sábado, 25 de abril de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XIV)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Domingo, 29/03/15
Faber et ludens

faber

avec les mains
faire tomber la nuit
cerrer les rideaux

ludens

avec le cœur
éclairer la nuit du jour
faire semblant d’être le soleil
à tout moment

faber et ludens

les mains au cœur
oublier le temps
être un jouet dans la vie


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Magister-Ludens-in-progress-24-157339277

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Lavoura

*
Por Germano Xavier

publicação nº 1.500 deste blog.
sigamos, bucaneiros!

existe uma palavra para abrir manhãs
uma palavra para memorar os mortos
outra palavra para bendizer os vivos

há sempre uma palavra que é lavoura
que atravessará a rua dentro da música
e dos sussurros dos filhos de Cosmos

existirá uma palavra escondida no ainda
e outra perder-se-á na desova das horas

para cada uma haverá um homem
para cada homem um corpo de ficção


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-vida-que-corre-la-em-baixo-47394258

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Análise textual dos discursos (um fichamento)

*
Por Germano Xavier


ADAM, J.M. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, 2011.

CAPÍTULO 1- INTRODUÇÃO À ANÁLISE DOS DISCURSOS

1. (RE)COMEÇAR DE SAUSSURE E DE BENVENISTE

1.1 A “LÍNGUA DISCURSIVA” DE FERDINAND DE SAUSSURE


“Apesar de Saussure ter colocado a língua no centro de seu programa, ele também se questionou sobre “o que separa” a língua propriamente dita do “discursivo” (p. 29)

“A frase só existe na fala, na língua discursiva, enquanto a palavra é uma unidade que vive fora do discurso, no tesouro mental” (p.30)

“(...) o sujeito falante não se exprime por palavras isoladas” (p. 30)

“(...) a língua consiste somente no discurso conectado, a gramática e o dicionário são comparáveis a seu esqueleto morto” (p. 31)

“Humboldt define a língua como uma atividade discursiva, como o “ato de sua emissão real” (ibid., p.143), e destaca que é apenas nos “encadeamentos do discurso” que podem ser percebidos os elementos mais significativos da língua” (p. 31)

“Saussure define seu objeto e seu programa como um retorno do discursivo à língua como “tesouro mental”, ou seja, vai na direção de algo que, para Humboldt (1974, p.183), não era senão “a projeção totalizadora da fala em ato” (p. 32)

“A definição do discurso como ligação entre conceitos revestidos de uma forma linguística deixa em aberto a questão da natureza e da extensão desses encadeamentos” (p. 32)

“Mas é preciso reconhecer que no domínio do sintagma não há limite rigoroso entre o fato de língua, marca do uso coletivo, e o fato de fala, que depende da liberdade individual” (p. 33)

“A frase aparece como uma unidade de composição-sintagmatização situada na fronteira entre dois domínios: ela pertence à língua em sua dimensão sintagmática e à fala em sua dimensão discursiva” (p. 34)

“A preocupação principal de Saussure é a operação que permite abstrair o sistema da língua a partir dos fatos de discurso. Émile Benveniste vai retomar a questão de forma exatamente inversa, privilegiando a realização do discurso, o que ele vai progressivamente designar como enunciação” (p. 34)


1.2. A “TRANSLINGUÍSTICA” DE ÉMILE BENVENISTE


“O “sentido” (na acepção semântica [...]) se realiza em e por uma forma específica, a do sintagma, diferentemente do semiótico, que se define por uma relação de paradigma. De um lado, a substituição, do outro, a conexão, tais são as duas operações típicas e complementares” (p.35)

“(...) é no discurso, atualizado em frases, que a língua se forma e se configura. Aí começa a linguagem” (p. 35)

“[...] Na realidade, o mundo do signo é fechado. Do signo à frase não há transição, nem por sintagmação nem por outra forma. Um hiato os separa” (p. 35)

“Benveniste considera que, embora a frase compreenda constituintes, ela não pode, em contrapartida, integrar nenhuma unidade de ordem mais elevada de complexidade” (p. 36)

“A frase só se define por seus constituintes e o merisma, por sua natureza de constituinte de uma unidade linguística de ordem superior” (p. 36)

“(...) a segmentação de textos em frases, e até mesmo de frases periódicas complexas em unidades predicativas, não se faz com a mesma regularidade combinatória com que se faz a segmentação dos sintagmas, morfemas e fonemas” (p. 37-38)

“Para Benveniste, a frase é uma unidade de outra ordem: “A frase pertence realmente ao discurso. É assim que podemos defini-la: a frase é a unidade do discurso. [...] A frase é uma unidade, no sentido de que ela é um segmento do discurso” (p. 38)

“Benveniste exclui o “texto do enunciado” do campo (“semântico”) da linguística da enunciação” (p.38)

“Benveniste dividiu programaticamente o campo geral da linguística em três domínios, com a linguística da enunciação ocupando uma posição central” (p.39)

“Apoiando-se na linguística da enunciação, a linguística do discurso se abre, por um lado, para uma “translinguística dos textos”, e por outro, para uma “translinguística das obras”, isto é, das produções literárias” (p. 40)


2. LUGAR DA LINGUÍSTICA TEXTUAL NA ANÁLISE DE DISCURSOS


“(...) definimos a linguística textual como um subdomínio do campo mais vasto da análise das práticas discursivas” (p. 43)


2.1. GÊNEROS DE DISCURSO, LÍNGUA(S) E FORMAÇÕES SOCIODISCURSIVAS


“Já em 1978, a relação entre língua e gênero era assim resumida por Tzvetan Todorov: “Qualquer propriedade verbal, facultativa no nível da língua, pode tornar-se obrigatória no discurso” (p. 45)

“É nos gêneros de discurso que localizamos essa “estabilização pública e normativa” que opera no quadro do sistema de gêneros de cada formação discursiva” (p. 45)

“(...) Foucault (1969, p. 132) considera o caso particular de uma mesma frase (ou proposição) que, no entanto, nunca é idêntica a si mesma, enquanto enunciado, quando as coordenadas da situação de enunciação e seu regime de materialidade mudam” (p. 48)


2.2. (RE)PENSAR AS RELAÇÕES ENTRE CONTEXTO, COTEXTO E TEXTO(S)

“De um ponto de vista linguístico, é preciso dizer que o contexto entra na construção do sentido dos enunciados. Com efeito, todo enunciado, por mais breve ou complexo que ele seja, tem sempre necessidade de um co(n)texto” (p. 52-53)

“Se, em uma interação oral, pode haver concorrência entre contexto e contexto da enunciação, na escrita, o contexto é o dado mais imediatamente acessível” (p. 53)

“Realidade ao mesmo tempo histórica e cognitiva, o contexto está ligado à memória intertextual” (p. 56)

“Todo texto constrói, de forma mais ou menos explícita, seu contexto de enunciação” (p. 56)

“Em outras palavras, a memória discursiva é, ao mesmo tempo, o que permite e o que visa uma interação verbal” (p. 57)


