Violante adentrou o comprido veículo e seus passos recordaram paragens míticas da infância. Lembrou-se de quando o pai a levava para passear no parque em tempos de férias, e quando a ela mostrava o bosque no inverno, o rocio nas manhãs da primavera fria do seu lugar. Vestida agora com roupas mais que juvenis, caminhou serena pelo apertado corredor. Lançava um olhar terrivelmente doce sobre a face mais estranha das gentes. Desconhecida ali, desejou um canto morno onde pudesse recobrar-se, amparada em paz, pois que lhe assaltava os ossos uma dor inesperada. A pequena turba de pessoas instalada naquele rol não impedia o caminhar triunfante daquela mulher sinfônica.

Radiação pressionada, núcleo em fusão, a energia do espaço quem sabe o sol.

Foi resvalando em um e outro e seu corpo tão alma apossou-se da visão primaz. Eu pálido me assegurei do seu olhar antes mesmo que pusesse os olhos em batimento ao meu. Corpo coração exagero não é dizer idéia de rompimento de um instante que é o ceder ao tempo já. Naturalmente curvei-me, pus a imprimir em minhas pernas a força necessária para o levantar completo e, saindo em direção inversa, abri espaço suficientemente confortável para que a moça instalasse suas ancas sobre a poltrona de espuma. Estiquei-me em regresso e à posição em que estava retornei. Violante agradeceu e de pronto voltou o rosto para o vidro da janela.

Massa anã branca, reação crítica centáurica. Colapso supernova a origem do negro fundo vago.

Queria tanto sentir o vento você pode me ajudar?, disse com mansa voz. Sim, também gosto do vento, deixe-me ver se consigo. Faz um friozinho gelado agora e isto me faz lembrar de um tempo antigo e bom. Que lindo, lindo céu de estrelas, perfeito firmamento, veja você, olhe, daqui, chegue mais perto, insistiu. Certa vez li num livro que o que vemos no céu é o brilho morto das estrelas. Achei triste e quase me pus a chorar. Não tem muita lógica, porque o que vale está agora diante de nossas retinas. Dizem que a luzinha que chega até nós é uma luz terminada, que já não existe mais. Os cientistas usam de um certo cinismo arrogante para acobertar suas teses. Quem garante que aquilo ali em cima não existe mais?, retrucou. Certas coisas nunca morrem, sempre acreditei nisso. E você, em que acredita?, na vida ou na morte daquela estrela? Fiz rosto de quem olha para si mesmo e não encontrei opinião. Eu não sei, prefiro ficar em cima do muro.

Alfa disco ômega.

Quem sou para saber se pode haver vida após a morte. Desses fatos sempre me resguardei ao máximo, para não me provar de besta. É tão linda, Violante pregada na janela, curvada sobre o trilho do vidro negro em devoção estelar, ela olhava. Quem inventou tudo isso é um ser maravilhoso!, um ser imenso e maravilhoso!, perceba você que até mesmo na escuridão vê-se o verde vivo das árvores!, elas não são sombras a passar, não são estes espectros esquisitos de agora, são vida também, estarão mortas?, existirá alguém que duvide da seiva que corre lenta e pulsátil no interior de seus troncos, mesmo se na maior das trevas estiverem?, as árvores são as estrelas da terra, tenho sede, você não pode me arrumar um pouco d’água? Sem demora, caminhei em direção ao fundo do ônibus. Tinha lá um receptáculo com pequenos copos de água mineral e blocos pesados de gelo.

A nebulosa planetária, pulso de Vênus.

