sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nada muito sobre filmes

*
Por Germano Xavier

algumas palavrinhas facebookianas sobre filmes que andei assistindo...



O ILUMINADO

Salve, salve, bucaneiros! Acabo de assistir ao filme O ILUMINADO (THE SHINING). Lançado em 1980, a película é mais uma grande produção do diretor Stanley Kubrick. Quem gosta do gênero Terror/Suspense não pode ficar sem vê-lo. É tensão e angústia do começo ao fim. Fotografia e música surpreendem. O enredo é baseado no livro homônimo de Stephen King. As atuações de Jack Nicholson e Shelley Duvall impressionam. O ILUMINADO possui todos os ingredientes de um verdadeiro clássico do cinema. Recomendo a todos os mortais!

A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE ANTÔNIA

Salve, salve, bucaneiros! Acabo de assistir (rever) a um filme de que gosto muito: A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE ANTÔNIA (1996), da diretora Marleen Gorris. O filme é um relato sobre o tempo e sobre como a vida e a morte estão intimamente ligadas por um fio inquebrantável, indivisível. Os dois elementos, destarte, ganham ares de igual beleza e dor. Tudo passa, pois tudo deve passar. Tudo vive, tudo morre. E nada nem ninguém morre para sempre. Recomendo a todos os mortais!

HISTÓRIA REAL

Salve, salve, bucaneiros! Acabo de assistir ao estupendo filme THE STRAIGHT STORY (História Real), de 1999 e direção de David Lynch, este monstro do cinema. Um dos filmes mais lindos e emocionantes de toda a minha vida! "Eu sou o Alvin, eu sou o Alvin!" - gritei dentro de mim após o desfecho da última cena. Parecia que era eu quem estava atravessando os Estados Unidos em cima de um cortador de gramas! Se não fui eu, em verdade eu estava lá no reboque ou no meio das tralhas do Alvin a percorrer o orgulho de uma vida para acertar contas com o tempo perdido. Que lição de vida, Iara Fernandes! E que final! Lágrimas, lágrimas, como é bom estar vivo e sentir tudo isso! Ninguém pode morrer sem antes ver este filme! Doce e feroz, manso e atroz, nós caçadores de nós! Recomendo a todos os mortais!

A BELA DA TARDE

Acabo de assistir ao filme BELLE DE JOUR (A Bela da Tarde), drama francês de 1967 com Catherine Deneuve no papel da protagonista e direção de Luis Buñuel. Atmosfera onírica, conflitos consciente-inconscientes, busca pela liberdade individual e pelo prazer acima de qualquer consequência. Mais um belo exemplar da arte que "brinca" com o tema do "duplo" no ser humano. No fundo, Séverine Serizy é um reflexo de todos nós. Um filme maiúsculo. Recomendo a todos os mortais!

CORAÇÃO SELVAGEM

Acabo de assistir ao filme WILD AT HEART (Coração Selvagem), de 1990. Mais um belo trabalho do diretor David Lynch, que possui muitas influências surrealistas em sua obra. A película é uma ode ao amor vagabundo, ao amor fora-da-lei. Um filme sobre "Errância" (tema que muito mexe comigo) e com muita estrada cortada ao sol empoeirado dos Estados Unidos. Com Elvis Presley ao fundo na trilha sonora e também muitas referências diretivas ao clássico da literatura O Mágico de Oz, não há como resistir aos seus encantos de drama. Recomendo a todos os mortais!

UM CÃO ANDALUZ

Acabo de assistir ao filme UN CHIEN ANDALOU (Um Cão Andaluz), de Luis Buñuel em parceria com Salvador Dali. De 1928, a película é considerada o primeiro e o maior expoente do movimento surrealista no cinema. Para incorporar, não para entender, tal qual a poesia. Recomendo a todos os mortais!

VELUDO AZUL

Acabo de assistir ao filme BLUE VELVET (Veludo Azul), do diretor David Lynch. Mais um clássico dos anos 80 do século XX. Suspense com boas doses de surrealismo. Trilha sonora muito bonita. Em vários momentos, lembrou-me PULP FICTION, de Tarantino. Recomendo a todos os mortais!

PULP FICTION

Acabo de assistir ao filme PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994), considerado por muitos a obra-prima do diretor Quentin Tarantino.

