domingo, 30 de agosto de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XX)

*
Por Germano Xavier


PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

Bucaneiros e bucaneiras, eis um filme indispensável para os vossos repertórios cinematográficos, de temática por demais delicada, para ver mais de uma vez e com muita calma. A mente humana é deveras um troço muito complexo. Já imaginou o seu filho ser o autor de um massacre sem ter nenhum motivo aparente? Como lidar com um filho assim, com tendências psicopatas/sociopatas? Como se reerguer depois que seu próprio filho se torna o assassino de sua própria família? Questões como essas são solucionáveis? O que fazer diante de tais adversidades? PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011), de Lynne Ramsay, é simplesmente imperdível. Recomendo a todos os mortais!

LINDA DE MORRER

Perderam uma ótima oportunidade para fazer uma crítica ao mundo da beleza (beleza?), dos cosméticos, da vaidade... (perderam?). Quem está interessado nisto? Ingenuidade pensar assim. O filme LINDA DE MORRER (2015), de Cris D'Amato, termina sendo um nada ao cubo vezes mil. Ponto para a Globo Filmes!

O JOGO DA IMITAÇÃO

O JOGO DA IMITAÇÃO (2014), do diretor Morten Tyldum, tomando como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, narra o exato momento em que a Inglaterra resolve criar um time de especialistas em criptografia com o intuito de desmembrar o Enigma, famoso sistema de códigos usado pelos submarinos alemães durante os embates. Para isso, o matemático Alan Turing resolve construir uma máquina que tem o poder de processar todas as possibilidades de codificação em menos de 24 horas, o que possibilitou prever ataques da Alemanha Nazista e mudar o roteiro de toda a guerra, além de, posteriormente, ser considerada a precursora do que hoje conhecemos por computador. Um filme sobre a genialidade de mais um ser humano que não foi compreendido em vida. Recomendo a todos os mortais!

MERCEDES SOSA: A VOZ DA AMÉRICA LATINA

La Negra: para mim, um dos maiores símbolos do ser latino-americano de todos os tempos. Choro por dentro e por fora toda vez que escuto a canção SOLO LE PIDO A DIOS, que tocou em tons solenes no dia da minha colação de grau em Letras. Argentina de lutas e de voz incomparável, entoou hinos à democracia e, também, contra os desmandos sociais e de falta de humanidade de todas as espécies. A voz mais marcante, a mulher cujo rosto carregava toda a sombra de dor de um povo e, ao mesmo tempo, todo um embornal de esperanças. O documentário MERCEDES SOSA: A VOZ DA AMÉRICA LATINA (2013), dirigido por Rodrigo H. Vila, emociona ao revelar um pouco mais da artista de importância extrema para a história política e cultural da América Latina. Recomendo a todos os mortais!

O PEQUENO PRÍNCIPE

O PEQUENO PRÍNCIPE (2015), dirigido por Mark Osborne, é um filme muito bonito sobre o clássico de Saint-Exupéry, muito bonito mesmo. Bem trabalhado nos mínimos detalhes, com uma forte crítica ao modo de vida mecânico da humanidade, que deixa de lado a imaginação das pessoas e a poesia das coisas da vida. Recomendo a todos os mortais!

HORROR EM AMITYVILLE

De bom mesmo, só tem o título. HORROR EM AMITYVILLE (2005), de Andrew Douglas, é um filme do gênero terror sem grandes atrativos.

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO

Espanto-me com a beleza deste filme cada vez que o assisto. Dias atrás, ao lado de meus alunos... A reação deles ao final: todos de pé numa salva de palmas, alguns visivelmente emocionados. Bonito de ver. Por isso só, especial. A escola da vida imperando sobre tudo e todos, a verdade da vida no ensinar dos passos. QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (2008), dirigido por Danny Boyle, merece uma boa dose de nossa atenção. Recomendo a todos os mortais!

CADA UM NA SUA CASA

Gosto de animações, já é sabido. CADA UM NA SUA CASA (2015), do diretor Tim Johnson, não é lá um tesouro do gênero - longe disso -, mas passa uma mensagem interessante, os personagens Boov usam um linguajar muito interessante em termos de colocação pronominal, além de ter a primeira protagonista negra da DreamWorks Animation, o que é um fato por demais significativo. Sigamos!

20 ANOS SEM RAUL SEIXAS

Nos dois anos em que morei em Salvador, presenciei fãs do Maluco Beleza subindo as ladeiras do bairro de Brotas em cantoria emocionada em dias de aniversário do grande ídolo, todos indo em direção ao cemitério onde este ícone do rock mundo-nacional está enterrado. Era um momento muito bonito de se ver e ainda deve ser igual. Raul Seixas dispensa comentários. O vídeo-documentário 20 ANOS SEM RAUL SEIXAS (2009) revela um pouco da essência deste sujeito sem igual. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem:  http://nilljunior.com.br/blog/hoje-tem-sessao-gratuita-de-cinema-cineclube-alternativo-sao-jose%E2%80%8F-2/

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

As coisas são mais que seus nomes

*
Por Germano Xavier

título retirado de um verso do poema RUGIDO, de Daniela Delias


um nada de convencionar-se,
um oposto que está dito,
um qualquer susto no silêncio,
um ademais por detrás da amurada
ou dentro da água móvel do tempo.

que o índice dita o sentido que se altera,
que o símbolo pronuncia a doença vã da dor.
e mesmo quando em vida e mesmo que espera,
o impreciso de tudo aclara-se em rega, adubador.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/verao-das-musas-116114835

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Segunda-feira, 22/06/2015
O simples amor

L’amour simple

mon amour immaculé
unique matière insaisissable

impossible de se faire arrêter
d’être manipulée ou détruite

mon amour
mon ciel aux proportions idéales
tunnel aux abîmes
accès de révolutions

d’amour


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Love-32586824

sábado, 22 de agosto de 2015

Sempre e para sempre

*
Por Aparecida Izídio e Germano Xavier

para Francisco Izídio, in memoriam


No começo da caminhada de agora já em fins de partida, quase não parei para perceber que seria assim, ou melhor, que poderia ser assim desse jeito meio que doído, com essa força que sufoca o peito e que não alarga o tempo nem afasta o temor. Em minhas lembranças mais vivas, lá estava ele, sempre, portentoso como uma aurora inteira de brilhos a matinar invernos e verões. Era sempre e para sempre será. Decerto, um homem simples, do campo, sem escola ou com quase nenhuma - cursou até a 3ª série primária, dizia isso com orgulho! -, que tinha por mim e por minha vontade de aprender a maior admiração possível de se imaginar.

Os tempos nunca foram fáceis. A lida era diária e oprimia até os mais rijos músculos e pulsos vitais. Mas as lembranças... jamais, elas nunca morrerão. Levava-me à escola, aquele homem, como quem adiantava a visão do paraíso para a filha querida. Ajudava-me a atravessar o rio. Em época de enchentes, colocava-me no colo e seguia titubeando com os pés descalços sobre as pedras e pequenos troncos para que eu não perdesse a aula do dia, para que eu não sujasse os pés ou simplesmente para que eu pudesse chegar.

Incentivava tudo o que eu fazia. Confiava que era sempre o melhor a ser feito, sem entender ao certo os motivos. E foi sempre assim. E continuou sendo assim. Durante dezessete anos moramos em uma casa muito humilde, eu partilhava de todos os seus medos, sentia as suas necessidades, queria que fosse diferente. Uma filha que funcionava como se fosse o próprio coração do pai. Sabia que eu poderia ser a chave da mudança. Acompanhava-o à feira livre, ao mercado, nas negociações de galinhas, ovos, carvão. Nem sempre gostava do que via ou ouvia. Até hoje guardo muitas imagens mentais. Impossível esquecer.

Eu queria protegê-lo. Queria que minha mãe soubesse que ele tentara trazer mais coisas na sacola. Nem sempre acontecia o entendimento. Assim, das cinco filhas, fui crescendo a mais preocupada, adulta antecipada. Estudava o tempo todo, os livros eram minha companhia. A insônia assolava a janela do meu quarto. As estrelas encantavam. O céu era lindo. Quando tinha lua, eu passava longo tempo sentada à janela. Não queria perder a luz da noite. Não tínhamos energia elétrica, não tínhamos televisão e as noites passavam a passos lentos. Meu pai levanta-se às 4 horas, fazia o fogo, preparava o café, ia ao meu quarto. Eu ouvia sempre a mesma alegre reclamação: “Ainda não dormisse?”. Corria para o café. Contávamos umas histórias curtas, eu voltava a deitar. Ele ia tirar o leite e na volta me acordava.

Assim dividíamos nosso tempo, como a estarmos num passeio calmo por uma campina de verde sereno. Ele foi a pessoa que mais me teve. Não fazia nenhum esforço para que fosse assim. Não fugia dele! Um dia ele comprou um lampião e deu-me de presente para que eu fizesse as tarefas à noite - agora, estudava durante a tarde e ajudava na queijaria que tinha perto do sítio.

Fui para a faculdade. Chegava tarde. Ele ia me encontrar na porteira. Agora, tínhamos energia elétrica e ele piscava a lâmpada para dar sinal e para que eu não tivesse medo. No caminho, contava as aprendizagens, as brincadeiras, sobre as amizades. Ríamos. Segui os estudos, ele mal percebeu. Raramente falamos sobre. Ele não entendia, não sabia o que era nem para que serviriam tantos diplomas. Não compreendia a razão da minha ausência. Tentei explicar o que era, o que fazia, o que poderia proporcionar, mas ele, vez ou outra, tornava a questionar as viagens, a quantidade de livros. O tempo. Se não já bastava o emprego, a faculdade.

Hoje, depois de sua ida para o paraíso dos grandes e honrados homens, acredito que eu só deveria ter dado tempo. Não consegui contar histórias durante todo esse percurso, os risos diminuíram, as responsabilidades foram mais severas, a minha fragilidade deu lugar à fuga. Após sua viagem, percebi toda a crueldade do tempo. No fundo, sempre quis que ele me admirasse, apenas isso.