Para no caso de ela sentir sede durante a noite, aproveitei e peguei copos em excesso. Rápido olhei todo o interior do veículo e todos dormiam seus sonos merecidos. Apenas a janela que dava para a minha poltrona estava aberta e pensei em minha companheira de viagem, ao passo que trazia nas mãos os copos que respingavam seus naturais suores. Para minha surpresa, Violante não estava mais lá. Preso à frincha entre as duas poltronas, um pequeno papel um branco rescendia. Escrito estava fui ver as estrelas de perto, espero você chegar. Sem saber o que fazer nem querendo acordar a todos, sentei-me, tácito, buscando alguma explicação em minha mente. Ali mesmo fechei os olhos e adormeci. Deve ter sido um sonho, nada mais. Quando o sol havia raiado e claro o interior do veículo se encontrava, um dos excursionistas interpelou o vizinho de viagem você viu o rapaz e aquela moça que estavam sentados naquelas poltronas descerem em algum ponto durante a madrugada? E iniciando um bocejo o outro proferiu um despreocupado nãaaaaaaaaaaaao.

Alpha Centauri.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Dos valores oferecidos


Por Germano Xavier

Quero encontrar a geometria dos meus vários
na tutela que me foi imposta,
e saber do caimento
dos meus ombros,
para assim caminhar ligeiro.

Não sei se côncavo ou se convexo,
não sei se me curvo ou se me reto,
ou se me disto ou se con(verso).

Para que palavras?

A pós-modernidade é mesmo
uma prostituta deplorável;
não sabe a quem se ofertar.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Discórdia em plumas


Por Germano Xavier

é com esta ingenuidade que queres cortar o tempo?
fingidores te vestem de amarelo com bolinhas vermelhas e você ri.
te oferecem a navalha do lado oposto ao que não fere e você acredita.
transformam sua vida numa comédia vagabunda e tudo é engraçado.
dizem impropérios verbais e escutam seus aplausos ao final do espetáculo.
me diz, é com esta ingenuidade que queres cortar o tempo?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dos truísmos


Por Germano Xavier

para meu amigo juazeirense Jorge Ferreira dos Santos


Guarda na ponta das tuas flechas
a viva exposição do teu espírito.
Depois, atira-o, atento e em mira,
no maravilhoso amor o teu grito.
Arranca-te de teus solos!
Eleva-te. Apodera-te. Toma-te,
arrebatado pelo curso natural
das coisas, e ama-te sem segredos
nem dúvidas, no ajustar silente
do teu coração. Silencia-te.
Deixa-o, dono de teu passado,
no aprendizado de teus caminhos,
pois que vivemos a obra infinita,
e dos outros a luz dourada, cansada
de mostrar, aprendendo, sempre
e estigmatizados pelo velho olhar,
o gosto amargo das antigas curas.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Uma peça de flor


Por Germano Xavier

Páramo. Aquela flor textura fônica plantada no jarro. Eu sou aquela flor textura fônica plantada no jarro. Resposta negativa, mãe. Eu gotejo, sou a água. Sou o portentoso marulho a escanhoar fringências. Meu perfilhamento. Se afrouxo zurze-lhe os meus erros. Continuo, então. Não quero morrer da verdade. Pusilânime, pulverizem o meu filho! - para quê tanto rancor? Sujeições foram feitas para serem desobedecidas, mãe. Lembra daquele padreco que se revoltou e viu que igreja é construção do homem? Postigo. Aquele jarro arcabouço feérico dormido sobre a mesa. Eu sou aquele jarro arcabouço feérico dormido sobre a mesa. Resposta negativa, mãe. Eu sou o desprantamento, a obnivolência e o sermício. Sou o que chafurda a ordem vigente apenas com meu sorriso silencioso. Se abarroto, recalcada ficarias? - qual a importância de tanta preocupação... Tarde modorrenta. Todos eles parecem pavorosamente obtusos. No início foi muito reticente e todas as questões tão capciosas. Sobremaneira. Decuriões. Centuriões. Família abastada, que pena falar desbragadamente assim sobre tanta superficialidade. Parelho. Aquela mesa suspensa ar-coração. O que seria de mim sem você? - apenas ou sinceramente aquilo. Beber aos borbotões porque sou um homem à moda antiga e você é artesã. Sou a mesa suspensa ar-coração suspensão supressão pressão bum-bum-bum. Posso explodir. Lavra. Eu queria que você soubesse da estrela que vi ontem no céu. Pensei ter visto vagalumes e era firmamento. A resposta é negativa. Eu sou o chão, demente, pesado, curvo de tanto suportar. Mas posso explodir. E minha aplicação é reformatória.