"O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas desigualdades do egoísmo e da tirania dos homens maus. Bem-aventurado aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, pastoreia os fracos pelo vale das trevas, pois ele é verdadeiramente o guardião do seu irmão e o descobridor das crianças perdidas. E derrubarei sobre ti, com grande vingança e furiosa raiva, aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá que o meu nome é Senhor quando eu derramar minha vingança sobre você." Ezequiel 25:17

Recomendo a todos os mortais!

TAXI DRIVER

Acabo de assistir ao filme TAXI DRIVER (1976), do diretor Martin Scorsese. Robert de Niro em grande atuação e Jodie Foster bem novinha. Uma película sem igual. A narrativa lembra muito o conto O COBRADOR, de Rubem Fonseca. Recomendo a todos os mortais!

A MOSCA

Acabo de assistir ao filme A MOSCA (The Fly), do diretor David Cronenberg. Um clássico do gênero na década de 80. Recomendo a todos os mortais!

O CHAMADO

Acabo de assistir ao filme japonês RINGU - O CHAMADO (1998), do diretor Hideo Nakata. Baseado no livro homônimo de Kôji Suzuki. Belo exemplar do gênero horror/suspense. Recomendo a todos os mortais!

O RENASCIMENTO DO PARTO

Profundamente emocionado e tocado pela mensagem do chocante e esclarecedor documentário O RENASCIMENTO DO PARTO, de Érica de Paula e Eduardo Chauvet. Se um dia eu for agraciado pela paternidade, farei de tudo para que meu filho ou minha filha nasça através de um parto humanizado, com o apoio de pessoas queridas ao redor e com altas doses de amor. Esta película precisa ir para as salas de aula das escolas brasileiras urgentemente. Um salve ao parto natural, sem intervenção cirúrgica nem agressão ao processo poético do nascer! Abaixo ao parto com hora marcada e de lógica comercial!

MALÉVOLA

Acabo de assistir ao filme MALÉVOLA, um reconto do clássico da Disney A BELA ADORMECIDA. O filme rompe paradigmas há muito solidificados no imaginário coletivo e coloca a figura feminina ainda mais no centro das problemáticas envolvidas. Vale a pena conferir, bucaneiros. Salve, salve!

A ONDA

Acabo de assistir ao filme alemão A ONDA, dirigido por Dennis Gansel. Muito interessante para se pensar sobre os conceitos de Autocracia e Anarquia. Recomendo a todos os mortais!

A GRANDE BELEZA

Acabo de ver um filme que ficará eternizado em minhas pobres retinas fatigadas por todo o sempre, tamanha a poesia engendrada. A GRANDE BELEZA é de uma sutileza cruel de mexer nos porões de nossa parca existência mundana. Entrou para o meu cânone! Um salve enorme! Recomendo a todos os mortais!

THE EVIL DEAD

Acabo de assistir ao filme mais bizarro de toda a minha vida. THE EVIL DEAD, de 1981. Não recomendo a nenhum mortal!

A CULPA É DAS ESTRELAS

Acabo de assistir ao filme A CULPA É DAS ESTRELAS. Podem falar o que for, mas a historieta é bonita e emociona para dedéu. Recomendo a todos os mortais!

A GAROTA IDEAL

Acabo de assistir ao filme A GAROTA IDEAL. Recomendo a todos os mortais!

CARRIE, A ESTRANHA

Acabei de assistir ao filme CARRIE, A ESTRANHA na versão original da década de 70 e dirigida por Brian de Palma, baseada no romance de Stephen King, mago do suspense. Um clássico da Sétima Arte.

DOCUMENTÁRIO BBC

Vi agora a edição MARTIN HEIDEGGER da série HUMANO, DEMASIADO HUMANO, da BBC. O documentário começa bem, mas logo se perde numa visão por demais sensacionalista de Heidegger como partícipe do regime nazista de Hitler. Mesmo assim, recomendo a todos os mortais!

1,99

Acabo de assistir ao filme 1,99 - UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS, de Marcelo Masagão. Recomendo a todos os mortais.


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A precaução dos manuseios

*
Por Germano Xavier

poema baseado numa visão real...


a menina no quarto adormeceu
seus órgãos elaboram uma respiração suave
(diria feminina)

- a coberta é um embrulho
e asas pousadas indicam um cansaço natural

vejo e velo de onde estou
meu ontem que futura

o sono da menina no quarto devolve ao mundo
a gravura terna dos sonhos

e ainda mais
a imaculada sépia nas vistas do acordar


* Imagem retirada do site Deviantart.

domingo, 20 de julho de 2014

Um certo animal surreal

*
Por Germano Xavier

após Un Chien Andalou, de Luis Buñuel e Salvador Dali.