E no fim da jornada de agora já em começo de fins, quase não parei para perceber que seria assim, ou melhor, que poderia ser assim desse jeito meio que sofrido, meio que pendido na direção da tristeza, mas uma tristeza luzidia, com essa força que abraça o peito e que fabrica ainda mais amor. Em minhas lembranças mais vivas, ele estará lá, sempre, portentoso como uma aurora inteira de brilhos a matinar invernos e verões. Sempre e para sempre.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/River-394087741

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A estrada

*
Por Germano Xavier


você quer acelerar, vencer o tempo, matar a distância. você pensa. você age. você acelera. mas o carro é fraco. você é forte. mas o carro não é forte. você é forte. você acelera. você não vê resultado algum. você se sente fraco por acelerar sem piedade, apertando fundo o pedal contra o assoalho do carro. o tempo vence você. a distância mata você. você pensa. você não sabe o que fazer. o carro é fraco. a estrada é comprida. o horizonte é distante. o coração pulsa. o corpo se altera. o pensamento se atordoa. você olha para uma nuvem no céu. você se espanta, sente medo por um instante, revira o olhar, reolha, vira-se para o relógio no painel do carro, você está lento, queria correr, devastar a vastidão, você queria, mas o carro é fraco, a liberdade é longe, o céu é infinito, você é forte. você pensa. você quer fugir. você não quer ficar. sente uma vontade de ir em frente, dobrar a curva que se anuncia, você quer a reta destruída, a linha de chegada, alguém para segurar a fita do final, alguém para aplaudir o seu feito quando extenuado você descer do carro e esboçar um sorriso de glória. você sente saudade de alguma coisa. quer acelerar, gerar história, contar todos os seus ânimos. você quer chegar. você se declara ao espelho retrovisor central. de fato, você quer a consagração. você afunda o pé no acelerador. mais, mais e mais. você ignora as regras de trânsito. você trafega. mas o carro é fraco. você é forte. você imagina. você se encanta com a possibilidade. quer a aventura de ir. você precisa durar mais que a hora. você se volta ao mundo. repara. você leva um tempo para perceber. você sofre. você nunca mais. você poderia. vê o câmbio, aciona a embreagem, troca de marcha. você quer marchar. você teima, insiste. você vê placas. são amarelas, azuis, verdes, toda-cor. setas indicam caminhos. pontes, viadutos, canais, ruas, avenidas, semáforos, guias, calçadas, pessoas, árvores, postes, animais. você olha para uma moça que passa vestida de supermercado. você olha para a criança indecisa do outro lado da pista. você atropela uma carreira de formigas saúvas. você não é mal. você nem sabe que acabou com todo um formigueiro. você quer acelerar. você acelera. mas o carro é fraco. o carro não responde. o carro sentencia você. a vida é tão curta. você pensa. você poderia estar lá. você se anima novamente. viver é prematuro em você. você começa. você não tem pena. você mira o pedal direito. acerta-o em cheio. você quer acelerar, abocanhar o tempo, desdenhar das distâncias. você não pensa. você não age. você não acelera. o carro não é fraco. você é fraco. o carro não é fraco. você é fraco. você não acelera. você não sente nada por não acelerar, não aperta fundo o pedal contra o assoalho do carro. o tempo vence você. a distância mata você. você nada pensa. você não sabe o que fazer. o carro é forte. a estrada é comprida. o horizonte é distante. o coração pulsa. o corpo não se altera. o pensamento erra, perde-se. você olha para uma nuvem no céu. você não se espanta, não sente medo do desconhecido, revira o olhar, reolha, enxerga o relógio preso ao painel do carro sob o volante, você está devagar, não quer correr, não quer devassar a imensidão, mas o carro é forte, a liberdade é longe, o céu é infinito, você é fraco. você pensa. você não quer fugir. você quer ficar.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Anti-Road-105338294

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Cansaço de amor

*
Por Germano Xavier


eu queria um fim indolor
(matar-te súbita e definitivamente
como faço, de costume,
com tantas pessoas),
mas não há fim quando
é você que está dentro.

quando você está
só há uma continuação de querer,
insana e sem motivos,
desejo sem esperança,
um cansaço de amor.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Nocturne-301430138

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 26/05/2015
A doce introdução

La douce introduction

je pourrais conter les heures
faciles et individuelles de mes silences
les déchirer, éventuellement, et même, par moments,
les haïr, comme des phares trop pleins bondés de nuit.

je pourrais les attraper au vol
dans une quelconque rue froide, craintif,
les voler à l’enfant gai qui court dans le boulevard,
pour les remettre au vent en criant aux cieux :
le bleu, le bleu !

pourtant, même avant que les visages intenses
de la mort, journaliers, impétueux,
me déchirent la peau, je me plie en refus
ici et maintenant:

et je deviens plus intense, je me renouvelle
le jour est parti, mon cœur ne veut plus qu’un rêve , une intention
vers toi, dans le sens de ta plastique direction


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Mother-On-The-Other-Side-554285912

sábado, 15 de agosto de 2015

Maricotinha

*
Por Germano Xavier


A moça do outro lado parecia feita de flor. A delicadeza em pessoa. Uma pluma. Fiquei imaginando a frivolidade de seus desejos, a superficialidade de seus conceitos, as frescuras de seus hábitos - Preconceito? Que seja... Nas palavras - eram poucas -, transbordavam os comuns lugares. Admiro até quem não tem o seu lugar, mas não admito quem só se esconde assim, em meio ao nada. O tom imperativo só mostrava a que condição a florzinha estava acostumada: mandar e choramingar quando não obedecida. A vida passou longe. Experiências nulas. Visão curta. Coração verde. Um arbusto, sem raízes no chão da existência humana. Um lago raso, sem vida dentro. Ainda. A menina vomitava intelectualidades com ares de especialista. Só convenceria aos incautos. Mas parecia confiante. A ignorância sobre si é a melhor de todas. Bom seria sabermos apenas o que temos de bom, de melhor, de menos maculado em nós. Ah, como a inocência é invejável! A ignorância é mesmo uma dádiva. Especialmente sobre nossos defeitos. Mas a menina insistia. Eu não. Cansei-me em um minuto. Nunca mais a verei. A menina. A mulher? Do outro lado da tela. 


* Imagem:  http://chriseastmids.deviantart.com/art/You-are-my-favorite-kind-of-self-harm-495755918

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Acidentalmente

*

Por Germano Xavier

O corpo todo doendo. A alma também. A vida dói em ondas. Dores de ser. Dores de não ser. A dor de sonhar é ainda mais forte. Apocalíptica. Medo de não chegar lá. Lá onde? Medo de não querer mais chegar lá. De não ter mais combustível. Combustão. Coração parado. Motor morto. Morte lenta. Morte súbita. Morte imperceptível. Da alma. Cabeça doendo. Pensamentos em confusão. E ela ainda não falou comigo esta noite. Ela deve estar... O que é mesmo que eu preciso fazer ainda hoje? Dor de cabeça. Tenho certeza de que é algo importante. Não vou tentar lembrar. Maldita agenda. Nada escrito para hoje. Mas tenho certeza de que tenho algo importante. Vou tentar dormir. Preciso tentar dormir. Ela me disse que está feliz. Ela nunca está feliz. Prefiro ela assim. Ela é mais ela quando não está feliz. Como eu. Somos assim. Mesmo quando acidentalmente felizes. Sim, nossa felicidade é acidental. Incidentes, eventos que nos deixam acidentalmente felizes. No mais, a insatisfação sempre vem. A vida. As impossibilidades, as injustiças, o caos. O amor. A falta de. Tudo dói quando o coração é sensível. A dor do mundo também é minha. É nossa. Ela e eu sabemos que não podemos sorrir a vida. A vida dói. A vida só é salva pela sua beleza rara e em raros casos. A beleza da vida nos salva da vida. Quase sempre. Às vezes não. Às vezes morremos sumariamente. No caos da vida, ressuscitamos diariamente. 


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Tomato-and-Cup-2-553561144

domingo, 9 de agosto de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte VII)

*

Meu querido amigo,

Aqui estamos nós prolongando deliciosamente este convívio sem pausas. Amizade é uma coisa sem interrupção, que mesmo quando está no modo de economia de energia continua a funcionar. 

Pegando-te na palavra, deixa-me dizer-te que eu estou bem, melhor ainda quando me solto entre estas linhas que vão direitas a ti e que me ordenam as ideias. Reparei num pormenor curioso, coisa minha, de prestar atenção a detalhes inócuos: ao copiar parte da tua carta, deixei escapar uma letra e por lapso meu o meu nome “Clara” transformou-se em “Iara”. Pensei que poderia ter sido outra pessoa, que mais uma letra, menos uma letra, faz diferença na vida das pessoas. Como no filme “El Secreto de tus Ojos” em que o escritor escrevia no bloco-notas “TE AMO” ou “TEMO”, já não me lembro bem; sei que ao acordar aquilo gerava uma enorme inquietação na sua cabeça de criador. Passarás tu por inquietações semelhantes?

A arte do encontro, como descrita pelo nosso admirável poetinha, é essa que nós vamos cultivando como sabemos, de maneira meio coxa, disléxica, mas sempre próxima e carinhosa. Como sabemos e podemos. 

Eu não conhecia a “política do café com leite”, mas sei que esses joguinhos malandros se usam muito, fazem parte da estratégia e das alianças políticas e comerciais, existem entre empresas, partidos políticos, países e regiões. Modernamente chama-se a isso “tráfico de influências”, expressões suaves para amenizar o impacto negativo do conceito que lhes deu origem. Dir-se-ia que política nos dias de hoje é mais uma forma de expressão do poder económico e pouco tem a ver com ideologias, princípios ou filosofias. É um programa de ação que se vai adaptando às circunstâncias e ao momento global (soa bem, não é?), um discurso feito à medida de quem o ouve, que utiliza as mesmas estratégias de marketing que uma empresa de lacticínios ou uma marca de roupa. Estarei a ser demasiado radical?