Dos novos olhares


Por Germano Xavier

qual ordem de protesto devo
o sangue que por mim corre
fenda de vazão vermelha
a emudecer a flor que morre

eu vou e esperando ficarei
no farol da imaginação
a beleza de seus arrulhos
de esclarecimentos românticos
imaginar a boca de um dragão

a esfolar meus sentimentos
sei devo domar os meus vícios
meus olhos mais "educados"
devo fugir olhar de frente o maldito
sufoco de gerações ajustadas

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Dona suprema


Por Germano Xavier

Cantiga de Amor


Senhora, quando cai a madrugada
nesta cidade cinzenta, e as luzes
artificiais dos postes ofuscam
a luz lunar, pego-me a imaginar
teu semblante brando e alvo como pétalas
de um cravo, e começo a sentir dentro
de mim um relâmpago delirante
e devasso que ultrapassa toda
a extensão deste meu corpo, que frágil
torna-se frente a tais reminiscências.

Minha senhora, não compreendes tu
a dor que por ora sinto. Não mesmo!
Não compreendes a fenda aberta
em minha carne, que sem ti putrefa.
Eu sei, não compreendes a ferida
exposta e rubra por tua ausência.
Não compreendes o vão que abraça
e corrói meu âmago. Não compreendes,
minha senhora, que por mais que estejas
distante, tua presença muito me marca,
como brasa viva e ardente o peito
deste pobre e comum e mero homem.

Oh, senhora dos meus sonhos,
tornaste o delírio meu companheiro
indesejável, mais incrédulo, mais invasivo.
Por que, senhora minha, foges assim,
sorrateiramente, com passos de garça,
não deixando à vista nenhuma pegada,
nenhum vestígio de teu ser?

Rainha do meu coração, cesse
o sofrimento desse teu pobre servo,
não fujais do meu amor. Prometo-te
lírios, rosas, margaridas e todas
as fragrâncias, de todos os perfumes.
Porém, convenço-me de que tudo
o que vier a oferecer-te, doar-te,
tornar-se-á parcela ínfima e ordinária
diante da vastidão de tua beleza,
de tua toda sutil formosura.

Minha dona suprema, és tu a âncora
que me livra do naufrágio, o porto
seguro de meus intentos flamejantes,
minha fortaleza de pedra por onde
não vaza sequer uma gota de inverdade.
Oh, Deus, presenteaste a minha existência
com a mais bela mulher, e hoje estou aqui
acorrentado, aprisionado neste amor
desmedido. A minha alma sangra por saber
que o sentimento que me alimenta
ao mesmo tempo me consome,
me dilacera, me esfacela, me abre
o peito sôfrego perante a morte.

Minha senhora, minha deusa, morrerei
por ti, eu sei, mas morrer por ti me basta.
E dessa maneira, mesmo triste e morto,
serei feliz, posto que tive na vida um amor,
um amor capaz de ser só meu, único,
desde o instante em que me criei.
Minha senhora, minha dona suprema,
meu cântaro de luz, minh'alma em flor,
posso até morrer, sim, mas por ti sempre viverei.

domingo, 12 de maio de 2013

Sua majestade, a identidade



Por Germano Xavier

Bernardo Carvalho, colunista do jornal Folha de São Paulo, certa vez escreveu: "Só se fala em identidade quando ela faz falta. E quando falta alguma outra coisa. A identidade, seja ela em que âmbito for, costuma ser um assunto deslocado, um substituto, a miragem de um porto seguro, um cano de escape, a promessa de um alívio para a falta de sentido e para o mal-estar dos indivíduos no mundo e em sociedade". Talvez seja por isso, ou seja, por se mostrar um objeto um tanto quanto abstrato e vulnerável, que o tema identidade cultural seja tão complexo e de difícil desdobramento.