O cão corre em nossa direção com uma navalha na mão e como quem não quer nada o cão não descansa. Somos espectadores natos de uma aflição iniciada logo na primeira cena e estamos completamente abertos ao desconhecido. O cão dirige e atua a peça que não se esgota nem quando se dá por terminada. O cão é um demônio devorador de olhos. Abre a visão do homem que vê como se preciso fosse, tal qual um ato de urgência. O fundamental é ver, enxergar além do que pode ser visto. O cão é radical, não amaina. Somos atingidos por um golpe certeiro e dali para frente não há mais horizonte certo para quem simplesmente quer passar. Estamos todos unidos por uma força surreal e a dúvida é o preço que pagamos por muito esperar. A vida de um homem e de uma mulher, atraídos por um sentimento que não se coaduna em nenhum instante é enlace para quem se atreve. Quando a fuga se torna impossível, o melhor é continuar fugindo. Os cacos uma hora serão juntados, colados pacientemente e deixarão seus estados naturais de coisas apenas. Tudo é expressão, até o que não fala, até o que não se move, até o que não sugere. Tudo é absolutamente excitação. O florescer das verdades delineia o corpo de toda a alma que nos recheia. Sentir é preciso, perceber nem tanto. Sentir, com doçura e crueldade. Ser parte da mão podre e oca repleta de formigas é saber que nem tudo é o que parece. Somos mais. Somos menos. Somos o que podemos ser. Somos o que não podemos ser. Invadidos a todo instante, com ou sem permissão, de forma bruta. O abate é logo. A fera sempre vem. O belo se esconde e altera a morada do sentido. Resta-nos ir, sem governo, para o sonho.


* Imagem: Google.

sábado, 19 de julho de 2014

Numa rua de outro país

*
Por Germano Xavier

dias antes liguei para um antigo amor
a voz era de amparo
virei a madrugada num Volkswagem preto
sem me despedir de ninguém
rumei ao lugar de onde deveria ter saído
eu era uma divindade da liberdade
naquele instante de quase dois mil quilômetros



eram flores até você desconfiar
menina ou inventar o que nunca
existiu você fez rodar minha cabeça
enluarada
até a porta do motel
na cidade estranha

amor doente sob luzes opacas
(esperei a infâmia do novo
- novamente - me corroer)

seus longos cabelos negros
cada vez mais distantes
enrolaram minhas pernas
e numa cama fedida
dormi com a solidão

longe do meu lugar
esquecido pelo amor
durei até não aguentar
pois era tamanha a fome

na despedida
(dor ensacada)
atrás do posto de combustíveis
olhei sua saia preta curta e bem justa
a pronunciar abruptas carne-curvas
e soube então o que vim procurar


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Canção para um blue velvet

*
Por Germano Xavier

o mundo é muito estranho, amigo, veja bem.


está escuro e raiou o dia
a cama recomposta mais parece
um berço
para sonhos

no corredor
a fantasia se apieda
e toma rumo de descaso
a força não faz o amor
a força não faz nada

a doença aspirada no ódio
mancha o tecido e a hora
se afina

o pensamento é o prazer
deglute impede dilacera
vasta gente sempre
que prossegue

sem chegar

está escuro e raiou a noite
guardo agora minha dança
para (des)esperar


* Imagem retirada a partir do Google.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Meus relógios

*
Por Germano Xavier


O tempo analógico

é espalhafatoso
faz tic faz tac
os ponteiros tremem

desalinham-se
ao comando energético

se apuro bem os ouvidos
ouço de outro cômodo
minha morte cantar


O tempo digital

o tempo mudo
sem voz nem som
sem onomatopeia

o tempo moderno
o tempo vibrado em quartzo

tempo silente
tempo dormente
passa fingindo
que tem medo de matar


* Imagem retirada a partir do site Deviantart.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Quem mandou quem chegar

*
Por Germano Xavier

a gente anda anda
anda e não para
de andar

(e a dor)

a dor da gente
de andar andar
e não parar (nunca)
a gente sente
por vezes mente
até sangrar sangrar

até parar
de andar andar
e de ser gente

sábado, 12 de julho de 2014

Amor de véspera

*
Por Leilane Paixão

para Germano Xavier¹


Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...