A nossa paixão comum pela vida, pelas coisas simples e palpáveis, que tu tão bem sublinhas, é a mesma que leva os teus pais a partilharem esse momento da xícara de café (que nós por aqui chamamos chávena; xícara é considerada quase um arcaísmo, embora tenha uma sonoridade deliciosa, insubstituível) com pontualidade e regularidade britânicas. São rituais que nos ajudam a ter uma vida regrada, doce, e a eternizar momentos de partilha em que nada precisa de ser dito. Esse é o objetivo máximo da comunicação, não é? 

Já deves ter reparado que estou a ganhar coragem para enfrentar o teu desafio maior, quando me pedes para explicar o que é o amor. Entretanto deixa-me falar desse café ou outra bebida que tomaremos juntos, já sei até onde vai ser: em Évora, em companhia da nossa fotógrafa de eleição, guia turística e cozinheira de mão cheia. Como sabes este fim-de-semana foi dedicado a conhecer a região: Évora, Évoramonte, Estremoz e toda uma série de herdades e vinhas ali à volta. A Cristina é uma cicerone única, que vai explicando o caminho a casa passo. Ela conhece ao pormenor a região que se fez sua companheira há décadas e em cujo isolamento encontra um abrigo e uma tela de fundo para os dias. 

Lá estivemos, várias meninas, moças-senhoras conforme a luz do dia e ao ritmo da conversa adolescente. Com a minha família, um exército de mulheres, e a Cristina, vasculhámos tudo o que a região tem de mais belo, ficando ainda muito por descobrir, segundo ela. Provámos dos melhores vinhos, comemos pratos caseiros feitos por mãos de fada e passeámos entre gentes acolhedoras e gentis. O povo lá é assim: o vendedor da feira de Estremoz que diz às senhoras e meninas que a coisa mais bonita que ali tem não é a sua mercadoria mas as clientes que por ali passam; um outro que faz negócio com a Cristina mas diz que não precisa de pagar logo, paga quando voltar, daqui a quinze dias; um agricultor-vendedor que explica todo o processo de reprodução do abacateiro, com a maior das gentilezas, roubando tempo à venda. E uma fila de trânsito que se forma só porque uma condutora resolveu parar para conversar descontraidamente; a Cristina diz-me: “Aqui é assim! Ninguém buzina; se fosse em Lisboa já estávamos todos aos gritos!”

Mas Évoramente foi a paisagem que nos encheu os olhos da alma de matizes várias, fomos lá roubar a luz do dia e obrigar o sol a esconder-se; fotografámo-lo sem piedade, captámos toda a luz do local, cada pormenor das casas caiadas, das telhas e do piso, das paredes desgastadas da velha igreja, das muralhas, do cemitério. Sempre com a Cristina no comando e um gato tímido seguindo os nossos passos. 

Há uma curva perigosa no caminho; creio, aliás, que o são todas... Depois de ultrapassá-la sentimos que valeu a pena correr alguns riscos para aceder a tal paraíso. Este é um dos sítios onde nos farás companhia, isso é ponto assente. E depois imaginei que a nossa comum amiga, leitora e intérprete de exceção poderia muito bem cantar uma morna sob aquele céu muito azul sem limites. Já imagino a Sant’Ana com os seus cabelos côr-de-fogo e voz suave e dolente a desafiar a quietude alentejana. Creio que vamos ter que criar esse momento. Creio que o gato que toma conta de Évoramonte, ou do seu centro histórico, se encarregará de passar a mensagem.

Mas não penses, meu amigo, que fujo à tua interpelação. O amor? Se te disser que não sei, não vais acreditar. Mas saberá alguém explicá-lo? Eu sei o que é afeto, desejo, vontade de estar próximo, de fazer coisas com alguém. Carinho, admiração, cumplicidade, intimidade, medo, insegurança.

Febre, paz, relaxamento total, sensação de entrega e abandono. Respeito, confiança, um doce hábito que se cultiva. Se o amor tiver alguma relação com isso, sou capaz de tê-lo visto de longe. Caso contrário, pode ser só uma construção dos poetas, uma criação literária, destinada a complicar a vida dos mortais. Será? No dia em que soubermos exatamente o que é amor, terá ele ainda algum sentido?

Agora devolvo-te o desafio, passo a bola, e entrego-te nas mãos a granada com a espoleta ativada. Desenrasca-te, como se diz em terras lusas.

Fico-me por aqui, amigo de regiões quentes e cheias de memórias, que um dia partilharemos sob um sol alentejano. Ou baiano. Ou luandense. O que não sendo igual, poderá ter efeitos semelhantes. Haja chapéu de abas para tanto sol!

Um beijinho muito grande aqui desta Europa do Sul, tão perto de África que com ela se confunde.

Clara
Lisboa, 23 de Julho de 2015


*

Clara,

A amizade nossa enraizou, entrou pela terra, bebeu da seiva da vida verdadeira e agora está a cada dia gerando fecundos rebentos de luz e amor. Vejo muitas coisas bonitas criadas por nós dois, e por nossos outros também, que se proliferam vivos a nos aumentar em volume e vidência, desde o momento-instante em que demos o primeiro passo entre as palavras e os pensamentos. Você, sempre generosa, abriu vestíbulos de sol para que eu pudesse aprender a ser mais e, sendo, auxiliou-me também em minhas caminhadas de olhares sobre tudo no mundo.

Realmente, Clara, como é deveras interessante este teu colocar-se. Como uma mísera letra pode conturbar um presente feito de tempos de memória. Iara certamente não é você, mas bem que poderia. Mãe d’água no folclore brasileiro, personagem lendário de beleza fascinante, sereia Uiara encantadora dos rios que apaixonam os homens, você nas entrelinhas, mãe dos meus dias leves de alegria e sol.

Durante o processo de criação de poemas ou textos em outros gêneros, vez ou outra fico a contar letras, sílabas, escandir versos, testar sons de desfecho, tudo no desígnio da procura da palavra ou da expressão que julgo perfeita. E, de novo, percebo como cada palavra tem o seu lugar dentro de um texto. Existem palavras que não cabem em poemas, mas adentram bem as prosas e vice-versa. Dizem as más línguas que uma letra ou palavra no lugar certo ou errado pode mudar o mundo, e eu sou daqueles que acreditam piamente nisto. Como escreveu nosso Carlos Drummond de Andrade, mestre dos magos da poesia, temos a "obrigação" de penetrar surdamente o reino das palavras, respeitá-las, admirá-las e usá-las com o pulso necessário para as grandes revoluções humanas, mesmo as mínimas e diárias.

Não, Clara, você não está sendo radical. Acredito que suas palavras englobam um sentimento mais que universal acerca do que vem acontecendo mundo afora em quesitos atrelados à política. É como se disséssemos: a política perdeu a política ou, ainda, não há mais política na política. A jogatina é feroz e no fim os umbigos de cada um são os fatores que mais prevalecem em termos de importância. No Brasil, a coisa não é diferente. Aqui, como diz um colunista famoso, é o país da piada pronta em aspectos políticos e parece que tudo finda numa enorme “pizza” ou marmelada. Poucos conseguem desempenhar um papel digno quando no alto escalão das esferas políticas e de governo. A maioria não está nem aí para as necessidades da população, a verdade é esta. Tem muito de senso comum no que escrevi aqui, eu sei, mas o sistema assim gira e vai e segue.

Sobre o Amor, Clara, também não ouso. Cada um de nós tem seus motivos, cada qual sabe a dor do amor, a sua delícia, o seu tom no diapasão da vida. Eu não sei de quase nada sobre ele, apenas imagino-o. Sonho com ele, quem sabe, um dia, aquela coisa de proporções invislumbráveis a nos deter as vistas mornas dos dias. Enfim, fico também com a incerteza da resposta e a prontidão da espera, já que o tal-imenso nos acena os pulsos mais esplendorosos sempre que.

De pronto que sim, Clara, é na simplicidade de nossas rotinas que construímos os alicerces para uma bonita caminhada. Meus pais possuem há muito o ritual do café da tarde de que lhe falei. E por falar em pais, hoje comemoramos o Dia dos Pais aqui no Brasil – em Portugal também? Tem um quê de intuito comercial a fomentação de tais marcos, todavia não tem como ficar impassível diante das significações oriundas da presente datação.

Meu pai sempre foi a minha maior referência. Meu pai, como escrevi certa vez num texto há bem uns 7 anos, “queria dar tudo de presente, entregar o mundo inteiro, a alegria toda do mundo, a vida ou qualquer coisa assim de verdadeiro”, a mim. E continuando num gesto de, reproduzo cá embaixo um pouco do mais textual em sua homenagem, numa voz minha para ele em lembranças: 