3. O CAMPO DA ANÁLISE TEXTUAL DOS DISCURSOS

3.1. UMA PRAGMÁTICA TEXTUAL?


“A ligação com a análise dos discursos é, então, concebível, e o objeto parece mais bem definido: práticas discursivas institucionalizadas, quer dizer, para nós, gêneros de discurso, cuja determinação pela história deve ser considerada pelo viés da interdiscursividade” (p. 60)


3.2. DO DISCURSO COMO AÇÃO AO TEXTO

“Um texto raramente advém de um só gênero” (p. 62)

“Toda a ação de linguagem inscreve-se, como se vê, em um dado setor do espaço social, que deve ser pensado como uma formação sociodiscursiva, ou seja, como um lugar social associado a uma língua (socioleto) e a gêneros de discurso. (p. 63)

“A linguística textual concerne tanto à descrição e à definição das diferentes unidades como às operações, em todos os níveis de complexidade, que são realizadas sobre os enunciados” (p. 63)


4. ESTABELECIMENTO DO TEXTO E CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE ANÁLISE

4.1. FRAGMENTO 128 DOS “CARACTÈRES”, DE LA BRUYÈRE <1>

4.2. A PERORAÇÃO DO ELOGIO FÚNEBRE DE GEORGES BRAQUE POR MALRAUX


“Neste ponto de nossa reflexão metodológica, vê-se que as ciências ou disciplinas do texto se cruzam: da história da edição à tradução e à filologia, passando pela análise linguística” (p. 72)




                                   * Imagem: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0104-65782010000100010&script=sci_arttext

terça-feira, 21 de abril de 2015

Ainda no ovo

*
Por Germano Xavier

para meu comparsa Alexandre Guarnieri

ainda no ovo uma geração acobertada pela doença da ordem
ainda no ovo uma metáfora de mar feito onda maneira
ainda no ovo uma polivalência multifuncional sem bios
ainda no ovo um poema devasso para os filhos da puta
ainda no ovo uma lança deselegante a invadir a discórdia
ainda no ovo minha aparição final para hecatombes múltiplas
ainda no ovo o cheiro da miserabilidade dos homens sem amor
ainda no ovo a página negra virada na albina lisura dos vermes
ainda no ovo um seja bem-vindo cínico para os críticos do nada
ainda no ovo um nado sobre as coisas muitíssimas impostoras
ainda no ovo a rebeldia da voz de grito de um povo cheio de nós
ainda no ovo uma nódoa amarga combatente por rijos afãs
ainda no ovo uma porta aberta para os maltrapilhos corações
ainda no ovo uma chama quente sob a pele dos nervos
ainda no ovo uma boca que beija sem medo outra boca em sanha
ainda no ovo um amanhã perplexo de átomos vivos e pueris
ainda no ovo um olho que olha a paisagem por dentro
ainda no ovo um corpo distendido sobre ocidentes orientais
ainda no ovo uma palavra que faça varado o ventre e vire voz
ainda no ovo um homem aberto à maneira de um deus
ainda no ovo uma espera destroçada sobre a casa de todos
ainda no ovo a dor de um mal numa dúvida nem verdade nem bem 


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/holga-62-ovo-je-sandra-113780438

Em dois tempos

*
Por Germano Xavier

o nosso trevo de quatro folhas pode ter só três.
quando distribuíram a felicidade para as meninas 
que nascem em agosto, você se atrasou por ficar olhando o sol, 
a chuva, a florzinha sobrevivente no meio do sertão. 
(Aquela nuvem parece um elefante branco, veja...)
então ficou assim: Três folhas e a licença para sonhar.

Meu diário de amor solitário a dois, 
o mundo cinza girando tão rápido
e tantas vezes as bases ruíram.

a coisa mais estável em mim hoje sou eu.
a mais bonita? Você. A mais certa? Eu te amo.
Na próxima estação vou comer chocolate em tua boca.

silêncio, penumbra, silêncio
x x x x x x x x x x x x x x x
Meu chocolate sumiu. Foi você, Amor?

Se te escrevo é para te esquecer te desamar te desaguar.
Com a decência de quem tenta deter o sol. Mas é tudo mentira.
Atiro cegamente o amor arquivado, acumulado, empalhado, multiplicado, renegado
para longe de mim (teus olhos), alvo distante flutuante displicentemente 
posto em suspensão perigosa.

fato: ele volta em chamas.
pelo ar flechas incendiárias vingativas.
Então, vivo (ou morro?) de amor que volta.

Se o trem desgovernar (ainda não será o Mangaratiba - improvise Eu,
trilhos quebrados, tu, condutor cego. Qual a classificação do risco de te amar?
Alta estratosférica quase queimando as retinas no sol?
Praga de gente boa sempre pega, pois sigo batendo asas tortas: agora a ironia mais doce:

seja sempre serena - e nada de plural.
Depois da gargalhada engasgada: Tu falas em serenidade?
Diga isso à última chama que passou por aqui.
Mande a capa e corra. 

"A esperança é o mais sórdido dos sentimentos" (Meu dileto: J. L. Borges). Num dia sombrio (daqueles fatais), aves de rapina anunciando carcaças, o coração aqui (cínico? santo?) decidiu, à minha revelia, alimentar-se apenas de tuas sementes-de-fazer-nascer-amor, coração é leme, logo, sem remédio, Jardim Suspenso na Babilônia em chamas: Não me largue e... tente, segure-me em teus delírios - O abismo sempre me atrai mais do que o chão. Mais do que você.

Sacrílega amarração de nós todos - em dois.
Juntos – em duas unidades -, é um vazio cheio de metáforas bonitas e alguma paz criada por dedos. e eu, amor, sempre levado por mãos nenhumas para o teu lugar onde nunca estivestes. Diz de uma vez, equador de minhas vidas, para quantas terras ainda tenho de fugir para escapar de teus domínios? Pode bater o martelo. O amor compensa? Não? Dispensa?


* Imagem:  http://philomena-famulok.deviantart.com/art/Relive-all-the-memories-343466955

As árvores amorosas (Parte XXV)

*
poema para a outra mulher dos bons fins

Por Germano Xavier

a outra mulher dos bons fins me disse um dia:
- você vive de se meter dentro em mim, faca.
E O PASSADO É UMA ARDÊNCIA INGLÓRIA.

eu lia os seus avisos:

"Resoluto desbravador de incertezas
(VOCÊ, que se não conheces o mistério, o inventas
(Haja Luz! E houve amor) ...) "

O aviso: lia e refletia.

Cachoeiras são também perigosas e imprevisíveis.
Mas VOCÊ pode secá-las. É só parar de fazer chover.
Pararia? PARARÍAMOS?

Não reclamei de suas figuras tristes. Até nuas.
Por vezes mórbidas. Era só amor.

uma máscara de ferro, o amor.
um mesmo tempo. suportável apenas
em constante fuga para ti,
em constante chuva para ti.