(Trecho de "Soneto de Véspera", escrito por Vinícius de Moraes)



Palavras não faltam para falar de quem a gente ama, mas por alguma razão que a própria razão talvez desconheça, elas costumam se esconder e nos deixar frente a frente com o puro sentimento, sem definição, sem roupagem que o apresente e diga sobre ele.

Te amei de véspera e te homenageio também na véspera de mais uma alvorada dessa tua centelha de vida, um dia antes da tua terceira década se completar.

Eu queria te dizer que na noite em que eu pedi a Deus para te encontrar (e graças a Ele te encontrei logo em dias seguintes), já havia perdido um pouco a esperança de que você também tivesse encarnado nessa vida. Achava que talvez minha alma não daria a sorte de te reencontrar e que não experimentaria o amor.

Mas você apareceu e me prometeu o sol, e a chuva... E eu te dei o meu coração, e quis ir com você até onde pudéssemos chegar em nossos dias brancos. Dei a ti o meu canto de amor.

Te amei de véspera, porque ainda não era o momento do florescer do amor. Mas brotou. E como cortar pela raiz? Ficou, se enraizou e já era amor em mim. De algum modo, em você também eu fiz morada.

Podia partir agora até o final e te dizer que não consigo imaginar a minha vida sem você, que eu morreria sufocada de saudade e tantas outras coisas piegas... Mas, seria verdade. O que sou eu sem você? Eu sem você é você sem mim. E eu simplesmente não conseguiria mais vislumbrar uma existência em que nós não existíssemos.

Deus sabe o quanto eu agradeço pela tua existência, por ser presença tão intensa em mim. Você faz aniversário neste 13 de julho e eu sei que de parabéns estou eu, por te ter ao meu lado, por ganhar todos os dias a alegria de ver os seus olhos se abrindo e me contemplando em tons de verde-mel... me abraçando.

Você é sentido em minha vida, você é sentido em mim. Te amei no passado, te amo muito mais hoje e quero continuar te amando até onde a gente chegar... Numa praça na beira do mar, num pedaço de qualquer lugar... Em dias brancos, azuis, cor de anil... Se você vier para o que der e vier.

Felicidades, meu amor...

Vida longa a você e ao nosso amor.

Que seja eterno e que dure...




1 - Peço que leia escutando a nossa música e deixe a mente passear por nossos bons momentos já vividos...( https://www.youtube.com/watch?v=sbXinMCKeh0)

* Imagens: Acervo pessoal.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Haicais sem melodia para Lygia Clark

*
Por Germano Xavier

ou óculos de grau para estruturações selfianas


Abstração

vai chover hoje
deitemos sobre a relva
da imaginação


Neoconcretismo

obra mole em arte
dura tanto mata
quanto cura


Abandono

o corpo resiste
para conter dentro de si
um pouco da imensidão


* Imagem retirada a partir do Google.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Muitos issos para dois

*
Por Germano Xavier

para Leilane Paixão


Laura Straus parou o tempo
no livro roubado
(juro que sou inocente)
e fotografou o amor
num beijo dado com os olhos
num riso dado com as mãos
num silêncio feito de respeito
num abraço dado aos pés da queda
numa alegria de rodopios
num afago compromissado
num banco de jardim e de existências

num olhar apenas
numa sensação apenas
numa paixão apenas

até num perdoar com choro
numa vida inteira de construção
num espaço dividido
num momento de rara loucura
numa diversão a dois
numa intimidade absurda
num encontro no meio da perdição
num enlace fortuito
num detalhe de pequenos gestos diários
numa segurança ingênua
numa paciência de esperas
numa força de laços
num afeto de pousos
numa generosidade avessa
numa celebração de travessias

em antecipações calculadas
quando o futuro nos olhava
já relaxados o bastante
para somente passearmos
(pra sempre!)


* Imagem retirada a partir do site Deviantart.