Para se fomentar um discurso concernente à existência de uma identidade cultural e de uma cultura nacional, é preciso compreender a formação sócio-cultural, política e econômica do nosso povo. Faz-se necessário o entendimento ideológico de todas as suas significações e representações, tendo em vista que o conceito de cultura e de dinâmica social estão historicamente ligados; assim, pode-se elaborar uma análise mais objetiva e crítica de toda a nossa herança cultural.

A partir do momento em que se dá o processo de aculturação, de intercâmbio de valores e de culturas, fica mais difícil trabalhar a questão do que vem a ser uma cultura nacional, com seu conjunto de valores particulares e expressivos. Lendo Darcy Ribeiro, é possível perceber que ele coloca a cultura em um ângulo privilegiado, no qual qualquer sociedade é, ou pode ser, gerada (reconhecida) a partir do seu acervo patrimonial e representativo. A cultura, segundo o autor, é uma forma totalmente perceptível; todavia, ao mesmo tempo encaixa-se num aglomerado extremamente particular, de caracteres natos.

A identidade cultural, assim como a cultura em si, tem no homem o seu maior constituinte, pois é ele que se constrói e ao mesmo tempo constrói a cultura que posteriormente o constituirá. Considerando a linguagem, a religião, as crenças e os valores como sendo componentes fundamentais da cultura, e também como modos padronizados e instituições reguladoras da mesma, fica praticamente impossível a concepção de uma identidade sem reconhecermos a presença de uma padronização que se insere factuando o processo de assimilação do povo "oprimido", em decorrência do poderio do mais favorecido.

Pensar em "um Brasil" e em "um brasileiro" é enveredar-se num processo marcado por conflitos ideológicos e físicos. É preciso se ater ao quesito "nação" (conceito mais político), como também à produção de uma cultura brasileira por parte da comunicação nacional, já que o cinema - para servir de espelho -, entre outros meios, é um fator preponderante na construção de uma identidade cultural e uma identidade nacional.

Sabe-se que o território brasileiro permitiu uma penetração cultural de proporções colossais e de maneira bastante facilitada. Aqui se misturaram brancos, negros, amarelos, índios, entre tantos outros povos/raças que, por sua vez, fizeram coexistir inúmeras crenças, valores, significados, línguas e representações. Esses aspectos denotam que, por mais que haja uma personalização e uma individualidade, existirá sempre perspectivas semelhantes referentes à percepção de um território cultural.

Para poder dominar outros povos, as pessoas tiveram de aprender o verdadeiro significado da palavra "diferença", assim como os "dominados", necessariamente, tiveram, também, a obrigação de descobrir o significado da palavra "diversidade" e da palavra "identidade", pois somente nos tornamos seres sociais a partir do momento que nos adentramos na sociedade e a sociedade, por conseguinte, penetra em nós.

A nacionalidade é o que forma a nação, como também é algo intencionalmente produzido. A cultura vem para tornar concreto o Estado brasileiro. A cultura identifica as pessoas e é preciso constituir um fator preponderante para a descoberta de uma nacionalidade própria. Mesmo com toda a diferença existente, ainda compartilhamos de uma ordem comum, e esse compartilhamento é de razão obrigatória. A partir desse pensamento, é possível, e mais notável, imaginarmos uma identidade cultural e uma nacionalidade conquistada através de uma ação de cultivo, uma expressão que se produz cultivando.