“Filho precisa ser”, pensou. E lembrou de quando furava a parede da garagem para construir a rede da brincadeira de bola no ar. O irmão era maior e, por vezes, vivia em outro mundo. O mais novo fazia castelo modelando tijolinhos de barro molhado com caixinhas de fósforo por detrás da casa, quintal de mangueira que já não existe mais. Ele aprendendo a caminhar sozinho, amparado. O filho subia o pé e era como subir ao sonho. Nas costas, sempre a figura de proteção dele, dizendo “cuidado” sem privar da liberdade certa. Era amor e não era outra coisa. Emudeceu por um instante. Pensou: “Eu não seria nada se não fosse meu pai”. Ou quase nada, porque tinha a mãe também. Depois lembrou dele com aquela velha faquinha insubstituível modelando com mãos de Deus a futura prótese, perto do jardim, raspando raspando raspando, construindo sorrisos de gente, colocando sorrisos na gentes, restaurando sorrisos perdidos, de gentes também perdidas, no meio das rosas e das plantinhas verdes da mãe. Era puro encanto. Aquelas sobrancelhas arqueadas, quase sem, diminutas, a calvície que sempre foi, o olho manso de quem tem o coração bom e a alma limpa, modelando com o foguinho de álcool, prudente, fingindo uma sisudez que era mais o liame de toda uma vida de sacrifícios para agora estar ali, todo de branco, direto do Pernambuco mais seco, mais sofrido e azedo, ostentando uma missão de honra e honestidade. “Meu pai é o maior homem do mundo”, o filho matutou. E olhava-o de longe, de perto, o tudo em nós que havia, o cheiro ocre dos produtos com nomes catastróficos misturado a alicates e brocas, um ar blasé atmosférico no fim da tarde, quase barroco, agudo, hora de fechar o engenho e tomar o banho merecido. Cirurgião Dentista de ofício, o velho era mesmo sábio em amar. Amava sempre quando ligava o chuveiro quente para o filho menor, dizendo mais uma vez “cuidado, use o chinelo”, para no outro dia se poder ir ao mercado fazer a feira e organizar produto por produto na hora da volta, rótulos bem visíveis, tudo muito organizado, tudo muito. Era mesmo um pai em excesso. Um pai que não conseguia ser pouco. Pai sem plágio. Amava no dia em que o escorpião picou a noite do pé branco sobre a Iraquara de lembranças. Ele dormindo e o filho mais novo pensando no presente do pai. Queria ser o autor do texto e resolveu e foi. Subverteu a ordem lógica das coisas e seguiu, pertinente, sabedor das hierarquias. Lugar de rei é lugar armado de uma beleza moral torcida em flor. O filho, crescendo e oblíquo, fingiu a discrição e quis a vulgaridade regada a palavras. Pensou: “Não sei fazer outra coisa senão escrever...”, e pensou mais um pouco. Não precisou de venenos, licores, cigarros. Foi o exemplo e espelho. “A gente aprende que, como o espinho, a pétala também fere”, com os seus botões, ensimesmado. O pai ensinou que a vida é vontade, que se precisa ir com garra, sem atropelar ninguém, e defendeu defendeu defendeu a cria. Não sabia ele que o filho já pedira muito aos céus a felicidade e a vida longa, que o filho já chorou muitas vezes com medo de qualquer coisa de mal, que o filho jurou ser coisa boa no mundo, orgulhar um coração que cabe um universo inteiro.” 

Está aí, moça bonita, uma espécie de amor que conheço. Um amor que atende pelo nome de Carlos Adailton Xavier, ou simplesmente “painho”. Meu pai é uma de minhas maiores saudades, Clara. E você, do que sente saudade?

Sendo assim, deixo-te um carinho.

09 de agosto de 2015, Caruaru de um Pernambuco Manguebeat.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XIX)

*
Por Germano Xavier


BONEQUINHA DE LUXO

Há tempos queria ver Audrey Hepburn interpretando a festeira Holly Golightly, no famoso drama romântico hollywoodiano baseado em romance do grande Truman Capote, grande mestre do New Journalism norte-americano. E até que pude assisti-lo, enfim. BONEQUINHA DE LUXO (1961), dirigido por Blake Edwards, é um clássico com passagens emblemáticas e referências luminosas. Merece nosso tempo. Sigamos, bucaneiros!

O NEVOEIRO

O NEVOEIRO (2007), dirigido por Frank Darabont, é um filme de terror baseado num conto de Stephen King. Talvez, tal referência já indique a certeza de uma boa história assustadora. Com algumas ressalvas, o filme agrada aos amantes do gênero. Os jogos de poder e as discussões acerca da fé dão o tom em meio ao desconhecido. Depois dele, impossível olhar para um supermercado da mesma maneira que antes. Sigamos, bucaneiros!

THE WALKING DEAD

Confesso que não sou fã de séries, novelas etc, de quaisquer natureza. Tenho pouca paciência para o lento (e proposital) desenrolar das ações típicas de tais produções midiáticas. Todavia, THE WALKING DEAD, criado por Frank Darabont, tem me chamado a atenção nos últimos dias (já vou entrando pela quarta temporada). É uma empreitada muito bem feita, que mexe com muitos assuntos interessantes ligados à natureza humana. Não é só drama e terror, tem muita coisa aproveitável. A série é baseada numa graphic novel de muito sucesso mundo afora. Vale a pena dar uma conferida, bucaneiros!

AS TARTARUGAS NINJA

Eu já não gostava muito do desenho animado homônimo quando pequeno. O filme comprovou: não sinto nenhuma empatia para com o leitmotiv das aventuras ficcionais destes sujeitos verdes comedores de pizza e habitantes do esgoto, cujos nomes fazem alusão aos grandes artistas renascentistas italianos Leonardo (da Vinci), Rafael (di Sanzio), Michelângelo (di Ludovico) e Donatello (di Niccoló). AS TARTARUGAS NINJA (2014), dirigido por Jonathan Liebesman, é um filme de ação completamente desprezível. Sigamos, bucaneiros.

MEU PASSADO ME CONDENA 2

Já tinha vista o 1. Vi o 2. MEU PASSADO ME CONDENA 2 (2015), dirigido por Julia Rezende, é um besteirol brasileiro e fica por isso mesmo. O que há de melhor no filme são as imagens bonitas de um Portugal rural. Quem vai encarar?

BESOURO – NASCE UM HERÓI

BESOURO - NASCE UM HERÓI (2009), dirigido por João Daniel Tikhomiroff, é um filme nacional que narra a história de Manoel Henrique Pereira, o "Besouro", que nasceu na Bahia em 1897. Na década de 20 do século passado, os negros ainda eram tratados como escravos no Brasil, mesmo depois da abolição da escravatura. Ao defender seu povo utilizando a filosofia da capoeira, Besouro termina sendo um grande exemplo de justiça, lutando contra toda forma de opressão e preconceito. Há tempos eu queria assisti-lo, mas só agora pude. As cenas foram gravadas nas cidades baianas de Cachoeira, no Recôncavo, e de Igatu e Lençóis, na minha natal Chapada Diamantina. Mais um grande personagem brasileiro que precisa ser (re)conhecido. Recomendo a todos os mortais!

TREM NOTURNO PARA LISBOA

TREM NOTURNO PARA LISBOA (2013), de Bille August, narra uma insólita aventura vivida pelo professor Raimund Gregorius que, após conhecer uma estranha moça em uma ponte em Berna, resolve seguir pistas de um livro misterioso escrito pelo médico português Amadeu de Almeida Prado. O professor termina abandonando suas aulas e sua comportada vida para entrar no universo episódico da Revolução dos Cravos portuguesa, ali nos idos de 1974. O filme é belo, muito bem feito, tem conteúdo, mas achei que se perdeu nos últimos 30 minutos. Fica vago, definha-se em si mesmo e não se pronuncia. Mesmo assim, há méritos. Recomendo a todos os mortais!

MINIONS

Engraçadinho só até a metade, depois tornou-se chato até demais. MINIONS (2015), dirigido por Pierre Coffin e Kyle Balda, é apelação. Mais um. Só isso.

COPA DE ELITE

Mas que mer...cadoria é esta?! De 0 a 10? Marque aí um - 5 para este COPA DE ELITE (2013), dirigido por Vitor Brandt. Um verdadeiro fiasco em forma de produção cinematográfica, a la seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo 2014. Não deu para assisti-lo até o fim. Que desperdício!

O PEQUENO NICOLAU

O PEQUENO NICOLAU (2010), do diretor Laurent Tirard, retrata a vida de um garotinho pacato que leva uma vida aparentemente tranquila ao lado de seus colegas de escola. Certo dia, Nicolau começa a suspeitar que sua mãe está novamente grávida, fato que, para ele, fará com que todas as atenções de seus pais se voltem para o novo rebento. Nicolau, diante de tal panorama, começa a elaborar estratégias mirabolantes para impedir que o seu possível irmãozinho vingue. Tudo isso até descobrir que... (eu não vou contar o final!). O filme é garantia de risos e boas surpresas. Muito bem feito. Fotografia cuidadosa. Recomendo a todos os mortais!


Imagem: Google.

Insustentável

*
Por Germano Xavier


eu não te leio antiga,
picadas, mordidas, vertigens, arritmias.
leio tudo (como quem pisa em brasas
porque precisa chegar em casa),
você eterna desde sempre.

posso com isso? você me faz não poder
com muitas coisas e me faz poder tudo.

engulo tuas letras todas com água de amor.
como até as migalhas que caíram no chão
enquanto as peneirava. encontro-as, escondo-as,
invento histórias de que eram para mim (desde sempre)
e que não caíram por acaso de tua mesa literária

letras caídas, em fuga? de teu poético fogão,
brinco de escrever histórias na lousa do tempo
que não passou. tua proximidade me assusta.
tua ausência me assusta (sou grito distante, sou voz rouca).
habito o vão entre nós dois numa fuga contraditória
(fujo de ti para ti), vivo entre tuas sombras
e carrego o fardo de ser nada: o tudo que me mantém.
a leveza do nunca ser não nos sustenta.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Fog-551789939

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Eventos flutuantes

*
Por Germano Xavier


A corrida

A corrida de hoje foi repleta de pequenos e agradáveis incidentes. Enquanto corria na avenida, em direção ao ginásio onde corro ao redor do campo de futebol, um rapaz, que tinha acabado de estacionar e descer do carro próximo a um supermercado, de repente começou a correr do meu lado, brincando, repetindo os gestos, como quem diz, vamos lá, garota, isso aí, força! Eu fiquei tão surpresa que não consegui falar nada, só continuei correndo e sorrindo para ele. Foi uma sensação gostosa. Um gesto de leveza, finalmente, nessa correria louca que é a rotina de cidade grande. Tão humano, o bom humor. Gostei dele. Confesso que me senti muito melhor para continuar a noite. No ginásio, depois da corrida, parei na academia ao ar-livre para observar os equipamentos. Tenho pensado em começar a usá-los também. Não gosto de academia fechada, muita gente amontoada no mesmo espaço. Nada de privacidade. Isso me incomoda muito. Prefiro exercícios mais livres, com espaço e ar puro de sobra. Enquanto lia as instruções para usar os equipamentos de ginástica, uma mulher se aproximou e comentou que eles eram ótimos e ela estava adorando os efeitos que já observava em seu corpo. 