O Silêncio das Agulhas (Parte XXIII)

*

Foi num dia assim como esse. Você me disse que precisava vir. Eu fiquei esperando a hecatombe acontecer. E aconteceu. Fui te ver bonita e com cheiro de cigarro nos cabelos. Eu amei principalmente o cheiro de cigarro nos cabelos. Você era pequena e grande ao mesmo tempo. Tinha as costas largas de muita vida. Eu era tudo, menos um indiferente à beleza que estava por vir. Percebi que você olhava sem ar. Respirar era uma oportunidade. Coração no punho da moto acelerada indicando caminhos e curvas. Você havia chegado de um mundo tão distante! De um mundo onde me viu nascer. Você era uma espécie de paz e logo partimos para a imensidão. Mas antes um tempo para respirar o que era nosso, só nosso. Havia um quarto e aquilo bastaria. Era uma espécie de quarta da morte. O objetivo era nos matarmos. Um acordo. Eu te mataria aos poucos e você me mataria aos poucos. Era o que tínhamos de fazer. Mas resolvemos poetizar a morte. Inventamos de fazer versos de amor louco. Eu te penetrei até te matar passados escusos. Você se abriu inteira para fechar impassíveis dúvidas. Tudo num dia assim como esse. Você me disse que precisava vir. Eu fiquei esperando a hecatombe acontecer. E aconteceu. 


*****


Faz tempo. Eu busco, nos escuros da memória, o que me fora tão importante um dia. E encontro. Uma paz de fim de trago. Eu fumava meus cigarros e você escrevia seus versos. Hoje, quase não fumo meus cigarros. E nem sei de seus versos. Sempre que me lembro dos dias em que estivemos juntos, sinto como se precisasse lembrar mais para não deixar morrer o que pensávamos ser amor. Eu sempre tive medo de amar demais. Você me conhece e sabe. E eu amei demais. E, por receio, tranquei todo o sentimento dentro de mim. Lacrado está para que eu não sinta de novo. Mas não há ordens de comando. O sentimento flui em lembranças como o barco à deriva que se esquece das ilhas que impedem seu trajeto de avanço.


Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Fluam minhas lágrimas

*
Por Germano Xavier


passem ou fiquem por dentro
umedecidas no interior
lubrifiquem o casco
o que sobrar de mim
o que não restar de mim
depois do imenso tormento

fluam minhas lágrimas
permitam que sigam
corrediças e deslizantes

que promovam liberdade

será a última vez que suspendo
de mim - em mim -
a elegante humanidade de ruir


* Imagem retirada do site Deviantart.

Eventual cotidiano

*
Por Germano Xavier


tudo é súbito fator
de traduções
o orvalho da manhã
no aceno do império diário
a cegueira dos olhos
que demora um século

tudo temo inteiramente
indago tal vítima de tumor

na hora não reparada
o que há é simplesmente
a sedução dos inéditos ventos


* Imagem retirada a partir do site Deviantart.

domingo, 6 de julho de 2014

Atrás da nuvem

*
Por Germano Xavier


se frestas com arestas brancas modulares
encobrem minhas vistas,
altero a substância indicativa
do espanto.

além-monte há um corpo de raízes
entrelaçado ao meu, com luz dentro
que fia uma nova imagem.

vou imaginar um voo dado
num supersônico daqui até você:
muro de contenção.

quando eu chegar na poeira levantada,
por favor
saia de trás da nuvem espessa
e me deseje um engano ritmado.


* Imagem retirada do site Deviantart.

sábado, 5 de julho de 2014

Miúdas flores de asfalto

*
Por Germano Xavier

sombreando vividos...

o som mete uma porrada dentro do ouvido. 
corro, mas não tento apagar. 
o som. 
é um som conhecido. 
som antigo. 
som de quartos úmidos 
por onde já passei noites de pouco sono.

segue o som. 
meus ouvidos ouvem. 
é lógico. 
a lógica do momento é se deixar. 
eu me deixo. 
eu me deito.

o quarto de agora é logo ali. 
o som me recorda de mim. 
o som me recorda que vivi. 
e logo certezas absurdas sobre amor e gozos perfeitos. 
a palavra poesia vivida com febre. 
a palavra covardia deixada do lado de fora. 

eu sempre fui. 
eu sempre vinguei. 
eu sempre me intrometi. 
até onde não devia. 
até onde devia.

fugia quando não dava mais. 
ou simplesmente caminhava de volta. 
partia. 
eu ia.

o som sempre ia. 
aquele especialmente. 
o som vai. 
ainda está.
comigo. 
não esqueço. 
é uma marca. 
é uma tatuagem. 
é um som esquisito. 
plasmado. 
corporificado.
bem no meio de mim.
como miúdas flores de asfalto.