Se ficarmos em silêncio,
teremos aprendido a ler a vida
para que a salvemos de nossas mãos.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Trees-110763123

Apontamentos sobre Vogais, Ditongos e Consoantes

*
Por Germano Xavier


A língua portuguesa, ao contrário do que muitos pensam, não possui apenas cinco (5) vogais. A depender do local onde ela esteja inserida na palavra e tendo como referencial o acento tônico, pode-se vislumbrar a existência de sete (7) fonemas vocálicos. Mais especificadamente na língua portuguesa falada no Brasil, na definição de Câmara Jr. apud Hora (2009), as vogais se definem de acordo com a tonicidade da palavra e com a posição da sílaba em que se encontram, podendo sofrer mutações a depender do processo de neutralização.

A tonicidade das sílabas é o caminho mais oportuno para identificar todas as variações que incluem as vogais. De acordo com tais engenhos, as vogais podem se classificar em: Altas, Média Altas, Média Baixas, Baixas, Anteriores, Posteriores, Não-arredondadas e Arredondadas. Em nível de posicionamento com relação à sílaba tônica, ainda podem ser tônicas (pretônicas, postônicas), átonas, finais e não-finais, além de orais e nasalizadas.

Acerca da nasalização das vogais, ou seja, quando vogais orais são seguidas por um arquifonema nasal, cabe identificarmos dois fenômenos distintos entre si: a nasalidade fonética e a nasalidade fonológica, ambas diferindo-se apenas pelo fato de uma vogal implicar ou não em mudança de significado da palavra. 

Bom salientar também que, quando há uma supressão que resulta na redução de mais de um fonema em uma só unidade fonológica, diz-se que ocorreu uma neutralização. Já a harmonização vocálica, diz respeito ao processo em que as vogais pretônicas assimilam o traço de altura da vogal seguinte.

As vogais se configuram de modos os mais diversos possíveis, em termos de sonorização, a depender de seus usos, de seus falantes e das regiões. Para as póstônicas não-finais, visualizamos a ocorrência de um fenômeno denominado de Apagamento, visualizado em todo o território nacional e presente nas falas de todas as classes sociais, das mais pobres até as mais ricas.

Os ditongos designam os encontros entre vogais numa mesma sílaba e podem ser classificados em Crescentes e Decrescentes. Numa sequência vocálica, a vogal assilábica é nomeada de semivogal (glide). No caso dos decrescentes, há a possibilidade de ocorrência da Monotongação, que é quando um ditongo se reduz à qualidade de um monotongo, ou seja, quando um ditongo se realiza numa vogal simples ou a semivogal sofre Apagamento. Ditongos decrescentes que são passíveis de sofrer Redução são chamados de ditongos leves.

As consoantes são componentes silábicos que ocupam as margens silábicas ou que se articulam com algum tipo de obstrução neste mesmo espaço. Quanto ao modo de articulação, as consoantes podem ser: oclusivas, fricativas, nasais, laterais e vibrantes. Quanto ao ponto de articulação, as consoantes podem ser: bilabiais, labiodentais, dento-alveolares, palato-alveolares, palatais, velares, cada qual podendo ser ainda surdas ou sonoras. Ao todos, são 19 fonemas consonantais básicos presentes na língua portuguesa.

Diferentemente das vogais, o ponto de apoio crucial para diferenciação e estudo das consoantes é a posição delas na sílaba. O estudo das consoantes está intimamente ligado ao estudo mais aprofundado das sílabas e, para tal, faz-se necessário o entendimento do que seja Ataque/Rima, Núcleo/Coda, Padrões Silábicos e suas derivações. 

Em seu livro Fonética e Fonologia, Hora (2009) ainda enfatiza que a sílaba é uma parte facilmente identificada pelos usuários da língua (falantes da língua), exibe capítulo especial discutindo os caso mais significativos das consoante laterais /l/, suas variantes, sem se esquecer dos róticos, variantes por demais estigmatizadas no Brasil.


BIBLIOGRAFIA

HORA, D. da. Fonética e Fonologia. UFPB, 2009. Disponível em http://goo.gl/ecYlc Acesso em 21 de abril de 2015.



* Imagem:  http://estudeemais.blogspot.com/2013/04/gramatica-fonetica.html

sábado, 18 de abril de 2015

O veneno

*
Por Germano Xavier

Estranho seria não te amar
(Ações)


[Manter esta mensagem na parte superior de sua caixa de entrada]
Para: amordesefazerchover@hotmail.com
Porção diária digital cronometrada fatiada retalhada revisitada deletada depreendida de amor
divide a fome comigo?

sim
a morte
a sede também

Conte-me. Cactos.
De que tantas maneiras pode uma mulher amar um homem?
De quantas hum homem amar uma mulher?
O homem, nesse caso, mostra o caminho?

seguiremos cantando

Traz o veneno
?
bebo sorrindo

roteador rotador diga o crime monotonia se mata com?
cometo chorando se cair na linha do trem não é o Mangaratiba
será por acidente O amor é mais trágico do que a própria tragédia?
O amor é a felicidade anunciada eu sei? quem sei?
e interceptada no caminho por sucessivos fantasmas
nunca chega a seu destino mas nunca para de andar.

o amor é uma economia de energia
uma ideia sobre a história
me engolir para sempre
corro para nós de olhos fechados
tu sabes, sou cachoeira (eu sei)
e não gotas de amor Nada me detém
quando o destino é você.

houve desl   ocamen to de a r?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/escapism-169223838

Não sou eu quem atravessa a rua

*

Perfil Jornalístico escrito por Audimara Genipapeiro, colega de Jornalismo, em 2006.

um texto com marcas do moinho da vida, apenas...


Ele está em seu quarto, sentado à escrivaninha, quando chego... Rapidamente me pede para ver se seu trabalho da faculdade está bom. Leu do começo ao fim e só depois resolveu falar de si. Calmo, simples e altamente subjetivo, Germano Xavier começa a falar. Primeiro a infância, depois a escola, faculdade, até que pouco a pouco descubro uma perturbante e sombria interioridade. O poeta, estudante de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios e Letras/Português e suas Literaturas, jovem de 22 anos, nasceu numa sexta-feira 13, na cidade baiana de Iraquara. 

O menino, como se definiu, desde criança precisava, por uma vontade quase que metafísica, recolher-se dentro de si, para que pudesse ir em busca do seu verdadeiro eu, de quem realmente era. "Sempre fui taxado de calado, quedo, mas eu não dava importância, eu queria ser aquilo que achava certo ser, e ali construí meu jeito, sempre dentro de mim, mais dentro do que fora, buscando alguma razão para estar vivo." Na escola não saía da sala em momento algum. Já no primário, sentia dificuldades para manter um relacionamento social, virou poeta! Ainda não se sente bem em alguns lugares, mas escreve, escreve porque tem de escrever, seu alimento diário. 

Não há um dia sequer que Germano não rabisque uma folha de papel. Quando criança, viveu sob um seio familiar muito tradicional, filho de cirurgião dentista e mãe professora, pedia a benção todos os dias aos pais antes de se deitar. Conta que vivia com uma espada invisível sobre a cabeça, tal qual a de Dâmocles, que a qualquer momento poderia cair sobre si. Com gestos saudosos e voz forte, lembra que sua mãe levava a casa nas costas, era a diretriz da família e seu pai era o comandante, a quem ele devia total respeito. 