- Já emagreci dois quilos e só tem um mês que frequento. 

Teresa tem 57 anos e é uma típica mulher paulista de classe média. Mãe, profissional de educação aposentada, cuida da mãe de oitenta e oito anos e se sente a mais felizarda das mulheres que não esperam mais nada da vida, exceto sentir o mínimo de dor possível enquanto espera a degeneração do corpo e a morte. Teresa tem resposta para tudo. Frases prontas, regras da moral herdada das avós tradicionais e do senso comum já bastante ultrapassado. Católica e caridosa, considera o mundo um lugar para sofrer, mas não muito. Só quando o dinheiro não puder resolver. Para minha surpresa, ela quis saber muito de mim. Falei apenas o inevitável e resumi o essencial. Não gosto de envolvimento com quem não pretendo me envolver. No fim, ela disse que nos encontraríamos amanhã no mesmo horário. Concordei. Despedimo-nos com sorrisos sinceros de simpatia mútua. Amanhã irei correr mais tarde.


Aqui estamos nós

Aqui estamos nós. Na encruzilhada do dia. Ninguém vai nos dizer que caminho tomar. E ainda bem. Do contrário, teríamos a quem culpar quando descobrirmos que tomamos o caminho errado. Mais uma vez. Já teve a sensação de que não importa o que faça, vai se arrepender de ter feito? Já esteve entre a cruz e a espada? A cruz te culpa e a espada te mata. Mas cadê o caminho verde e tranquilo? Não é justa essa dupla opção. O que aconteceu com as mil e uma possibilidades que tínhamos (ou pensávamos ter) quando éramos adolescentes? Aos quinze anos pensamos que podemos ser o que quisermos. Aos dezoito achamos que seremos muito felizes na vida. Aos vinte achamos que sabemos o que queremos. Mas, não. Aos trinta descobrimos que nos perdemos irremediavelmente de nós. Onde ficamos? Onde nos traímos? Quando abandonamos numa esquina qualquer a pessoa idealista, sonhadora, espontânea, ousada e lutadora que éramos? Sabíamos dizer não. Sabíamos protestar. Sabíamos correr riscos e fazer escolhas pelo coração. Até que nos deixamos de fora. Até que... tanta coisa, tudo isso, nos venceu. Venceu? Deixamo-nos amedrontar. Vendemo-nos aos convenientes e adequados empregos, às conveniências de ser o que esperam de nós. Enterramos o revolucionário (o divergente, o outsider, o impulsivo, o corajoso, o autêntico nós) dentro de nós. Temos responsabilidades demais. O sonho não cabe no horário comercial. O amor não cabe no compromisso real. O que resta de nós? O que faremos de nós? Quem de nós sobreviverá? Voltemos. Quem sabe, numa esquina qualquer, encontramo-nos com quem éramos. E nos reconciliaremos. E renasceremos nós. Amém.


Dentro da música

No meio da música ela o sente, explodindo dentro, com a força de mil trovões. A música a sufoca mais do que a ausência dele. A ausência, a presença dele, a música. Luta, contorcendo a alma, nada mais ao alcance. Ele, a música, apertando-a, por dentro, nas células do coração, sufocante agonia. Quer gritar. A música o trazia em ondas, dentro. Ele, a calma, o frio, a música e o medo de um dia ele não mais estar... na música. As mãos, seu corpo. Frenética busca, no vazio... da música... mãos a apertam em dança, na música, o cheiro, lábios em disputa de espaço nas boca perdidas, na música. Arranca a pele, expõe-se ao extremo se sentir, a música, espelho de quem não vê. Ele, a música que a aperta por dentro a faz ser um som, único e universal, a espalhar-se na memória do mundo. O amor. 


Ontem

Ontem eu sonhei com ele. Novamente. Foi um sonho gostoso, como todos os outros. Aliás, tudo com ele é gostoso. Sempre. Até mesmo brigar com ele é especial. Ele disse que não sabe discutir comigo. Fiquei imaginando as tantas interpretações que isso pode ter. Não sabe discutir comigo por que sou irracional? Por que sou muito beligerante? Por que sou hipersensível? Por que sou dramática? Por que os meus constructos cognitivos estão com defeito (ele mencionou isso outro dia)? Por que ele não quer ter esse trabalho? Sei lá. Pode ser tanta coisa. Mas prefiro pensar que é porque ele não quer que nos desentendamos, nem de brincadeira. Danem-se as outras hipóteses. Eu só quero estar com ele. Não importa como. Tenho lido os seus livros; os que ele me indicou e a cada nova página, construo um pontinho na imagem que tenho dele. Ele é resultado de tudo o que viu, viveu, leu, sentiu. É, sobretudo, o resultado do que sonhou e quis realizar. É também o resultado de frustrações do que sonhou e (ainda) não pode realizar. Mas dará tempo. Eu o vejo voando muito e alto e forte e lindo. Às vezes fico pensando em como ele é especial e não sabe disso. Se ele soubesse o quanto significa pra mim! Se soubesse o que eu faria por ele, se precisasse e se me pedisse. Mas isso é irrelevante. Amar também é ficar quieto e esperar. Esperar o amor passar lentamente, perder as penas e renová-las, como a águia. O amor é insano e não considera o custo-benefício. É burro para probabilidades, orgulhoso demais para desistir e teimoso demais para voltar atrás. Ele se posta diante do pelotão de fuzilamento (os obstáculos) de olhos abertos. Consciente, implacável, obstinado, esperando os tiros que nunca o libertarão. Ontem eu sonhei com ele. 


Café

Tomar café (da manhã ou da tarde) na padaria é tradição em São Paulo. E apesar de achar o hábito estranho, acabei me acostumando. (Cozinhar não é uma de minhas habilidades mais desenvolvidas). Tenho duas ótimas padarias perto de casa e frequento as duas, com igual prazer. Quando vou tomar café sozinha (na maioria das vezes), gosto de ficar observando as pessoas que estão nas mesas próximas. Cada figura! Todo dia escolho uma pessoa para olhar mais fundamente. Observo e devaneio tanto sobre a vida, os hábitos, os gostos da pessoa (baseada em como ela se veste, como se comporta, como me olha, o que carrega nas mãos, como trata os funcionários e tantos outros detalhes) que saio de lá como se fosse íntima daquela criatura que, talvez, só exista na minha imaginação. Hoje, ao contrário da maioria dos dias, escolhi duas personagens na padaria para conjecturar sobre elas. Um homem de uns quarenta e cinco anos e um senhor de mais ou menos cinquenta anos que tomavam café duas mesas depois da minha. Este último... passei mais tempo em imaginá-lo. Um senhor alto, magro, olhar distante, cabelos já começando a ficar grisalhos (ele parecia ter a idade do meu pai e esse detalhe quase me causa uma certa culpa. Só quase). Um homem sério, tímido, visivelmente inseguro e nervosamente desconfortável com o meu insistente, apesar de discreto, olhar. Olhei de propósito, só para ver como ele iria reagir. Ele não usava aliança e parecia ser um recém-divorciado, sem namorada ainda. Concluí isso por vários motivos. Ele estava acompanhado de outro homem, mais jovem, casado (usava aliança de casado), mais bonito, mais confiante e mais adaptado àquele ambiente. A destreza do seu colega contrastava com a inabilidade do meu observado. Ele falava com desenvoltura, olhava com desembaraço para mim e para todos da padaria e sorria. Um tanto vaidoso e aparentava muita satisfação consigo mesmo. Enquanto isso, o meu observado olhava timidamente para todos os lados e baixava os olhos rapidamente, temendo ser visto. Ele apertava as mãos uma na outra freneticamente, desconsertado. Fiquei pensando se tanto nervosismo era por minha causa ou se ele era sempre daquele jeito, inábil. Parecia um rapaz de dezoito anos, virgem e inseguro. Fiquei intrigada. Se não fosse uma experiência apenas de observação, se não fosse tudo, talvez, um talvez bem pouco provável, eu fosse falar com ele, descobrir um pouco mais. Mas isso não está no roteiro e nem em meus hábitos (não que isso me impeça em outras ocasiões). Mas a questão era ficar apenas na construção de minha imagem daquele homem, no mínimo, peculiar. Ele não era feio para a sua idade. Bem vestido, formal e aparentemente bem sucedido profissionalmente, embora a sua aparência geral pudesse indicar que estava doente ou em uma crise emocional qualquer. Aparência de hospitalizado. Pálido e cansado. Os dois bebiam cerveja, mas a comunicação entre eles era precária e dispersa (o colega falava mais ao celular do que com ele). O pobre senhor parecia mais um aprendiz de alguma coisa, um incompleto e perdido homem de cinquenta e poucos anos. Ele parecia desnorteado, como se não pertencesse a lugar nenhum. Parecia sem chão. Os olhos eram tristes. Olheiras fundas e tristezas expostas. Solitário, certamente. Seu embaraço aumentava à medida que eu o olhava mais diretamente, embora ainda disfarçando, para não ficar muito evidente que era uma provocação e parecer mais uma paquera espontânea e casual. Terminei o meu café (demorei mais do que de costume, para ter mais elementos para analisar) e levantei para ir ao caixa. Precisei passar próximo à mesa dele. Fiz isso mais lentamente do que o necessário e observei se ele olharia para mim enquanto isso. Eu estava com roupa de ginástica e observei que ele olhou diretamente para minha bunda, acompanhado nesse gesto pelo seu colega (homens são homens mesmo com cem anos e tristes). Não olhei de volta. Fui para a fila e paguei o meu café, sem olhar para eles. Senti seus olhares até o último minuto. Percebi que falavam de mim. Fiquei imaginando o diálogo. Saí para a rua e para outros personagens. O mundo é grande e cheio de histórias. Só precisamos inventá-las. 