A cultura no Brasil emerge com a consolidação de uma classe burguesa na primeira metade do século XX. O afloramento de uma nacionalidade confunde-se com a aceleração no desenvolvimento das relações capitalistas com o crescimento quantitativo e qualitativo da burguesia e do proletariado. Esse período é caracterizado por uma efervescência política e um forte embate ideológico que acaba refletindo nos distintos campos de expressão cultural. É nesse contexto que vai emergir, também, a posição do regionalismo como cultura, o que abarcou uma leva de aspectos político-culturais. E, novamente, enxerga-se a presença e participação dos meios de comunicação como instrumentos e veiculadores da cultura nacional/regional, influenciando o todo através da formação e expansão de uma cultura de massa.

Toda espécie de interação social é de fundamental importância para a "fabricação" de uma cultura de indentidade e de uma nacionalidade brasileira, já que se identificar é produzir um espaço social próprio. O nordeste, nesse cenário, surge para reclamar o reconhecimento de seu espaço, numa manifestação muito tardia. A edificação dessa identidade nordestina, muito atrelada a ação do cinema, foi e ainda é de uma complexidade única.

É sobre a ótica que acredita na existência dicotômica entre litoral e sertão, deixando de lado a representatividade européia relacionada às experiêncas históricas, valorizando as visões inerentes à América, que Nísia Trindade lima, autora do livro "Um sertão chamado Brasil: intelectuais e representação da identidade cultural", vai trabalhar. Esse contraste em relação ao território de uma nação, dando características e identificando-os diferentemente, não é fato exclusivamente brasileiro: "Podemos lembrar, entre outras, a linha divisória entre o oeste e o leste alemães, que mereceu a atenção de Max Weber, a questão meridional na Itália, tal como a abordou Antônio Gramsci, além da busca incessante da historiografia americana pela especificidade do sul (Lima, 1999)".

A posição em que o regional se encontra - quase sempre às margens do processo civilizatório, subjugado à condição de "barbárie" - marca o debate concernente ao posicionamento de uma identidade nacional brasileira. Aqui, o conceito de "fronteira" se destaca por ter uma importância muito grande para que se desenvolva tais estudos, predizendo que fatores geográficos exercem um papel fundante e de primeira instância na produção de conceitos identitários. No caso do Brasil, esse conceito de fronteira deve ser substituído pelo de "sertões".

Os processos de tentativa de se explicar a formação de uma cultura de identidade no Brasil são muito semelhantes: "Em ambos os casos, temos um espaço de contornos geográficos pouco definidos, representado como lugar onde se desenvolveria o mais típico de identidade nacional (Oliveira, 1996)." Só que este pensamento não é compartilhado por todos os estudiosos do assunto, o que faz com que haja alguns intelectuais pensando e refletindo em uma enorme diferença quanto as experiências brasileiras e norte-americanas, por exemplo. "Nos Estados Unidos da América do Norte teríamos com o movimento de fronteira a universalização do núcleo inicial de origem puritana - contribuindo para o deslocamento populacional e para a mobilidade social desse núcleo -, enquanto, no Brasil, fronteira implicou, em grande parte, a simbiose de paisagens, pessoas e culturas. Talvez a evidência mais expressiva desse contraste esteja nos diferentes sentidos atribuídos à palavra fronteira entre os norte-americanos e os brasileiros. A palavra que indica mobilidade, para os primeiros, chegou a ser usada, no Brasil, com referência a pessoas. Os homens eram "fronteiros", vivendo o encontro de hábitos, de etnias, de linguagem, em suma, de culturas. Daí que a figura mais representativa, esse homem fronteiro, visto especialmente como produto do encontro do português e do indígena, seja identificada em diferentes textos com a figura do sertanejo (Lima, 1999)".

É impossível estudar a cultura brasileira sem considerar o fator regional, que sempre, ou na maioria das vezes, é refletida às outras partes do país e do mundo de maneira preconceituosa e muitas vezes inverídica. Há uma caracterização do fator regional - sob uma ótica extremamente mercantil - que leva a uma desconfiguração de seus elementos mais reais, dando-lhe o caráter cômico e/ou de aberração. Isso faz transparecer uma espécie de isolamento das partes interioranas do Estado brasileiro; uma forma de exclusão que marcou e ainda marca a nossa história. "O isolamento em que vivemos não foi apenas do Brasil em relação a outras nações durante todo o período colonial, mas no interior da unidade nacional, entre diferentes grupos e instituições (Azevedo, 1958)".