Suas palavras, nesse momento, receberam apoio de seu caderno. Entre rabiscos e risos, seu olhar se divide agora comigo, a folha de papel e o nada. Sua paixão pela língua portuguesa começou ainda no primário. Relembra com carinho de sua professora Dalva Menezes que, como sua mãe, dava-lhe puxões de orelha nas tarefas. Mas isso, não pense você ser reflexo de notas baixas. Germano era um “excelente aluno” e para massagear e incitar tal status, ele usava como "desafiante" seu grande companheiro de futebol de botão, Abelardo, com quem disputava as melhores notas, provando para todos na escola e na família que era realmente bom. 

As cobranças eram grandes por ser filho de professora, mas Germano era maior que isso, recebendo na 8ª série a medalha de melhor aluno da classe e o troféu de melhor aluno da escola. Era preciso provar, provar sempre e manter estática sua espada invisível. Enquanto rabisca o papel, lembra de um momento que considera um dos mais importantes de sua vida em Iraquara. Foi quando terminou a 8ª série e chamou os pais para uma "conversa de adulto", falou do seu desejo de estudar em Salvador, porque sabia que o único colégio de 2ºgrau da cidade não proporcionava condições necessárias para um bom aprendizado. "Me lembro como se fosse hoje, disse para meu pai que ou eu iria estudar fora ou iria plantar tomates em qualquer lugar... mas que ali eu não ficava."

Por várias razões não conseguiu ir para a capital, foi então para Irecê, morar com seu irmão mais velho Gustavo. Nesse primeiro momento, longe de casa, sentiu o peso da importância da família, mas se realizava com as novas descobertas, suas primeiras relações afetivas, colegas, namoradas, desafios... Nesse mesmo ano teve seu primeiro despertar para a poesia. O professor de literatura pediu para que a turma levasse para a aula seguinte dois poemas, um sobre os 500 anos de Descobrimento do país e outra com tema livre. Ele foi o único aluno que levou, seu professor pediu para que lesse e nesse momento algo fantástico aconteceu. Pela primeira vez o que lia fazia algum sentido, o instante ele define como “euforicamente mágico”. Recebeu aplausos e elogios e um novo mundo se abriu em sua mente, já tão cheia deles. 

O poeta de viagens interestrelares por seus mundos, volta e meia lembra-se de algum fato na infância que o ajudou a se tornar o que é hoje. Certa vez, estava jogando bola na frente da casa com vizinhos e seu irmão, quando o pai apareceu no portão e retrucou: "Germano e Gustavo, 18 horas os dois pra dentro!" Mas 6 horas da noite era quando o jogo começava a ficar bom, diz ele. A tarde ia caindo e resolveram ficar mais uns minutinhos. Seu pai novamente aparece na porta, e nada. Os meninos, repletos de alegria, jogam mais um pouco. Às 18h30min decidem ir para casa, impregnados de suor e barro nas canelas. Empurraram o portão, viram que estava trancado. Bateram, gritaram, e nada. Ficaram na porta esperando, seus vizinhos foram para dentro. Chamaram novamente, e o frio lá pelas dez da noite começava a chegar. Os dois meninos não saíram da porta e quando era já próximo das 22 horas, sua mãe abriu o portão, sem nada dizer. Entraram, lavaram os pés, tomaram banho e dormiram. No dia seguinte, o sermão foi duro, ouviram coisas que jamais imaginariam ouvir, ficaram em casa durante quase um mês, de castigo, além de terem retiradas as poucas regalias a que tinham direito. 

O espaço de rigor e respeito ao qual foi submetido gerou uma ligação muito forte com seu irmão, "ele era meu escudo”. Diferente dele, Gustavo era nervos à flor da pele, era seu ideal de bravura e coragem. Conta que quando seu irmão derrotou um dos meninos mais briguentos da escola, sentiu-se orgulhoso. Gustavo era a pessoa que lhe trazia paz nas intermináveis noites de insônia, onde imaginava que só ele estava acordado, ele e seus espectros que viviam circulando no quarto, sua mente mirabolante. Via sombras na escuridão, suava frio, sua única salvação era, depois de muita aflição, acender a luz e ver, apenas ver seu irmão dormindo, seu porto seguro.

Completados os três anos de Ensino Médio em Irecê, Germano vai para Salvador prestar vestibular. Passa nos seis vestibulares que havia feito naquele ano. De malas prontas para ir de vez para capital cursar Odontologia, Germano recebe de sua mãe a notícia mais esperada, a de que tinha passado no vestibular da UNEB, no curso de Comunicação Social/Jornalismo, seu sonho. Seu coração, agora aliviado, sorria novamente, abraçou a mãe que, no fundo, sabia que esse era o real desejo do filho. Por causa de greves ele ficou em Salvador durante um ano esperando o início das aulas, fazendo pré-vestibular, veja só, para passar o tempo. 

Quando tudo parecia estar em seu devido lugar, o inesperado aponta de sobressalto. Sua mãe liga para seu celular (coisa que odeia) e diz que está faltando professor de Inglês no seu antigo colégio, e que a diretora, sabendo de seu histórico como aluno, convidou-o para dar aulas nas turmas da 1ª à 8ª série. Germano não respondeu logo, precisava pensar... Como um menino que a vida toda ficou conhecido por sua timidez e reclusão poderia agora dar aulas? Bem, a resposta foi positiva, convite aceito. Germano volta para Iraquara. Foram intensos 7 meses lecionando, primeiramente só o Inglês. 

Ainda lembra de seu primeiro dia como professor. Sua mãe, religiosa, orava por ele segurando uma vela que mais tarde ficaria atrás da porta. Saiu com quase nada nas mãos. Chegando ao colégio, ao percorrer o extenso corredor até a sala, teve seu segundo momento mágico, uma sensação elevatória, inédita. Parecia que o chão se partia enquanto ele, imune, atravessava os obstáculos e as enormes fendas abertas no chão. Entrou na sala e a aflição passou em cinco minutos. Tornou-se um professor muito querido por seus pequenos alunos da 1ª série, que não o deixavam sair da sala, conta. “Não deixa o professor sair não!”, ouvia das crianças, e as doces criaturas barravam sua saída todos os dias após a aula. 

Depois de um mês, Germano fora convidado para ensinar Literatura, História, Geografia, Português e Redação no curso pré-vestibular Podium, para um contingente de quase 180 alunos. Ali encontrou antigos colegas de classe, que o ajudaram nessa dura rotina de professor, mas que ele garante ter sido a melhor época de sua vida. Assim se tornou “a figura mais comentada da cidade” de cerca de 18 mil habitantes, acredita. Passadas mais duas semanas, o “professor” foi convidado a lecionar para alunos de Ensino Médio e de cursos de aceleração no Centro Educacional Manoel Teixeira Leite. Aceitou e foi preencher seu pouco tempo restante dando aulas de Psicologia, Química, Inglês e Sociologia. Nostálgico, relembra com alegria a rotina dessa época, "saía às 7 da matina, voltava às 12:30, fazia uma revisão, saía 13 horas, voltava 17:30; depois saía às 19 e voltava às 23. Após tudo isso, ainda ficava até às três da manhã, por causa da insônia, estudando os conteúdos para o dia seguinte. 