* Imagem retirada do site Devianart.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Filosofia, Auschwitz, Educação e Modernidade

*
Por Germano Xavier


Para aqueles que adoram “assassinar” ciências, correntes de pensamento, idiomas, ideias e tantas outras coisas, eu tenho uma má notícia. E olha que não sou do tipo que gosta de sair por aí feito um daqueles arautos medievalescos, distribuindo alvíssaras ou lamúrias pelos quatro cantos. É que esse modelo de informação eu tenho prazer em divulgar, transmitir, pois me causa um embaraço dos bons.

Ei-la: A Filosofia, assim como a Poesia e o Latim, não morreu. Pelo contrário, a “ciência da reflexão”, se assim posso chamá-la, está vivíssima e demasiado atualizada. E mais, cada vez mais se sustenta enquanto um dos fundamentos da Educação. Eu já suspeitava disso e, confesso, nunca dei ouvidos às vozes daqueles que preconizavam e preconizam o fim dessas “entidades”. Acredito que são maiores que nossas imaginações ou construções interpretativas. Calma, não estou me referindo ao boom mercadológico de obras como “Quando Nietzsche Chorou” ou “A cura de Schopenhauer”, do escritor e psiquiatra norte-americano Irvin D. Yalom, só para tomar como exemplos. É com base nas palavras do professor de Filosofia da Unicamp, Osvaldo Giacoia Junior, em especial, que pronuncio essa afirmação.

Em entrevista à revista “Filosofia – Ciência & Vida”, o professor enfatiza o vigente uso e a atual interferência do pensamento filosófico nas diversas áreas da sociedade mundial. Além de afirmar a vivacidade da ciência do saber, corrobora que o retorno à filosofia é extremamente positivo, principalmente para o campo educacional. Para o acadêmico, “a matéria nunca deixou de lado a problemática humana; pelo contrário, nasceu dela.” Talvez seja por esse motivo que a ciência de Sócrates e companhia jamais perderá seu valor, por simplesmente tratar-se da humanidade ou daquilo que nos remete a ela.

Giacoia diz que as aparições da filosofia em debates nos variados meios de comunicação ajudaram no retorno triunfante da disciplina, porém defende que a filosofia não pode se tornar mercadoria, não pode ser vulgarizada.

Giacoia cita, como exemplo da atualidade da matéria, as recentes discussões sobre as crises ética e moral da política brasileira, o caos da racionalidade científica e a problemática da significação do termo “sujeito”, assim como todos os engendramentos do meio educacional, colocando a teoria nietzscheana e o Idealismo Kantiano como os alicerces fundamentais para as possíveis sugestões e explicações acerca dessas questões.

Eu diria que a Filosofia despertou, pois esteve num estágio de sono, digamos, preocupante. Feliz do homem, que ganha em conhecimento, que se encontra diante de mais uma porta em direção ao saber, que tem na atuação filosófica o perfeito distanciamento do que é realmente importante e do que é apenas superficialidade.

Durante as semanas de transcurso de nossos estudos, o tema que mais chamou a minha atenção foi trazido pelo texto EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ, de Theodor W. Adorno. Um texto que possui um valor inestimável para o nosso entendimento e que nos encaminha a melhoras em nossas práticas educacionais, já que nos faz refletir sobre questões acerca de intolerância e violência em nosso meio, tendo como base uma análise sobre o mais famoso campo de concentração da Alemanha Nazista. Um espelho para que nos olhemos e não repitamos tanta barbaridade. A educação humana agradece.

Sobre o texto de Marilda Aparecida Behrens, acrescento que por volta da década de 70 do século passado, o renomado sociólogo britânico Anthony Giddens criou o que ficaria conhecido por Teoria da Estruturação, esfera do pensamento sociológico que acredita que a Estrutura e o Sujeito se influenciam mutuamente a partir de práticas recorrentes, ou seja, a Estrutura molda o Sujeito e vice-versa. A teoria de Giddens vai de encontro, principalmente, a dois outros paradigmas de pensamento, a citar: o Estruturalismo (estruturas dominam o homem) de Althusser e o Subjetivismo (eleições subjetivas) de Max Weber.

Para Giddens, duas características basais identificam o homem: a sua Capacidade (possibilidade de realizar as coisas de maneiras as mais diversas) e a sua Cognoscibilidade (os sujeitos possuem saber sobre o social, portanto conhecem o que fazem). Estas duas faculdades humanas, juntas, elaboram o que Giddens destaca como sendo a possibilidade de Atuação Social, i.e., de Política.