"O desconforto não se encontra apenas frente aos brasileiros do interior; ele está fundamentalmente no intelectual que também se coloca como estrangeiro - em relação aos habitantes rústicos do interior e aos valores dos copistas que tomam outra civilização de empréstimo e perdem de vista a autenticidade da nacionalidade brasileira (Lima, 1999)". Percebe-se, aqui, a importância e a capacidade de influência dos meios comunicacionais, tanto do cinema (já abordado) quanto da televisão, do rádio e também dos meios impressos. Este último, onde se insere de maneira mais abundante e original a literatura, permite a visualização dos diferentes tempos históricos e contextos físico-políticos em que as manifestações culturais regionais estiveram presentes, sofrendo mudanças - "enfatizando a busca por uma caracterização autêntica do homem do interior e questionando aqueles que associem de forma simplista regionalismo e conservantismo (Lima, 1999)".

Fica então um tanto que dificultoso e sublinhado os meandros da formação identitária nacional; uma identidade cultural que descarta as inúmeras possibilidades do espaço regional, e que é gerada a partir da visão segregadora de intelectuais parciais, por uma mídia alienante e por um outro Brasil que ainda não aprendeu a se valorizar.


* Peço desculpas, mas perdi a última folha desse texto, na qual estava contida toda a bibliografia estudada. Fico em débito com vocês, pois. Este texto data de 12 de dezembro de 2005.

sábado, 11 de maio de 2013

Um certo destexto


Por Germano Xavier

para Ana Lorena.

É por obrigação que escrevo estas linhas partidas. Simplesmente esse é o motivo. Pura obrigação de um escritor que deve na praça, ou melhor, que está em dívida perante seu público leitor. E isso soa irônico e ainda mais interessante no momento em que o escritor, aqui, não é bem um escritor e o público se resume a uma só figura de alma feminil. Então, esse é um não-texto. Uma coisa, apenas. E o pior de tudo: é um esboço textual ainda sem um tema concreto, pois esse perdeu-se no vazio do tempo, na distância da "impresença". Portanto, ficamos assim: o escritor, que não é bem um es-cri-tor, esforça-se na construção de um texto não-texto e sem "texto" e, por consequência, descontextualizado. Tudo começou quando... Não me lembro mais quando tudo começou, mas sei que um dia, numa certa ocasião, numa certa tarde ou manhã ou noite e numa certa hora isso foi inicializado.

De supetão? Evidente, ou não? Não vale a pena especular, tudo mesmo nesta vida não deve ser "por acaso". Algo mais forte deve existir para que exista a conjunção dos fatores metafísicos-humanos-paradoxais-reais-imaginários que exercem força de atração entre a classe mamífera pensante. Há de ter algo entre os homens e o mundo, simplesmente algo e só. E isso é tudo. Dispensa qualquer tipo de comentário, basta... Bastamos nós. Não. Sempre falta alguma coisa, alguma ação ou prática ou movimento, que tanto pode ser originário de nós mesmos como pode ser derivado do exterior. E eu sinto que estou em falta. Aliás, não raro tenho de conviver com tal sentimento. É quase um costume. Percebo que as pessoas esperam alguma manifestação minha, uma atitude que possa sair desta boca calada e que mais sabe em silêncio permanecer, ou destes olhos mínimos e medrosos - dos olhos espera-se um flerte, um piscar de olhos fatal, daqueles indicadores de fogos.