A essa altura do campeonato, já era admirado por toda a cidade, diz satisfeito. Em meio a livros, pastas de poemas, sinônimos e sua paixão Julieta (sua máquina de escrever), Germano, com apenas vinte e poucos anos, já tem muitas histórias. Uma delas é de seu aniversário de vinte anos, lá em Iraquara. Era uma quarta feira, levantou cedo e foi dar aula para a primeira série. Conta sorrindo que recebeu um bolo e refrigerante para comemorar a data. Saindo dessa aula, ainda no mesmo colégio, tinha mais quatro turmas que, coincidentemente, fizeram a mesma surpresa. Eram bolos, presentes, cartões, sorrisos. Depois do “almoço”, ele saiu de casa e foi ensinar as três turmas de ensino médio e, mais uma vez, surpresa! Para não fazer desfeita, Germano comia um pedaço de bolo aqui, outro ali. "Ah, que dia triste e alegre ao mesmo tempo!”. Mas ainda faltava a turma do curso Podium, pela noite. Luzes apagadas, corredor vazio e ele já imaginava, bastou colocar o pé na sala para que as luzes acendessem. Festa de novo, o professor chegou! Dias inesquecíveis como esse deram a ele a certeza da vocação, porque essa experiência mudou sua vida social, abriu portas. Ensinar-aprender, no melhor de Paulo Freire, era um dom. "Sentia a obrigação de ajudar as pessoas fazendo um trabalho digno."

É hora de ir para Juazeiro, começar do começo, de novo. E Germano não pensou duas vezes em sair da cidade que, agora, de fato, era sua e se foi. Olhar inquieto, quarto simples, cheio de seus gestos fortes e suaves, seu sorriso solto, mas contido. É nesse paradoxo que o encontramos e é lá que ele tenta se encontrar. Revela, aos poucos, que ainda busca seu verdadeiro eu. Para isso trava duras batalhas com o seu inimigo número um, seu Eu. Para ele, os poetas precisam da dor, para que possam escrever melhor e entender o que é obscuro na vida. “Eu choro a dor de um poema/ cada um que nasce no profundo dum homem/ E que não caminha os seus limites inatingíveis/ Eu choro a dor de um poema/ E, principalmente, eu choro, muito/ A dor dum homem sem poesia.” (Fragmento de "Apoéticos", de 21/07/2006)

Quando perguntado sobre Juazeiro, Germano se endireita na cadeira, rabisca o papel e pára um pouco... Pensativo, ele exclama: “Juazeiro era mais bonita na minha infância, quando meu pai passava de carro, quase parando para que todos vissem o rio, no caminho para a casa de minha tia Estelita. É também a materialização de um sonho, um desejo mais forte que as correntes lá de casa”. Seu outro sonho era lançar um livro. O menino que ficava a tarde inteira lendo na sala, tinha ao seu lado os melhores companheiros para essa hora: um pires, uma colherzinha e mel, sempre providenciados por sua mãe, Irlan. Bastava isso para Germano mergulhar no mundo belo da literatura, e foi em Juazeiro que o sonho aconteceu. “Clube de Carteado é um livro de erros e acertos, uma obra que dá ao erro a sua porção dicotômica e mágica, ora acertando por errar ora errando por acertar...”, foi como ele apresentou o livro. Hoje, acha-o infantil e imaturo, um recolhimento aleatório de poesias que tinha temor de que morressem nas gavetas. 

Juazeiro é também sinônimo de conformação e espera, mas daqui a alguns meses será de novo sinônimo de realização, porque lançará seu segundo livro ou até o terceiro, cujo nomes não foram revelados. "Serão mais centrados, mais viscerais, mais sanguinários, menos românticos e refletirão um pouco do meu ser interior e do infindável abismo de ser o ser”. Recita uma de suas novas poesias e deixa as duas pastas com novas poesias sobre a cama. Pego uma e, de repente... "Não, não pode não!" E eu deixei a pasta. O rapaz de voz grave e de personalidade forte, afirma que ainda não "inaugurou" o sentimento de amizade (termo do escritor Ziraldo) fora do eixo familiar. Talvez porque não dê espaço para os novos amigos. Chegou a falar que não sente falta deles, de um amigo. Diz apenas que deseja "uma vida de inaugurações, portas abertas ou frestas que deixem passar aqueles feixes de luz bem curtos, porém radiantes, porém fixo, é isso, uma vida de inaugurações. Cada dia que passa eu tenho de absorver um pouco mais de racionalidade, misturar minha emoção interior com a nossa contemporânea loucura verdadeira, não sei o quê, mas busco, é isso, eu busco...” 

Germano não é estático, cada palavra que anuncia é o movimento eterno de inquietação do ser humano, é o não contentar-se, é a dúvida. “Insacie-se, de olho aberto./Os assombros inconduzem-nos às belezas impostoras./ Fragmenta-te, pigmenta-te, fazes de novo/ Se esconder a morte marulhante./ Inquieta a voz do teu desejo, Inquieta-te!” (Fragmento de "Marujos", de 10/12/2006) 

Poeta maior, poeta menor. Germano Xavier, o poeta que, sempre que pode, escuta uma rádio na noite. É pouco católico, ou quase nada, apesar de crismado. Ouvinte assíduo de um programa sobre espiritismo, acredita numa energia superior, que rege os caminhos, a existência; não acredita naquele barbudo, bonzinho. Revela uma mania de poeta, anota todos os livros que lê. Em 2006, leu 172 livros e pretende, em 2007, chegar a marca dos 200. Sua hora predileta para ler é pela noite e pela madrugada, onde seus antigos espectros não aparecem mais, e só os livros é que o fazem companhia. Sobre suas influências, ele é incisivo. Ao citar Deleuze, afirma que há multiplicidade de influências e discorda das pessoas que dizem ser originais e não ter influências quando escrevem, “um texto é produto da intertextualidade, um poema é reflexo de todos os poemas lidos durante a vida, não existe texto 100% original". Declara-se aprendiz de poeta, interessado em poesia, buscando a reprodução artística acerca de algo que já foi dito. Sua maior inspiração é Carlos Drummond de Andrade, que afirma ser o maior poeta maior do Brasil, "por que é metafísico, dialoga com o universal e com o não concreto... porque viaja num imaginário que ele tem profunda admiração e que já aparece intrínseco em sua escrita." Já sua outra grande paixão é o maior poeta menor, João Cabral de Melo Neto, "pela clareza". Germano até se arrepia ao falar de Cabral, ”ele não transcende, ele é episódico, cru”. Mario Quintana, Julio Cortázar, Jorge Luís Borges, Ferreira Goulart, Adélia Prado, Hermam Melville, Shakespeare e etc, etc, etc, fazem parte de um dos mundos de Germano. São eles que o motivam a dedilhar diariamente sua máquina de escrever, apelidada de Julieta. Esta, fiel companheira dos dias de solidão, é fruto de um presente de seu padrinho, que não sabendo o que lhe dar, entregou-lhe uma nota de cem reais para ele comprar o que quisesse. A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi comprar uma arma de pressão para matar lagartixas e insetos em dias de divertimento no sítio de sua tia, onde passou grande parte de suas férias infantis ao lado dos primos Cleiton e Anderson. Só que para chegar ao balcão de armas da loja, ele teve de passar por uma ala lotada de máquinas de escrever. Pronto! “Foi amor à primeira vista”, e, assim, ele comprou sua primeira máquina de escrever, que hoje está no consultório do pai, em Iraquara, mas que teve seu nome perpetuado para as outras que comprou: Julieta.