Quando acordar é um parto

Acordar é dizer sim para o dia, sim para a vida e para os desafios que virão (e como virão!). O problema é que nem sempre estamos com vontade de dizer sim. Às vezes só queremos dizer não e danem-se todos e vá tudo para a (pi pi pi pi )... Nesses dias, gostaríamos de simplesmente apagar a luz (o dia já clareou o quarto) e simplesmente começar outra noite, ininterruptamente. Dá pra pular esse dia, por favor? Talvez amanhã eu acorde mais disposta, com coragem e um pouco mais de fé em que não estragarei tudo dessa vez, que não colocarei tudo a perder como de costume. Ah, essa vontade é angústia estendida, mistura de raiva, impotência e incapacidade de mudar as coisas. São nesses momentos que descobrimos o quanto somos escravos das convenções, dos horários, do salário, dos compromissos e das máquinas.

O despertador não ajuda. Parece até que ele faz de propósito, pra nos chicotear. Nada me convence de que não há um ódio secreto contra nós e que ele tenta se vingar, bem na melhor hora do sono. E não para de gritar, a peste do despertador. Sensibilidade zero, essa coisa fria e responsável, o despertador. Até tentamos protelar o máximo aquele momento na cama (especialmente no frio), que parece bem mais gostoso do que todas as horas da noite que passamos na cama, bem mais intenso de prazer (pela rebeldia de não levantar), mas não desprovido de culpa. Então não tem jeito. É preciso levantar. No dia em que não levantamos para matar alguns leões e encarar o dia, os leões se acumulam para o dia seguinte, então fica bem mais difícil matá-los em dobro. Reagir. Abrir os olhos, planejar. Levantar. Um pé após o outro cumprimenta o chão. Cadê a energia necessária? Por que será que ainda me sinto cansada? Iluminar a mente com as necessidades do dia. O que fazer primeiro? Ah, o café da manhã. Claro. Mas não estou com vontade. A roupa para hoje? A bolsa, o celular, o caos, o inferno. Melhor nem pensar no trânsito. E lá vamos nós, na massa. Ovelhas obedientes, rebanho de bovinos semimorto. Amanhã será diferente? Bom dia a todos!


Do amor

Eu sei o que ele está pensando agora. Que grande mentira essa, que eu gosto de acreditar. Ele é tão enigmático quando o meu futuro. Mas ele é enigmático por natureza e por princípio, não apenas no futuro. O futuro dele até pode ser previsível, se ele continuar andando em linha reta como começou a fazer - sabe lá Deus o motivo, embora eu desconfie que por pressões de gente próxima. Gente que não vê que ele não é daqui e que precisa descobrir mais e mais de onde também não é. Ele não é daqui e nem de lugar nenhum onde pessoas morram. Ele é de um planeta onde as pessoas são feitas de sonhos, de carros de fogo e de monstros de bom coração. Ele é dos astros, do mar e das nuvens.

Desde que o conheci, descobri que o amor não é isso o que as pessoas falam. Não é troca, negociação e nem conveniência. Amor é destino escolhido sabe-se lá por quem, só se sabe que. Não se sabe por que se ama, desde quando, como e nem até quando. Só se sabe que e que sempre sim. Só se sabe que está lá e que é mais forte do que nós. É um prisioneiro, o amor, e nós também dele. O amor é algoz e vítima ao mesmo tempo. E quem pode negar que? Quando se arde e se respira com dificuldade quando dói e quando se pensa que nunca mais. As mãos perdem as forças, os braços caem, amolecidos e sem vontades. E deixaríamos tudo só para estar... se ao menos pudesse ser e se... Nada mais importa se não pudermos ter, no nosso espaço incorruptível de amar - o coração - a presença sagrada e provedora da luz de que a nossa vida precisa, e a visão, ainda que distante e turva, da pessoa amada.


A falta de sorriso no rosto do zelador

Matilde não é de rotinas. A única rotina de que ela gosta é aquela que ela pode mudar diariamente, nem que seja só um detalhe. Mudar o caminho para ir à padaria já é uma satisfação.

- Por que ir todo dia pelo mesmo trajeto? Aquela outra rua pode ter algo interessante que nunca verei se nunca passar por lá.

Assim Matilde vai traçando caminhos alternativos, rotas imprecisas, pequenas expedições diárias. Mais do que saber onde está, ela gosta de não saber aonde vai. Correr no parque, na rua ou no ginásio do bairro é uma diversão, um prazer insubstituível. Não apenas pela corrida, mas pelo que pode acontecer de novo e interessante naquele dia, mesmo que sejam as mesmas pessoas que estejam lá. Hoje, no ginásio, ela notou que o zelador estava mais calado do que usualmente. Ele sempre a cumprimenta com um sorriso mais enfático do que seria o apropriado para um servidor público dar a uma visitante, reconhece. Mas ela já se acostumou a gostar de receber essas boas-vidas todas as noites. Hoje não. Ele parecia triste e distante. Apenas olhou e sorriu amarelo, como se pedisse desculpas pela falta do sorriso devido. Ficou intrigada. Por pouco não foi questioná-lo. Mas, já aprendeu que a curiosidade pode trazer grandes problemas, especialmente naquela cidade, onde as pessoas costumam ser reservadas ao extremo, preservando, com caras, bocas e olhares desconfiados, suas privacidades. Foi difícil concentrar-se na corrida com essa dúvida na cabeça. Nem a música, nem o cansaço, nem o ritmo do coração já acelerado pelo esforço a fizeram esquecer aquele sorriso faltando na cara do sempre simpático zelador (qual era mesmo o nome dele?).

No campo de futebol onde corre (a pista de cascalho improvisada ao redor do campo de grama, tem sempre umas oito a dez pessoas correndo, em ritmos e objetivos bem distintos) tudo estava normal, como sempre. O pessoal da equipe de levantamento de peso no mesmo canto próximo à entrada, rodeados de seus equipamentos indecifráveis e aparentemente perigosos, sempre exibindo corpos impossíveis de conquistar e com a seriedade e profissionalismo de quem se prepara para as olimpíadas. Do outro lado do campo, os insistentes e sempre alegres jogadores de futebol, ocupando apenas a parte próxima ao gol (parece que treinam sempre chutes a gol?). Havia ainda a turma da terceira idade, sempre em dupla ou em pequenos grupos. Conversando mais do que andando (Matilde gosta de caminhar devagar atrás deles para ouvir o que estão falando), gestos lentos, olhares de desconfiança para os mais jovens. Rostos graves, como se praticassem um ato muito solene enquanto caminham. Havia também os atletas de verdade. Corredores profissionais ou que sonham em ser. Com seus corpos definidos, sarados e suados... Matilde gosta de correr atrás deles, não para alcançá-los, mas para ficar olhando para as pernas por mais tempo.

Apesar de tudo parecer normal, a falta do sorriso do zelador ainda era um mistério. E Matilde não gosta de mistérios que ela não possa desvendar ou ao menos inventar uma boa hipótese para eles. A sua lista de motivos sobre a falta de sorriso do zelador já estava chegando a dez possíveis motivos. Mas os mais plausíveis era de que ele estava doente ou sua esposa o tinha deixado ou seu filho teria sido preso por tráfico de drogas. Ou ainda, que ele estava irremediavelmente endividado ou que sua esposa tinha descoberto a sua segunda família, que ele mantinha escondido de todos por quinze anos.

Hora de ir embora e a questão ainda sem solução. Já perto da saída, reconheceu a dona Célia (ela sempre sabe de tudo e gosta de contar mais do que o perguntado) que estava saindo da academia do ginásio.

- O que aconteceu com o zelador? Parece tão triste hoje.
- Ah, ele está se aposentando. Na semana que vem não está mais aqui.


Correção

Amor, percebi que quando olho as coisas, as pessoas, as paisagens, os livros, não consigo deixar de te ver entre mim e essas coisas. É como se você fosse a lente pela qual eu enxergo tudo. Estás dentro e fora de meus olhos. Parece até que a comunicação entre meus olhos e meu coração passa (como a energia em fios condutores) por você (ou pelo meu amor por você?). Não sei como funciona esse filtro que você faz no meu dia. Só sei que (olhando sob você) percebo tudo menos cinza e até sorrio comigo quando os acontecimentos tentam me aterrar no dia. Eu olho pra você dentro de mim e te beijo, ironicamente (Veja, amor, como são idiotas! Se eles soubessem o que sabemos! O que sabemos, amor?)

E é tão bom te repetir em mim, minha vida! É tão bom te requisitar espontaneamente em tudo... e te pensar e te olhar e te expor em meu pensamento e te venerar em meu coração. É tão gostoso te iluminar dentro de mim que fico transbordando de uma grandeza imensurável. Um universo expandindo em amor. É doce e pleno. Mesmo quando fere. E você me fere. (porque o amor fere, quando é amor de ferir. Há outros). Você me fere de causar vertigens. Lágrimas e dor de cabeça? Já muitas (Não estou aqui para te bajular. Nem saberia. Estou aqui para te amar porque te amo). Mas você me fere quando não vem; me fere quando não responde; me fere quando não diz.. e quando diz... e quando escreve... para... e não... e longe e ... e escancara e ... sempre ...que possível?!

Mas então você vem e cura tudo em segundos mágicos de teu amor de amar sem mais e sem pontos. Olhos teus mágicos de amor de matar fantasmas e dúvidas e dores. Olhos de consumação, de conjugação, de amor. Em segundos você me lembra de que te amo (e por que será sempre assim) e me lembra também de que tu me... Então eu mergulho (chovendo...) em nosso amor de quase nuncas-sempre e... pode apagar a luz. 


Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Joyful-flight-551426781

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXI)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 15/05/2015
Chegada a hora

L’heure arrive

nous sommes la conscience viciée,
le vice odieux, nous sommes la distance imaginée
et l’espace parcouru,
la lumière absente, le pied entier, tout nu.

soutenons la route qui nous accueille,
n’acceptons aucune imitation. Le phare se tait
pour celui qui regarde ailleurs. La route ne nous quittera pas
même si nous partons. Regardons donc en face
Le rêve n’est pas le karma, c’est l’âme!

dans le corps, le désir (le chocolat dans le baiser, t’en souviens-tu ?)
vouloir le soleil, faire des plans de voyage, sautiller
courir en souriant, dormir, rêver (des plaisirs gratuits)
ça vaut le coup, n’est-ce pas ? ne critiquons donc pas l’amour, de grâce.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Barren-river-550932852

sábado, 1 de agosto de 2015

A douta espera

*
Por Germano Xavier

"Não me espanto em despertar no meio da água."
(Adolfo Bioy Casares)


em revolta, o amor. o mesmo amor
que me faz ser triste e que de dentro da água,
fria como a derrota, ou em guerra de amor
vencendo, atira contra meu peito a dor funesta,
como um protesto contra o absurdo,
o mesmo amor da paz solitária de nossos corpos,
insígnia dos andantes passos de sombra.

em revolta, o nada do agora. à ribalta, o amor que mora
longe das reais carências centenárias de minh’alma.
o mesmo amor que desceu com a correnteza,
dobrando-se nas invenções da culpa.

em pormenores de nós: o amor que trama,
impreciso como a hipérbole perfeita,
justo como o começo dos sonhos.

o amor.

como se à meia-noite desejássemos postular
os vis propósitos das negações
ou os fantasmas de mármore do tempo,
a nos deslocar em paralelas difusas
na beira da manta marítima das prisões.

aos fins, o que nos conta a vida tempera a peste:
corremos para a entrada em douta espera.
o amor, como o mar, desobedece os poentes.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Sea-384541491

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Escabiosa

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Por Germano Xavier


acesa em meu peito
tua mágica existência,
minha doce preocupação.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Shifting-Realities-2-The-Multiverse-Intertwined-549983963

sábado, 25 de julho de 2015

A noite é uma mordida

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Por Germano Xavier


Mais uma noite cai como um fardo. Diário, rústico e sombrio. Um fardo que, de tão extenso, pesado e lento, é ele que me carrega, e não o contrário. Solombra. Com exceção dos últimos meses, eu sempre gostei das noites. Trocaria todos os dias por elas, sem pestanejar. Dentre os seus tantos atrativos, um dos que mais gosto é a privacidade que ela nos traz. Quando o sol vai embora, finalmente todos vão para suas casas e podemos, por um tempo, tocar a liberdade. Finalmente silêncio, finalmente sombra, finalmente paz e solidão. O dia nos mistura. A noite nos individualiza (estar só é uma dádiva que só quem já desejou muito e não teve, pode compreender e valorizar). A noite é um refúgio, uma caverna de possibilidades onde, finalmente, podemos voltar à essência do que somos (viemos da caverna?). A noite tem a prerrogativa de ser um céu ou um inferno para quem precisa dela. Para mim, ela sempre foi uma companheira de fugas. Fugir do dia, pelo sono ou pelo esquecimento (às vezes pelo choro, estocado nas horas e escondido da luz do dia para, finalmente, libertar-se entre as inúmeras paredes da noite), é algo que só se consegue com a cumplicidade da dama de estrelas. A noite (ou é proximidade de nós mesmos?) traz recordações que, para o bem do nosso presente e do futuro, deveriam continuar enterradas (talvez seja isso, nos últimos meses...). Ela não poupa o cérebro, não poupa o coração, não poupa as divergências (remoemos o moinho de vento da vida inteira). A Dona Noite não poupa ninguém. Nem mesmo os idiotas. A noite é revelação em carne e osso e, principalmente, em sonhos. A noite é uma mordida. 


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/A-small-gallery-at-night-548679421

Feridas feridas

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Por Germano Xavier


na vastidão do que vivemos
(os dias correm sem nos consultar),
há algo que não nos deixa ser pó:
um rumor contínuo dentro de nós
(só o amor desafia a morte da alma).

os pés caminham para o incerto,
o coração para o único destino que conhece,
o amor é a graça de ser simples e
o privilégio das lágrimas não é dos fracos.

o amor não passa ileso
(passamos amor nas feridas
e ferimos o amor com mágoas).

olhamos além e o medo não foge.
resistimos (vamos comemorar as nossas resistências?)
e cambaleamos em sonhos.
os olhos cansados não nos deixam ver
a flor no asfalto, ao dobrar a esquina
o texto é o mesmo na boca do morto
que nos alarga a esperança
("o mais sórdido dos sentimentos?").

vagueamos em vertigens sãs.
a alma pedindo pão,
os olhos pedindo céu,
os ombros pedindo chão
(pelo correio: nuvens de papel).
desabamento de chuva sem fim:
o amor pedindo perdão.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Feet-548799621

quarta-feira, 15 de julho de 2015

As pequenas vastidões de um Diário Bordô

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Por Germano Xavier


Há tempos acompanho a escrita da “paulistana sem sotaque e paraibana de coração” Letícia Palmeira. Desde 2009, ano de lançamento de seu primeiro livro, Palmeira vem se mantendo num ritmo bastante acentuado com relação à publicações em papel, o que já a faz contar hoje com 4 livros impressos, sendo 3 livros de crônicas - Artesã de Ilusórios (EDUFPB/2009), Sinfônica Adulterada (MULTIFOCO/2011) e Diário Bordô e outras pequenas vastidões (MULTIFOCO/2013) - e 1 romance, intitulado de Sol e Névoa (PENALUX/2015). 

Diário Bordô e outras pequenas vastidões, seu terceiro livro em ordem de publicação, é, para mim, a obra-prima da escritora Letícia Palmeira dentre todas as suas produções até o prezado momento. Como a reinventar ou simplesmente como a pintar com novas tonalidades de cores o gênero crônica, com pinceladas de uma ironia que beira o desconcertante, a autora conseguiu imprimir uma voz una desde a primeira até a última página, firme e magnética, o que não aconteceu de forma plena em suas duas primeiras coletâneas de crônicas aqui supracitadas, estas mais desconexas e afetadas.

A crônica de Diário Bordô e outras pequenas vastidões, como lugar para a interação tempo/narrativa/espaço, transporta o leitor para dentro de um ambiente extremamente caloroso, ora enfeitado com a ficção que transcende o verbo ora abotoado numa trama que faz transparecer a verdade das expressões cotidianas e das situações onde o convívio é a ordem máxima das horas. Enxergamos, pois, tanto a escritora que fabrica uma realidade fotografável e lenta quanto a realidade que caminha sem freios pelos olhos cansados dos transeuntes. A fotografia mental é a literatura de Palmeira. A fotografia que desafia o simplório, mesmo não exibindo demasiados recursos. 

Há uma exposição autoral, de uma vida autoral, de uma vida comum, de seus caminhos e de seus atalhos, uma exposição que nem sempre condiz com a verdade, mas que também é característica da crônica. Marca própria de quem publica em blog - que é o caso de Palmeira -, espécie de gaveta virtual que quase sempre nos invoca ao uso de tal linguajar. O sentido do livro é o da liberdade, o do gosto pela descoberta do macro no micro, da beleza na quase ingênua rebeldia, do dizer puro entoado com as nódoas dos tempos de prontidão vital presentes em cada uma de nossas humanidades.

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 Imagens: * http://www.deviantart.com/art/Diary-75126194
** http://baixar-livro-gratis.com/?p=174854

terça-feira, 14 de julho de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte VI)

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Querido Viana,

Saudades são muitas, destas nossas conversas. Parece que se passou uma eternidade desde o nosso último encontro (sim, para mim, são encontros, e eu quase sinto o cheiro do café que tomamos quando te escrevo e quando te leio). E falando do café, que aqui em Portugal é um ritual imprescindível, deixa-me sobrevoar alguns episódios engraçados. 

As pessoas encontram-se para tomar um café como pretexto para cimentar uma amizade recente, cometer uma inconfidência, fazer negócios, discutir um projeto, desenhar uma ideia ou partilhar um momento de abstração, falar de política ou literatura, conhecer talvez um futuro amor sem o saber. Café é tudo. Mesmo quem não toma café diz: “Quando é que vamos tomar um café?”. E depois bebe uma água, uma imperial (chopp) ou coisa nenhuma. O que conta é o simbolismo. Há tempos, quando estudava espanhol no Cervantes, a professora propôs-nos um artigo muito engraçado de um jornalista espanhol. Precisamente sobre o café. O homem dizia que só existiam dois países no mundo onde o café era bom: Portugal e Itália! Depois continuava humilhando impiedosamente o café americano, o mexicano e por aí afora… e ia mais longe, afirmando: “em Portugal, em qualquer aldeia remota do Alentejo, de Trás-os-Montes, seja onde for, onde há mais cabras que pessoas, se pode beber um expresso cremoso e perfumado. Noutros sítios, grandes metrópoles até, o que se bebe é água suja, sumo de terra”, isto dito por ele, que eu nem entro nessas polémicas, só me divirto… Um colega meu, praticante de desportos radicais, dizia que após seis meses na Austrália, ao reencontrar os primeiros amigos em Lisboa, só lhe perguntavam: “Como é o café, lá?”. Ele achava a preocupação absurda, mas isto tem a ver claramente com a alma portuguesa; que fazer? ou, como se diz na gíria suburbana angolana: “Vamos fazer mais como, então?”

Agora deixa-me fazer uma viragem de 360º graus para te responder sobre Maria Bonita e o Lampião, que nós conhecemos muito bem em Angola, sim, na minissérie dos anos 80. E é bom lembrar Nelson Xavier, actor arrepiante, que tive o prazer de rever agora há dias num filme brasileiro de que te falarei um dia destes detalhadamente. Esse universo do cangaço chegou até nós, lembro-me também do Zeca Diabo, cangaceiro famoso da ficção interpretado pelo incrível e insubstituível Lima Duarte, que tinha uma fé e uma religiosidade intrínseca e deliciosa, a par da sua insólita profissão.