Mas esse texto não seria um texto se, por trás de todas estas orações e períodos, não existisse um receptor ou, melhor dizendo, um interlocutor. Aqui, é bom que se ratifique, uma receptora. Sim, como eu já tinha empregado, uma criatura feminina. Em toda a sua essência, feminina. Não lembro como a conheci, e isso também já devo ter enunciado. Acredito que já estou ficando chato, é o que me parece. Todavia, todos os escritores que conheço, a maioria por intermédio da leitura de suas obras, foram homens extremamente rabujentos, pegajosos e chatos. A chatice pode ocorrer de diversas formas. É um fator que aqui preciso salientar. Existem chatices. Os que disserem o contrário estarão mentindo. Escritores são paredes, mesmo os mais loquazes. Parece que há uma barreira de ferro maciço entre ele e o leitor, obstáculo esse que só é desmanchado com o advento do "fabrico" e da leitura de seus respectivos livros. Ou não. Os livros, para muitos, também são paredes, e das mais grossas... Estou perdido.

O mundo das palavras medeia a minha brutal insignificância. Sobre o que estava eu a falar mesmo? Não importo. Mas sobre o que eu deveria estar a falar, se este que nasce não é um texto sentido? O que escrevo neste momento é antes uma dor, humana. Deus, haverá quem possa com um não-texto? Do que será capaz tão perverso monstro? Exterminá-lo, seria essa a melhor e mais inteligente maneira de continuarmos? E quem seria o escolhido? O homem é tão capaz assim? Tão digno é o homem? O homem, não seria ele o não-texto em disfarce torto? Então, veio-me agora um naco de lembrança. É tudo um jogo:

- Olá!
- Oi.
- Como você se chama?
- Eu me chamo... eu me chamo Acaso. E você?
- Meu nome é... meu nome é Medo, mas pode me chamar de Desejo. É assim que todos aqui me conhecem.
- Engraçado.
- Graça, onde enxergas?
- São estas árvores, descabeladas.
- Não vejo árvores aqui. Estamos perto do céu.
- Há coisas que não vemos. Essas foram feitas para serem sentidas.
- Mas... como?
- É simples, um exercício apenas. Basta um pouco só de disciplina e de coragem, principalmente.
- Ensina-me?
- Não. Não posso. Não existe professor para esta matéria.
- Por favor... eu te peço!
- Perdão, mas eu não posso.
- Então, é tudo um jogo mesmo.
- Sim, é tudo um jogo.
- Mas, o que você enxerga agora?
- Continuo a enxergar árvores. Elas estão frondosas e com frutos maduros, estes caem e se esparramam em gosma pelo chão frio. Também vejo pessoas. Elas estão caminhando pela nudez de seus descaminhos. Parecem perdidas, como eu.
- Queria ter a tua visão!
- Você tem, e é muito mais que a minha, demasiado ampla.
- Não entendo.
- E nem deveria... os olhos são lâminas doentias, portadores de tétano.
- Você é sempre assim?
- Assim, como?
- Assim... meio...
- Não. Eu sou como o vento, ora sibilo ora me calo. Mas tudo isso me ocorre por dentro e muitas vezes passo despercebido.
- Engraçado.
- Graça, onde enxergas?
- É o teu discurso, típico de um escritor em início de carreira. Ainda sofres a devassa da ilusão!
- Tens razão. Tem um fiapo poético no que digo. Deve ser doença, não sei.
- É, deve ser uma doença. E me parece que é um mal incurável.
- Li algo sobre o assunto. Não estou preparado.
- Mas ninguém está, até que se prove o contrário.
- É verdade.
- É um jogo, esqueceu?

São duas horas da madrugada e eu não sei o que faço para saciar a minha fome. E sinto que ela me mata.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Seres escuros, os caminhos

Imagem: Google
Por Germano Xavier

após ler o conto A CASA DA FLORESTA,
dos irmãos Grimm


cuidado com os mapas
deixados à revelia no tempo:
toda claridade pode também assombrar

Dor curta


Por Germano Xavier

a envergadura da vida
dá dois palmos
neste meu aleijão.