Germano conta que seu ritual de escrever é simples, “geralmente pela manhã, a hora mais prolífica para a criação, pois a mente está descansada e absorve reflexos das viagens intercontinentais dentro de mim mesmo. Escrevo uma frase e o resto vem. Mas nem sempre é assim , tão fácil." Nesse momento, ele pega uma pasta e fala que ela é o que mais vale para ele no mundo. Lê um poema com intensidade e revela que sua maior dificuldade é colocar títulos em seus poemas. Para um momento, sem ao menos ter sido questionado, e diz: “O ser humano é grande, precioso e, ao mesmo tempo... é preciso sensibilidade, olhos aguçados! A poesia é uma das expressões, é alguma coisa que me ajuda a viver, eu tenho de escrever qualquer coisa, está na veia, não sei onde vou com isso, só sei que a tendência é melhorar”. 

Assim como todo bom poeta, só se lembra daquilo que realmente o toca. Surpreende-se ao lembrar do fato de que apenas 0,6% dos professores no país leem poesia e questiona sempre quem somos nós, ou até que ponto somos o quem pensamos ser. Futuro de cores vivas, enfático, não titubeia enquanto mexe na máquina e toca meu joelho (faz esse gesto repetidamente durante a conversa, como se quisesse, talvez, minha total atenção). "O que sei é que um poeta deve escrever sobre tudo o que vê ou lê”. Deseja escrever livros à mão cheia, quer morrer escrevendo, quer provar para ele mesmo que faz alguma coisa. Seu futuro como professor é quase que certo em seus objetivos. Quer dar aulas para pessoas humildes, alfabetizá-las, ser professor em uma universidade, quer encontrar-se. Já como jornalista, ele diz que se um dia chegar a desempenhar o papel jornalístico, preferiria trabalhar em cadernos de cultura, no jornal impresso. “Eu quero chegar o mais próximo de mim mesmo, eu não estou nem aí, não quero estar aí, eu dificulto esses ataques. Nesse ponto, até que sou um pouco forte”. Então pergunto sobre seu maior sonho, e a resposta vem carregada de subjetividade: “Eu sonho um dia escrever um poema. Até hoje não escrevi um poema. Eu tento, tento, um.”


* Imagem: Acervo pessoal.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


As árvores amorosas (parte XVIII)

Les arbres amoureux (partie XVIII)

Poème dédié à la femme-modèle de la Faculté

et nous avons pris la route, sans drapeau
nous nous battions comme des gens qui flânent
sans destination
sur la Honda rouge

notre ombre, comme un miroir
collée aux murs de la maison, en contre-jour
était la seule piste pour nous retrouver
comme des cœurs jumeaux

et alors le moteur a rugit plus fort
et toi (ton corps) libérée par des yeux rêveurs
moi qui me croyait tout un matin inquiet

l’amour a disparu au clair du petit phare
qui allumait de tous cotés la nuit véloce
(qui t’allumait pour t’éteindre en moi)
dès ton premier tournant à gauche


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Into-The-Trees-198460624

As árvores amorosas (Parte XXIV)

*
poema para a mulher-carvalho

Por Germano Xavier

havia pressa e uma garrafa de vinho
causos de terror sobre o tapete
um quarto nos fundos do apartamento
uma tensão entre-falas
um pedido de paz entre iguais
um falecimento para amanhãs

(bancarrotta)

fomos logo ao fim e nada aconteceu
prova extrema de que o amor 
de amor carece

no outro dia
seguimos a dança sem inspiração
dos que desmentem naufrágios:
tipo europeia a passear sem olhos
o busto de Afrodite era o seu - tópico
para lavas de corpo

mas obrigado, amor não-amor
obrigado por ter estado no inferno comigo


* Imagem: http://www.deviantart.com/browse/all/?section=&global=1&q=carvalho

quinta-feira, 16 de abril de 2015

As árvores amorosas (Parte XXIII)

*
poema para a mulher-segredo

Por Germano Xavier

em duas noites
e na dispersão dos dias
a rodovia perigosa nos viu

foto:
carro branco parado ao lado da estrada
mulher abre a porta em faceiro gesto
102 cavalos empurram um instante de amor

fato:
"deite, olha que lua!"

paramos à margem:
o Nada-breu do mundo,
totalmente erótico.

Segredo.
Ali ficamos.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Trees-IIII-103285999.

Apontamentos sobre fonética articulatória

*
Por Germano Xavier

Logo na introdução de seu livro Fonética e Fonologia, Hora (2009) já mostra indícios sobre a diferenciação conceitual dos dois termos que dão nome à obra supracitada. Sendo a linguística uma corrente epistemológica que está interessada, primordialmente, nos mecanismos estruturais da língua, há de se ter em mente a existência de algumas subdivisões de conteúdo que perfazem tal campo, a citar a Semântica, Sintaxe, Morfologia, Fonética e Fonologia, estas duas últimas preocupadas com as unidades linguísticas menores. 

Os estudos fonéticos precedem aos fonológicos quanto à marcação temporal, possuem eixos de abordagem diversificados, mas se correlacionam entre si numa relação de interdependência. A Fonética cuida dos sons da fala, destacando para isso os seus modos de produção, recepção e articulação de ordem físico-corporal.

A Fonética pode ser resumida em três configurações, cada qual com a capacidade de abordar aspectos diferentes de um mesmo objeto de estudo. São elas: Fonética Articulatória, Fonética Acústica e Fonética Auditiva. A primeira configuração dá conta dos estudos dos sons sob o prisma fisiológico. Neste ínterim, a segunda vai observar os sons a partir de suas respectivas propriedades físicas, tendo seus respectivos processos de recepção como um dos fatores mais importantes para estudo. Por fim, a terceira configuração prioriza a percepção dos sons no tocante ao aparelho auditivo. 