As transformações da contemporaneidade não indicam para Giddens um rompimento para com a modernidade, mas o seu aprofundamento (uma espécie de fase crítica da modernidade). Sobre isto, Morin (2011, p.23) vai dizer que "a crise da modernidade surgiu a partir do momento em que a problematização, nascida da modernidade e que se voltava para Deus, a natureza, o exterior, se voltou, então, para a própria modernidade".

Neste ínterim, persiste uma espécie de resistência às teorias totalizantes ou globais (referências parciais, sem validade geral - renega a interação de culturas e a harmonização de valores), o que pode ser explicitado em alguns pontos, como por exemplo:

- Fim das metanarrativas (esta nova modernidade é descentralizada, dinâmica e pluralista).

- Multipolaridade (Mundo Pós-Guerra) x Globalização.

- Minorias mais participativas.

- A percepção dos "outros".

- As palavras de ordem são: pluralidade e especificidade.

- Abalo do Eurocentrismo e importância realçada aos países mais periféricos, como o Brasil.

Para Giddens, a modernidade é profundamente dinâmica, flui sempre e gera novas formas culturais e institucionais. Como consequência da mudança, o sociólogo britânico prega o abandono de teóricos clássicos, como Marx, Weber e Durkheim; esboça um fenômeno de dualismo: Segurança x Perigo, Confiança x Risco (onde uma existência segura passaria tranquilamente pela destruição do meio ambiente, pela existência do Totalitarismo e pela industrialização da guerra).

A vida torna-se problemática, os pressupostos são provisórios e os objetivos são questionáveis (tudo o que é sólido se desmancha no ar?). Falta de sentido pessoal (um convite à Prostituição do Ser x Mass Media x Aldeia Global x Cultura de Massa). O corpo agora é mercadológico (moda/publicidade). A possibilidade de produção de auto-identidades (Literatura Pop x Poema-Processo x Concretismo/Neo-Concretismo x Sociedade do Espetáculo) dão o tom de alguns setores, e tudo parece atestar a racionalidade das tendências conflituais.

Tudo parte para a sensação de caos numa modernidade que se liquidifica, tal qual um recorte a la Bauman. Diante de tamanho imbróglio, e parafraseando Paul Valéry, será o homem capaz de dar conta de tudo aquilo que sua própria mente criou?


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ela olha

*
Por Germano Xavier


ela olha
a outra mulher
na outra mesa
vestida de riqueza
com a cara enrugada
parlando à máxima
altura
e se rebaixa
calada dentro de si
sem saber o porquê de olhar


* Imagem retirada a partir do site Deviantart.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Além-Homem

*
Por Germano Xavier


noite passada acordei de um sonho

uma marca do passado
mudada e fortalecida
me revirava o tempo
que se abalava e se encobria

havia um frio interminável
havia uma parede que impedia
havia um músculo com câimbra

e havia
ao fim do sonho
um homem sem mansidão


* Imagem retirada do site Deviantart.

sábado, 21 de junho de 2014

Roda girante

*
Por Germano Xavier


é quando sozinho
na hora mais morna
da casa fria no cômodo com sombras
pousado pelos lados
sem oriente
na observância seca das coisas
que procuro
à luz da cidade
a chave que dá para a imensidão


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nossos desacontecimentos

*
Por Germano Xavier

"Nesses anos todos testemunhei muita gente se alienar da própria escrita 
para não sofrer. É uma alternativa. Bem cara. Para mim essa escolha 
nunca foi nem desejo nem possibilidade. Eu era o que escrevia. Sou."
(Eliane Brum)

Nascemos e morremos várias vezes durante nossas vidas. Eis uma grande verdade cuja escapatória o homem ainda não soube descobrir. A vida assim é constituída, de ressurreições e falecimentos diários, cotidianos. A memória se serve de algumas porções de história e guarda o que é mais urgente. Mas nem tudo sobrevive às intempéries do tempo, que tritura e dilacera.

Nascer, como podemos suspeitar de antemão, não é uma tarefa das mais fáceis. Morrer dói. Renascer pode doer mais ainda. Desta forma, em pedaços, nossos corpos e corações são feitos para durar até o limite da dor que não podemos suportar. A fronteira entre o que podemos e o que não podemos aguentar está diante do que parece simples, como uma página em branco pousada sob um lápis ou um mero olhar sobre o comum.