Talvez essa familiaridade com a morte tenha a ver com a adversidade do clima, das condições de vida, a morte é roçada de perto tantas vezes que parece ser sentida como uma eventualidade muito próxima. Não quero fazer filosofia barata sobre tão sério assunto, mas é o que me ocorre…

Mas antes que eu me perca de vez, porque me conheço e tu me conheces, aqui vai a explicação do “sempre a aviar”: na verdade, essa expressão significa qualquer coisa que se faz sem interrupção, no contexto anterior (o homem que dizia que quando era novo era “sempre a aviar”) trata-se de um homem que teve uma infinidade de conquistas, umas atrás das outras (diz ele!); no universo masculino isso parece ser uma mais-valia importante…enfim, coisas de rapazes…e coisas de rapazes são também essas cumplicidades que juntam homens, como tu e o teu pai, conversando numa garagem em torno de motos e de carros. Essa cena é quase um clássico do cinema, e da vida real, claro. Vem-me à memória “O Gotejar da Luz”, do português Fernando Vendrell, em que o rapazinho se aconselha com o amigo mais velho sobre mulheres, sobre o amor, enquanto fumam um cigarro, no meio de uma oficina. Talvez seja comparável às conversas que as mulheres/meninas têm usualmente nas casas de banho dos restaurantes enquanto retocam a maquilhagem. Não quero traçar um quadro fútil nem estabelecer limites de género para nós (homens e mulheres), mas embora não sejamos iguais, temos rituais comparáveis, claro. 

Mas o fascínio por motos é uma coisa que eu já observei e sempre me intrigou: uma amiga que era gerente de um stand de motos disse-me um dia que os clientes de motos e de carros têm um perfil completamente diferente. Quem compra motos fá-lo impulsivamente, por paixão. Disso eu entendo, mesmo que não de motos. E também de vento na cara, sensação que eu não dispenso.

E deixaste-me surpresa com os teus passos sem sentido, muito mecânicos…e a vontade do teu coração. Eu queria perceber, sem invadir. Quase que entendo, parece-me um questionamento que temos de vez em quando na vida. A eterna dicotomia entre a razão, o que esperam de mim, e o que eu quero fazer no momento. Será isso? Em todo o caso tu pareces-me alguém com um equilíbrio invejável, que consegue ser racional sem deixar de ter empatia com as pessoas e de demonstrar emoções. Acertei?

Mas não te quero fazer esperar mais para te falar sobre o encontro de literaturas africanas da lusofonia. Foi nos jardins da Gulbenkian, uma Fundação com um espaço exterior muito bem aproveitado; ali estávamos numa tenda decorada para o evento e tudo decorreu num ambiente informal e caloroso. Os palestrantes, um moçambicano, uma cabo-verdiana e um angolano, todos escritores premiados e com um percurso de vida denso, gente com histórias dentro. Ungulani, Vera Duarte e José Luís Mendonça. A moderadora era uma professora portuguesa de literatura. Foi um encontro breve mas empolgante em que fiquei sobretudo fascinada pela comunicação e pela postura rigorosa mas descontraída de Vera Duarte, juíza desembargadora e ex-ministra, com um percurso na escrita e fora dela digno de nota. Neste colóquio falou-se do percurso das nossas literaturas durante os últimos 40 anos, da influência de autores brasileiros e portugueses, da interdependência, das nossas vivências e histórias, do estado actual das Letras nos nossos países. Fiquei com uma enorme curiosidade pela escrita de Vera e Ungulani, JL Mendonça já conheço e gosto bastante, sobretudo do seu primeiro romance recentemente publicado, “O Reino das Casuarinas”.

Li de uma assentada um romance de Vera e um livro de crónicas e reencontrei-a casualmente dias depois noutro lugar em Lisboa. Acolheu-me com uma enorme simpatia e alegria, estava de malas feitas para regressar a Cabo Verde mas ainda falámos alguns minutos e confirmei a impressão que os seus livros me deixaram: mulher de fibra, de um imenso coração e uma disponibilidade e clarividência que é raro encontrar. Talento, já nem falo, um dia vais lê-la também, o romance é “A Candidata”, e talvez o possas encontrar no Brasil, pois ela tem uma relação fortíssima com as Letras do Brasil e alguns académicos brasileiros. Gostava que o lesses para comentarmos, aliás penso escrever algo sobre o assunto, não é o tipo de obra que se encontre ao virar da esquina.

Querido amigo, fico por aqui mesmo, muito mais haveria para dizer, há sempre, mas a casa está em pinturas e eu tenho as costas todas moídas de esvaziar armários, limpar, arrumar de novo e fazer pausas para escrever, ou vice-versa.

Um beijo cheio de calor, com gosto de Grécia e Portugal, com tempero de Angola, com sabor a futuro e a esperança.

Sempre ansiosa por receber o teu abraço em forma de letra.

Clara
Lisboa, 09 de Julho de 2015


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Clara,

Tarde de sol ameno por aqui. Como vai Portugal? Como vão os portugueses? Como vai você, minha querida? E como a desafiar-me, ligo o áudio do notebook que agora uso para escrever esta missiva a você neste exato instante e no batuque psicodélico de um Radiohead lanço minhas palavras por todo o teclado. 

A vida, como diria o “poetinha” Vinicius de Moraes, é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros em toda a sua extensão... pois, querida minha, cá estamos, encontramo-nos, para seguirmos a trilha da beleza que nos acerca e que nos aflora ainda mais ao passar do tempo que nos devora. Também eu fico a esperar você com muita ansiedade desde o momento em que finalizo cada carta-resposta que daqui segue em sua direção, Clara. É de nossa natureza a curiosidade sem limites, não?

Sinto o aroma da conversa. Deixo-me ao deleite. Café é artigo de história bem grande cá em terras tupiniquins, Clara. Brasil das milhões de toneladas de grãos de café, exportadas para todo o mundo. Dizem cá que produzimos o melhor de todos, mas que não chegamos a tomá-lo, a sorvê-lo, a senti-lo em aromas de cotidiano, de povo mesmo. As mais reluzentes safras vão direto para o exterior e ficamos nós com os grãos de menor qualidade. Ironia, não? Assim também acontece com nossas frutas e tantas outras coisas mais. 

Café nosso que foi até piso-tema para tramagens políticas importantes na história... você por acaso já ouviu falar na questão da “política do café-com-leite”, Clara? Uma espécie de acordo entre políticos de São Paulo (produtor de café) e de Minas Gerais (produtor de leite), para que a ordem de sucessão sempre acontecesse tendo como base o revesamento de líderes naturais destes estados. Um complô, na verdade, dos tempos da chamada República Velha. 

Café das manhãs, café das noites, café das tardes, este último sagrado lá em casa de meus pais, na Bahia chapadeira. Toda santa tarde, três ou quatro horas do tempo vespertino, lá estão meus pais a tomar suas xícaras de café acompanhadas de algum deguste leve. Café que nunca me foi a predileta das bebidas, mas que aprendi a apreciar em horas singulares da vida, como que a colocá-lo num canto especial de mim. Café que nos aproxima, café que um dia, quiçá, tomaremos juntos numa praça aberta ao céu das eternidades memoriais.

Incrível é mesmo saber do poder que os meios de comunicação possuem já há anos e sempre, ver como chegam ao grande percentual populacional, e facilmente, as produções televisivas (principalmente) em solos europeus e africanos. Agora tudo interconectado, mundo global das redes de tv a cabo, dos fios ópticos, das ondas eletromagnéticas mil, da internet! 

Confesso a você minha surpresa, Clara, em suspeitar que temas bem próprios das gentes de cá a você parecem tão próximos em verdade. E é bem por aí mesmo as significações cangaço-sertanejas. Decerto que a história por detrás de toda esta ambientação factual vai bem além de nossas imaginações, sendo necessário de nossa parte grande e responsável aparato de leituras. O cangaço e toda a sua aura é um caldo apaixonante de mistérios, lendas e narrações. 

No cangaço, vida e morte que se conflagravam. O homem no meio do torvelinho. Personagens contraditórios, Lampião e Maria Bonita estão escritos para sempre no imaginário popular do Brasil, principalmente para as pessoas que habitam o nordeste brasileiro. Eles são, só para citar um exemplo, personagens vivíssimos dentro do que aqui conhecemos como Literatura de Cordel. Aqui mesmo em Caruaru, em terras de minhas atuais pegadas, em sua famosa feira já cantada e decantada pelo Rei do Baião, é comum encontrarmos folhetos de cordel que malinam com esta temática cangaceira e, por conseguinte, com seus principais condutores. Salve, salve, Maria Bonita! Salve, salve, Lampião – nosso Robin Hood, diriam alguns.

Pois este tão bonito explicar-se acerca da expressão “sempre a aviar” fez-me recordar agora uma de nossas atuais leitoras, também ansiosa pelo resumo. Ah, e a paixão pela vida, Clara! A paixão pela vida entrando por nossas veias! Como não se permitir chegar ao paraíso através da paixão, mesmo com a possibilidade das quedas?! Do vento sobre as rodas das motocicletas, estanco a parola nessa nossa inconstância de ser-no-mundo: amantes que somos, amadores que somos, até o dia final. 

Você me acerta em cheio, Clara. Mas há impérios que me movimentam em cujo silêncio austero prefiro resguardá-los. São coisas nossas, que nos animam e que nos entristecem, como as distâncias, como as impossibilidades momentâneas, como os entraves múltiplos do dia a dia, mas que invariavelmente nos fazem rumar ao desconhecido, para as frentes de batalha. 

O amor, Clara, se é que isto lhe servirá de dica, o amor é o que conturba as minhas vistas dos agoras. Mas o amor possui tantas facetas, não é mesmo, querida? O amor é tão grande, mas tão grande e tão incontestável em suas multidireções, que por vezes não cabe no peito e vaza e rompe as nossas manhãs de paz, fazendo-me brincar de esconde-esconde ou pega-pega comigo mesmo. O amor, enfim, esta una espécie de Deus! Deixemos para lá, por agora, já que estou mais sereno. A paz abraçou-me novamente, mas como tudo na vida, pode não durar tanto e regressar. 

O que é o Amor, Clara?

Ontem, dia-rock, foi dia de renascer em nova idade. Cá estou, vivo. 

Um beijoceano e um carinho neste frio dia. Até mais ver!

Caruaru-PE, Pernambuco de Gilberto Freyre, 14 de julho de 2015.



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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.