Historicamente, a Fonética Articulatória foi mais bem amparada pelos olhares dos estudiosos, por motivos talvez pífios, ocasionando certo ostracismo intelectual diante das outras duas modalidades. Colocando em destaque a modalidade Articulatória, Hora (2009) revela ao leitor de sua obra como se dá o processo de produção dos sons, e para isso traz à tona toda a engrenagem do aparelho fonador humano, instrumentação nata que nos permite realizá-los a todo instante, ao menor esforço possível, por meio da respiração, mais precisamente da expiração. 

Várias partes do corpo humano são utilizadas para que um som seja produzido, órgãos cujas funções basais não são as ligadas à produção sonora, mas sim à alimentação e respiração. Na laringe, o início das definições dos tipos de som se dá. Depois, as cordas vocais se encarregam de continuar a elaboração, havendo ou não vibração em suas paredes. Feito isso, a faringe e o trato vocal seguem o percurso das segmentações dos sons. 

Destarte, os sons – leia-se, sons da língua portuguesa – quanto ao modo de articulação podem ser: oclusivos, fricativos, africados, nasais, laterais, vibrantes, tepes e retroflexos. Já quanto ao ponto de articulação, os sons classificam-se em: bilabial, labiodental, dental/alveolar, palato-alveolar, palatal e velar, cada qual com suas particularidades e idiossincrasias. 

Vale salientar que todos os comandos aferidos até aqui são válidos para o estudo das consoantes. Importante destacar, também, a existência do IPA (Alfabeto Fonético Internacional), que objetiva a unificação das transcrições sonoras observadas no mundo. Para as vogais, sempre vozeadas e núcleos silábicos, as classificações se dão a partir de três prismas: quanto à posição vertical da língua (alta, média e baixa); quanto à posição horizontal da língua (anteriores, centrais e posteriores) e quanto ao posicionamento dos lábios (arredondadas e não-arredondadas).



BIBLIOGRAFIA

HORA, Demerval da. Fonética e Fonologia. UFPB, 2009. Disponível em http://goo.gl/ecYlc Acesso em 15 de abril de 2015.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O começo de outro lugar

*
Por Germano Xavier

o começo de outro lugar
parte da fé no mistério
na bandeira viajada
nos issos das curvas

o começo de outro lugar
bate em disparada em tropa
na aurora de pés ardentes
na viola-coração dos emboras

o começo de outro lugar
some no existir dos nadas
fica ao silêncio solar maduro
poeira de levantar dias

o começo de outro lugar
faz mais que história jurada
berra dentro o tempo custoso
deslerda em amor hora penada


* Imagem: http://treis-photography.deviantart.com/art/Rain-Dance-03-67033662

domingo, 12 de abril de 2015

Notas sobre morfossintaxe (pressupostos teóricos)

*
Por Germano Xavier


“Pode a palavra esvaziar-se de significado?”
(Sílvia Jussara)


PLANO DA EXPRESSÃO E PLANO DO CONTEÚDO

A resposta mais coerente para a pergunta que abre esta pequena exposição é, indubitavelmente, um SIM. Sim, a palavra pode se esvaziar de significado. Todavia, para se chegar a pensar a partir de tal viés, faz-se necessário imaginar a palavra como uma entidade quebradiça, passível de divisão e formada por inúmeras camadas, que vão desde os elementos estruturais até os seus constructos sociais e históricos que a define a depender do contexto em que se encontra inserida.

A palavra, quando diante do processo de silabação e observada em seus “pedaços” constituintes, perde a potência de seu conteúdo de referência e mergulha na esfera dos sons da língua “que, mesmo articulados em cadeia, nada significam” (CARONE, 2005, p.08). Assim, quando tomamos os fonemas e as sílabas para estudo mais detalhado, percebemos que tais estruturas não entram no campo da significância e terminam por recuarem-se ao que denominamos de plano da expressão

A parte da palavra que abarca o todo do potencial de significação é o radical. O radical indica a base para a construção imagética que temos ao ler uma palavra e todos os segmentos que se articulam ao radical permitem novas formulações no âmbito do sentido/significado. Há casos de exceção, mas no geral é o radical que permeia o que denominamos de plano do conteúdo.

O traço que permite a distinção entre esses dois planos é de natureza qualitativa: a ausência ou presença de significado. As unidades significativas são signos porque nelas se solidarizam significante e significado – dupla face de uma só entidade. (CARONE, 2005, p.09)


DELIMITAÇÃO DO CAMPO DA GRAMÁTICA

Tomando como base a ideia de unidades portadoras de significado, ou seja, daquelas que adentram o plano do conteúdo, entenderemos que a gramática dará conta apenas da morfologia e da sintaxe, deixando a parte destinada aos estudos fonéticos de fora de sua missão epistemológica.

CONCEITOS OPERACIONAIS BÁSICOS

1) Articulação: permite que as formas linguísticas sejam passiveis de análise. Pode ocorrer tanto no plano da expressão (fonemas) quanto no plano do conteúdo (unidades significativas) – princípio da dupla articulação.

2) Função: papel que um elemento constituinte exerce perante outro elemento ou que se articulam, sendo os dois interdependentes – relação de dependência, pois.

3) Substância e forma. Estrutura e construção: elementos que se relacionam e que são formadores do constructo pleno (expressão + conteúdo).

4) Análise e Síntese: perpassam o método de investigação das partes que compõem o todo e o resultado personalizado dos esforços de análise empenhados. São momentos/movimentos opostos.

NÍVEIS DE CONSTRUÇÃO NO PLANO DO CONTEÚDO

Os objetos da língua necessitam de segmentação. E a ordem para estudo, tendo como ponto de apoio o referencial obtido a partir da instância do plano do conteúdo, da menor unidade analisável até a maior, é:

1) Morfema;

2) Vocábulo;

3) Lexia;

4) Sintagma;

5) Oração;

RECURSOS GRAMATICAIS (INVARIANTES)

O sistema linguístico verbal pode ser operacionalizado de diversas formas e partindo de olhares os mais variados possíveis. O expediente de estudo científico da língua deve se pautar, pois, em algumas invariantes, tais como:

a) Ordem das palavras (estruturação sintática):

b) Composição (sequenciamento linear);

c) Afixação (formas rígidas que se articulam);

d) Alternância vocálica e Alternância consonantal (alterações que produzem fatos gramaticais);

e) Variações do acento (intensidade, altura e timbre);

f) Reduplicação (alteração no radical e reprodução imperfeita);

g) Palavras instrumentais (termos que expressam conceitos abstratos de relação).


BIBLIOGRAFIA

CARONE, Flávia de Barros. Morfossintaxe. 9 ed. São Paulo: Ática, 2005.


* Imagem:  http://dizedores.blogspot.com.br/2008/11/o-poder-da-palavra.html

Nada muito sobre filmes (Parte XV)

*
Por Germano Xavier


NOÉ

Cá para nós, bucaneiros, o filme NOÉ (2014) do diretor Darren Aronofsky é um fiasco - e minha opinião não tem nada a ver com o fato de o longa não seguir à risca o roteiro da parábola bíblica. Adaptação completamente sem sentido, entediante, diálogos desnecessários, momentos de emoção-sem-emoção e interpretações que não convencem a ninguém. Quase tudo parece não funcionar na película de quase 150 minutos e somente a fotografia do filme não fica com nota baixa - há um certo capricho aqui. De resto, desprezível. Sigamos!