Escrever pode ser a salvação quando os nossos nascimentos passam a se confundir com nossas mortes. É sobre a invenção da vida a partir da palavra que trata o livro MEUS DESACONTECIMENTOS a história da minha vida com as palavras, da renomada jornalista Eliane Brum. Um livro nada singelo - e até rude - sobre a menina quebrada ou o menino quebrado que pode existir dentro de cada um de nós.

Nossos desacontecimentos podem imperar a qualquer momento, podem nos sufocar, mas também são a partir deles que podemos retirar a maior parcela dos aprendizados que nos conduzirão por toda a nossa jornada vital. Nossos desacontecimentos acontecem todos os dias, ininterruptamente. Enxergá-los com serenidade pode significar a condenação brutal ou o fértil arremate em prol de um futuro melhor, mais digno e justo.

E a palavra, onde entra em tudo isso?

A palavra, como ser-de-fazer-ser, sacrifica-se para produzir a vida que nos falta. Escrevendo somos mais do que sabemos ser. A palavra nos ponteia, transporta-nos para além do que somos ou pensamos ser. A palavra ajuda a fazer travessias. Mas, cuidado: a palavra fere, macula e pode matar. O mundo sem palavras é escuridão, como nos diz Brum. Para sair de local tão funesto, saber ler o banal que nos transforma é talvez a provável saída mais inteligente.

Autobiográfico por excelência, MEUS DESACONTECIMENTOS não fica só na área da crônica acerca da infância da autora. É mais um apanhado sobre paixão e amor pela palavra escrita e/ou oralizada/contada do que qualquer outra coisa e merece a atenção do cuidadoso leitor. Brum encanta e desencanta nos encantando, coisa que só os bons escritores conseguem fazer.

Palavras distraídas sobre Vygotsky

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Por Germano Xavier


Talvez a principal revelação da teoria de Vygotsky é, sem dúvida, a ideia de que o desenvolvimento/progresso cognitivo do ser-aluno acontece justamente através da interação social. É necessário que haja o relacionamento do ente-aprendente com o meio que o cerca para que ele possa adquirir conhecimento real.

O ser-infante, como efeito da troca mútua de experiências e ideias (interação), vê-se promotor de novos conhecimentos. Por ser uma experiência social, a criança é símbolo-parte do meio que a constrói, também. Diante deste entendimento, subentende-se que suas investigações diárias serão seus saberes, que poderão ser compartilhados e reprogramados para o desígnio de geração de outros novos saberes.

O pensamento, morada dos signos, é o campo de passagem para a linguagem, que é o elemento basal que impulsiona o desenvolvimento cognitivo. A aprendizagem se solidifica oriunda desta união, sem a qual não é concretizada. Por ser parte da experienciação social, sendo para isso mediada por instrumento os mais variados, pensamento e linguagem formam o arcabouço que sustenta o caminho de desenvolvimento humano que, a posteriori, vingará em ação.

Ângulo 1 (Compreensão da relação geral entre o aprendizado e o desenvolvimento) e Ângulo 2 (Peculiaridades dessa relação no período escolar). Vygotsky indica acreditar que há já conquistas efetivadas no ser antes mesmo de ele entrar para uma instituição de ensino, mas também deixa claro que a partir de seu ingresso neste novo ambiente, novos elementos de aprendizado lhe são introduzidos em prol de seu desenvolvimento.

Daí surgem os conceitos de NÍVEL DE DESENVOLVIMENTO REAL e NÍVEL DE DESENVOLVIMENTO POTENCIAL. Real é o conhecimento que a criança tem, Potencial é o conhecimento que ela pode desenvolver e a Zona de Desenvolvimento Proximal é o que está entre um e outro, é quando a criança está prestes a atingir um novo conhecimento, que nada mais é que a junção tempo-situacional daquilo que a criança é capaz de fazer sozinho com aquilo que ela só faria com auxílio de outrem.

Com o apoio da teoria de Vygotsky, a escola começa a ser revalorizada, há a percepção de que ensino de qualidade é aquele que se antepõe ao desenvolvimento propriamente dito, o fator alteridade é aceito como ponto de construção basal de conhecimentos, o papel da imitação é visto como relevante em toda a estrutura geradora de saberes e, indubitavelmente, a necessidade de olhar para a escola hoje e compreender que mudar faz-se de urgente necessidade.