MOBY DICK

Como amo esta narrativa! Como amo esta atmosfera bárbara! Sou muito, muito apaixonado pela literatura de Herman Melville, desde a novela "Bartleby, o Escriturário" até sua obra-prima: Moby Dick, um dos livros mais especiais de toda minha vida de leitor. E por falar nela, acabo de ver, pela primeira vez, o filme homônimo. MOBY DICK (1956), dirigido por John Huston, narra a história de fúria e vaidade envolvendo o Capitão Ahab e a monstruosa baleia branca que encera, dentro de si, todas as agruras e flagelos da alma de Ahab. Impossível analisar mais friamente um produto quando mergulhado numa paixão que brotou desde meus tempos mais pueris. Enfim, nem é esse o objetivo aqui... o filme é de bom gosto e não desmereceu, em nenhum momento, a magia do livro. Quem sou eu? Sou um arpoador selvagem do Pequod. E se eu fosse você, assistiria assim que possível fosse. Recomendo a todos os mortais!


1984

O filme 1984 (1984), do diretor Michael Radford, é baseado no clássico do escritor George Orwell e narra a história de um Reino Unido completamente controlado por um regime absurdamente autoritário e torturador. A ideia do Big Brother (Grande Irmão), "olho que tudo vê", permeia a vida das pessoas e impede a vivência de suas respectivas liberdades. Cinema inteligente, de se fazer relembrar leituras sobre o Panóptico, ideal penitenciário descrito por Jeremy Bentham, assim como questões foucaultianas acerca dos mecanismos do poder. O governo governa, o ser humano inexiste, a linguagem é uma arma para alienação, a privacidade é um sonho, o amor é um atentado contra a própria vida. Para melhor compreensão do filme, melhor ler o livro primeiro. Em tempos de reality shows, celebrizações do Nada e banalidade do Mal, nada mais atual para ver num domingo chuvoso. Recomendo a todos os mortais!


O CAMINHO DAS NUVENS

Sem jeito este O CAMINHO DAS NUVENS (2003), de Vicente Amorim. Atacado de clichês e boiando em estereótipos barateados que fabricam um nordeste-brasileiro-lugar-de-nadas, há muito desatualizado do real. Nossos sonhos já são outros - este pessoal todo precisa saber disso - e todo o esforço em narrar mais uma versão do traslado humano da pobreza nacional em busca de um emprego de "mil real" no sul-sudeste não conferiu ao longa um só momento de beleza. Sentimentos trabalhados (atrapalhados) com ilógicas metáforas empobrecem o roteiro. Filme em homenagem-puxa-saquismo ao cantor Roberto Carlos. Só isso ficou bem claro. Wagner Moura em seu pior filme. Sigamos, bucaneiros!


MONSTROS S.A.

Não consigo não-gostar da maioria destas animações moderninhas. São muito bem feitas e esbanjam criatividade. As personagens são por demais interessantes e as tramas, acredito, exploram ao máximo os recursos tecnológicos disponíveis. Um bom exemplo disso é o filme MONSTROS S.A. (2001), dirigido por Pete Docter, David Silverman e Lee Unkrich. Dizem por aí que essa película é até referência, motivo de outros muitos e sucesso em todos os aspectos. Tudo acontece numa fábrica de sustos, onde monstros os mais insólitos trabalham a manter de pé o estabelecimento tendo como obrigação a produção de sustos em crianças. Pode-se interpretá-lo com os olhos possíveis e diversificados. Bom mesmo, bucaneiros!


BLUE JASMINE

Mais um filme superinteressante de Woody Allen é este BLUE JASMINE (2013). Em tons de drama-comédia, a vida de uma mulher é contada desde seu "auge" - riqueza-futilidades - até o modo ativado de sua própria desgraça individual. Inapta à vida real após perder o marido milionário-trambiqueiro, que lhe punha tudo em mãos, Jasmine tenta de todas as forças reconquistar o seu lugar ao sol-ócio-luxo da vida ao passo que se enxerga dentro de um passado que não a deixa em paz um só instante. Filme sobre nossos conflitos pessoais mal resolvidos. Cinema de muito bom gosto. Recomendo a todos os mortais!


MEU PÉ DE LARANJA LIMA

Ele foi o segundo livro que li na vida. Lembro que me emocionei muito com a triste história do menino Zezé, escrita por José Mauro de Vasconcelos e publicado no Brasil no emblemático ano de 1968. Anos atrás, vi a primeira adaptação para o cinema, de 1970, e hoje pude ver a versão cinematográfica mais recente. Para minha grata surpresa, MEU PÉ DE LARANJA LIMA (2012), do diretor Marcos Bernstein, é um bom filme, com uma trilha sonora harmônica e fotografia por demais delicada. Tive medo de estragar as imagens que eu havia construído na memória, mas isso não aconteceu. Acrescentei imagens e recordei outras. O livro já se tornou um de nossos maiores clássicos literários. Narrativa que indico a todos os mortais, aos de corações jovens ou velhos. Sigamos, bucaneiros!


PERCY JACKSON E O LADRÃO DE RAIOS

Na correria, e num momento de fuga-do-mundo-real (é possível?), ainda deu para ver este tal de PERCY JACKSON E O LADRÃO DE RAIOS (2010), dirigido por Chris Columbus. Filmezinho modernoso não de todo ruim. Para a garotada, vale como uma iniciação no universo mitológico. Há referências bastante expressivas a Deuses e suas novelo-histórias. Sátiros, centauros e outros elementos de tal inventário imaginativo jogam em prol do argumento defendido pela trama. Para desanuviar, até que sim. No mais...


POCAHONTAS

Vejam só: o filme POCAHONTAS (1995), dirigido pela dupla Mike Gabriel e Eric Goldberg, revela uma Disney em-tentando "explicar" um pouco da colonização inglesa nas Américas, utilizando sua receita clássica de fazer cinema (emoção-emoção-emoção e mais emoção (apelação)), colocando como protagonista uma indígena. É interessante observar como os produtores da película empregaram as visões dos dois povos perante o processo de aculturação que se deu com o contato dos dois povos. Impossível não recordar de nossas estórias indianistas, a la José Martiniano de Alencar e companhia. Com esforço, dá para brincar de história com o filme.


127 HORAS

Um sujeito sai de casa em busca de um fim de semana de aventuras: ok. No meio daquilo que parecia apenas uma diversão e um esforço pessoal em superar seus próprios limites, Aron escorrega numa fenda rochosa e fica com um de seus braços presos por uma enorme pedra: nada ok, certo? O filme é sobre esse momento. Como e o que fazer numa situação dessas? 127 HORAS (2010), do diretor Danny Boyle, vai lhe mostrar como foram os 5 dias de aflição vividos por este homem. Tensão por longos minutos. 6 indicações ao Oscar. Baseado na história real do alpinista Aron Ralston. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: google.